Plantio Direto

 

Eficiência depende do RESPEITO às suas leis

Engenheiro agrônomo e mestre Carlos Pitol, pesquisador da Fundação MS e integrante da diretoria da Federação Brasileira do Plantio Direto na Palha

O plantio direto, que acaba de completar 40 anos do início do sistema no Brasil, sem a menor dúvida, é o grande responsável pela revolução que se processou na agricultura brasileira e que a colocou em posição de destaque em nível mundial. É o responsável direto por vários aspectos importantes que tornaram a nossa agricultura competitiva e eficiente quando comparada à agricultura altamente subsidiada de países mais desenvolvidos economicamente. É até difícil imaginar atualmente como seria a agricultura brasileira, principalmente na região dos Cerrados, caso não houvesse o plantio direto. Aliás, não sabemos se haveria vestígios de agricultura, pelo menos da agricultura voltada ao agronegócio. E a pecuária como estaria? Não fossem os benefícios da agricultura que possibilitaram a recuperação e a melhoria das pastagens e a produção de alimentos para a pecuária, com certeza ainda predominaria aquela pecuária em que são necessários até cinco hectares para sustentar uma cabeça animal, demorando de quatro a seis anos para produzir um boi.

Muitos agricultores e pessoas hoje ligadas ao setor agrícola não conheceram ou não vivenciaram os problemas e os desafios que comprometiam o futuro da agricultura antes do pleno desenvolvimento do plantio direto no Brasil. A erosão do solo era o grande câncer da nossa agricultura, e podemos dizer hoje que está batalha foi vencida. Onde o sistema plantio direto é bem conduzido este problema é tão insignificante que quase nem é lembrado quando se fala das vantagens que o sistema plantio direto propicia à agricultura. Não fosse a obstinação de muitos agricultores pioneiros, pesquisadores determinados, instituições de pesquisas que abraçaram a causa, e a contribuição e o apoio de todos os segmentos ligados à agricultura, esta grandiosa façanha não teria se concretizado e alcançado o estágio tecnológico em que nos encontramos hoje.

O produtor, que teve uma participação muito ativa para o domínio do plantio direto, deixou de participar dos eventos envolvendo o sistema e está um tanto distanciado da pesquisa

Mas, apesar de toda esta evolução tecnológica e das vantagens que envolvem o plantio direto e a nossa agricultura, há fatos e aspectos relacionados ao plantio direto que inquietam a muitos, pois comprometem, em uma área significativa, o sucesso deste sistema que potencializa a produção agropecuária, respeitando mais e preservando a natureza e o próprio homem que dela tira o seu sustento. Mas, afinal, do que estamos falando? O que está acontecendo por aí e que passa despercebido por muitos? O produtor, que teve uma participação muito ativa para o domínio do plantio direto, deixou de participar dos eventos envolvendo o sistema, como que autossuficiente, e está um tanto distanciado da pesquisa. Parece que não precisa mais desta ou das informações que ela gera.

Há uma ideia errônea de que o simples uso da mais avançada tecnologia, principalmente em máquinas, equipamentos e insumos, já garante os melhores resultados. Mas este é um grande equívoco, e talvez esteja neste ponto o grande problema. O sistema plantio direto não é uma simples prática de plantio. Ele é composto de tecnologias e princípios e, onde estes não forem respeitados, a resposta da natureza pode até ser lenta, mas a cobrança virá. Na região dos Cerrados, devido a várias características, principalmente edafoclimáticas, os problemas evoluem mais rapidamente. Esta é uma das causas do porquê de surgirem tantos problemas na região. Ou procuramos entender a natureza e seus princípios, ou vamos continuar convivendo com novos problemas, que tendem a ser cada vez mais graves, na medida em que continuarmos e nos aprofundarmos nos erros.

Rotação ignorada — A rotação de culturas, um dos pilares da sustentação do plantio direto, é quase totalmente inviabilizada pelo mercado e ignorada pelo produtor. Apesar do grande número de opções e alternativas culturais, o que vemos hoje é o domínio da monocultura nua e crua. É soja no verão e o milho denominado safrinha no outono e no inverno, ocupando grande parte da área agrícola, principalmente na região dos Cerrados.

O sistema plantio direto não é uma simples prática de plantio. Ele é composto de tecnologias e princípios e, onde estes não forem respeitados, a resposta da natureza pode até ser lenta, mas a cobrança virá

Por que há regiões e produtores que praticam, isoladamente, a rotação de culturas com sucesso e mantêm a prática na sua propriedade, não abrindo mão deste princípio? O maior argumento para não adotar a rotação de culturas é a falta de mercado destas opções complementares. A integração lavoura-pecuária (ILP) e a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) são boas estratégias para contornar as imposições do mercado para estes produtos. Com a negligência em relação à rotação de culturas, explodem os problemas fitossanitários, que vão impactar no aumento dos custos de produção e no alto uso de agroquímicos, que comprometem a qualidade dos alimentos e aumentam os riscos para o meio ambiente.

Pouca palhada — A deficiência de cobertura do solo em função do uso sistemático de cultivares superprecoces, com baixa produção de palha, menor desenvolvimento do sistema radicular, e não se complementado com culturas de cobertura do solo, estão deixando muitas áreas sem proteção superficial. E neste caso o solo adensa, compacta, diminui a infiltração da água e aí começa a voltar o problema da erosão e das enxurradas, porque os terraços já foram quase todos extintos por forte influência dos caminhos que tomou a mecanização agrícola e pela inconsequência dos produtores, que buscam a facilidade. A erosão laminar foi observada com muita frequência na última safra de verão, o que é um mau sinal. O problema é grave em função das circunstâncias em que isto está acontecendo. Com pouca palha na superfície do solo, com o plantio ou algumas operações realizadas em desnível favorecendo o escorrimento da água, e a eliminação dos terraços nas áreas com declividade, somam-se vários fatores favoráveis à erosão. Não adianta reclamar que a causa foi a enxurrada ou que justamente após a semeadura choveu tanto. A imprudência não é perdoada.

Na área fitossanitária, possivelmente estejam os maiores problemas a curto prazo. Em relação ao controle de ervas, tanto na dessecação como no manejo das ervas nas culturas, o uso extensivo do glifosato está resultando num crescente aumento de ervas resistentes. À medida que aumenta a resistência das ervas, diminui o número de princípios ativos que as controlam e aumentam o custo do controle. Um dos grandes problemas que teremos é a perda do glifosato como herbicida para dessecação e manejo das ervas no plantio direto. Isto poderia ser muito bem evitado ou prorrogado a vida útil com a rotação de culturas e de atitudes, que hoje são muito negligenciadas.

O manejo inadequado do solo e a falta de ILP ou ILPF deixam a agricultura muito exposta a perdas, principalmente por veranicos e secas, e nestas condições a agricultura sozinha carece de estabilidade

Na parte de pragas, o surgimento de alguns novos problemas a cada ano deixa claro que novas tecnologias devam ser desenvolvidas e outras aprimoradas. Da forma como hoje se combatem as pragas, os problemas tendem a aumentar. Estamos eliminando cada vez mais as barreiras naturais, deixando o caminho aberto para as pragas e doenças se desenvolvem. O plantio direto que possibilitou que muitas áreas e regiões marginais fossem incorporadas à agricultura, frequentemente é negligenciado em vários aspectos tecnológicos, comprometendo a evolução e a continuidade da agricultura nestas regiões. O manejo inadequado do solo e a falta de ILP ou ILPF deixam a agricultura muito exposta a perdas, principalmente por veranicos e secas, e nestas condições a agricultura sozinha carece de estabilidade.

O que observamos frequentemente é que o conhecimento e os princípios do plantio direto estão sendo levados de rodo pelas leis de mercado e por tecnologias que aumentam os riscos da agricultura, deixando transparecer uma grande dificuldade do produtor reagir a estas adversidades. O comodismo do produtor em optar sempre pelo mais simples, mais fácil, mais barato, sem analisar as consequências das suas atitudes em relação à qualidade do plantio direto praticado, com o passar dos anos vai levando uma parcela das áreas agrícolas no caminho de volta ao passado.

Na agricultura o produtor normalmente pensa em mudança de atitudes na época dos problemas e das crises. E por que não aproveitamos um momento ainda favorável para buscarmos a solução de alguns gargalos que parecem ser cada vez mais difíceis de resolver? Acreditamos que os princípios do plantio direto e as boas práticas agrícolas devam ser resgatadas, não para ficarmos filosofando, mas sim para mantermos e melhorarmos a qualidade do plantio direto, que tantos benefícios e vantagens trouxe para a nossa agricultura e para toda a sociedade. Afinal, se já avançamos muito, ainda temos um caminho aberto para os avanços que o sistema necessita continuamente se submeter devido ao dinamismo da agricultura.