Invasoras

 

Guerra contra daninhas inicia já na ENTRESSAFRA

Para diminuir a infestação de invasoras, uma das estratégias é reduzir a capacidade de produção de sementes ou mesmo a diminuição da sua disseminação via manejo ainda antes do plantio da safra

Eng. Agr. Dr. Mauro Antônio Rizzardi, professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo/RS; colaborador ad hoc do Instituto Phytus, bolsista Produtividade do CNPq

Os prejuízos causados pelas plantas daninhas estão entre aqueles que mais reduzem a produtividade das culturas. Essas perdas são tão intensas que variam de 20% a 80%, dependendo do grau de infestação e das espécies daninhas presentes na área. Neste aspecto, a infestação de plantas daninhas se caracteriza pela diversidade de espécies ocorrentes, onde é muito rara a presença de uma única espécie numa determinada área. Atualmente são despendidos esforços na tentativa de se buscar alternativas para o controle dessas espécies, mas, acima de tudo, é imperioso que se monte estratégias de manejo que, aliadas ao controle, possam atrasar a seleção e a proliferação de novas espécies de plantas daninhas ou mesmo o aumento na população das que atualmente ocorrem.

Infestação de plantas daninhas após a colheita do trigo. É muito importante pensar no controle antes do plantio da safra de verão

Entre as estratégias para diminuir a infestação dessas espécies encontra- se a redução na sua capacidade de produção de sementes ou mesmo na diminuição da sua disseminação. No geral, as plantas daninhas apresentam prolífica produção de sementes, mas com número médio de propágulos bastante variável de uma espécie para outra, os quais podem chegar a mais de 200 mil propágulos por planta, como é o caso de espécies do gênero Conyza spp.

Embora as sementes das plantas daninhas possam disseminar-se nas lavouras de diferentes formas, primariamente elas são introduzidas a partir da dispersão de plantas existentes na própria área, mas muito da dispersão é resultado da falta de cuidados do produtor, como os seguintes: uso de sementes da cultura com presença de impurezas e sementes de plantas daninhas; falta de controle nas áreas que circundam a lavoura ou mesmo falta de limpeza nos equipamentos e máquinas utilizadas nas práticas agrícolas ou na colheita.

Todas estas práticas, se não forem bem utilizadas, auxiliam na disseminação das sementes das plantas daninhas, contribuindo assim com futuras infestações. Em muitas situações, plantas daninhas não controladas no interior das culturas, ou mesmo aquelas que surgem no intervalo entre duas culturas, podem aumentar sensivelmente o número de sementes existentes na área, aumentando assim o potencial de interferência e intensidade das perdas no rendimento das culturas.

Para exemplificar se pode citar a capacidade de multiplicação de sementes de Bidens pilosa (picão-preto): no caso da permanência na lavoura de soja de 1 planta/hectare dessa espécie, haverá produção e disseminação de pelo menos 1.500 sementes de picão na área. Ainda, considerando que ocorrerá a emergência de cerca de 20% das 1.500 sementes logo após a colheita da soja, estas novas plantas poderão se reproduzir e aumentar ainda mais o reservatório de sementes no solo (20% de 1.500 = 300 novas plantas x 800 sementes = 210 mil novas sementes/hectare).

Disseminação de sementes de buva na lavoura de soja. As invasoras podem causar perdas de até 80% na produção

Ou seja, as plantas daninhas não eliminadas podem produzir grande número de sementes, mesmo sob condições desfavoráveis de ambiente, resultando num banco de sementes potencialmente maior nos anos subsequentes.

Assim, uma estratégia importante para se diminuir a infestação de sementes é o manejo na entressafra. De maneira geral, o agricultor preocupase no controle das plantas daninhas dentro do ciclo de desenvolvimento das culturas, onde após a colheita das mesmas deixa-se a área com presença de novas plantas até o momento em que se vai semear uma nova cultura. Atualmente, o uso de cultivares com ciclo cada vez mais curto faz com que este período seja maior, permitindo assim que as plantas daninhas se desenvolvam e consigam se reproduzir, antes da ocorrência das geadas.

Em virtude das consequências da reprodução das plantas daninhas, especialmente no abastecimento do banco de sementes no solo, deve-se, ao se tomar uma decisão sobre a necessidade de controle, incluir na mesma o impacto da produção de sementes nas decisões de longo prazo para manejo de plantas daninhas. Para isso são necessárias informações sobre a capacidade de produção de sementes pelas plantas daninhas.

As variações na produção de sementes pelas plantas daninhas representam estratégias evolutivas que as capacitam a explorar determinada área. A magnitude da produção de sementes pelas plantas daninhas pode influenciar negativamente a adoção do manejo integrado de plantas daninhas com base na abordagem de nível de dano econômico. O efeito que um único ano de reduzido controle de plantas daninhas pode exercer sobre o banco de sementes de plantas daninhas é significativo. Os retornos anuais de sementes ao solo demandarão altos níveis de controle nas culturas estabelecidas sequencialmente na área.

Estratégias de manejo — Algumas estratégias podem ser adotadas visando minimizar o impacto da elevada produção de sementes por plantas daninhas. Uma delas refere-se à época de semeadura da cultura em relação à dessecação da cobertura vegetal. Assumindo-se uma densidade de dez plantas daninhas por metro quadrado, a produção média de sementes de picão-preto aumenta de 9,6 mil para 36,2 mil por metro quadrado, quando a semeadura é atrasada de 3 para 11 dias antes da dessecação da área – um acréscimo de quase quatro vezes para um intervalo de apenas oito dias. Já para guanxuma, a produção de sementes praticamente dobrou, passando de 6,4 mil para 13,4 mil sementes m2. Reduções na produção de sementes por efeito de épocas de emergência das plantas daninhas em relação à cultura também foram relatadas para outras plantas daninhas.

A identificação do período de emergência das plantas daninhas é importante para criar e planificar um programa eficiente para seu manejo. A época de emergência das plantas daninhas durante a estação de crescimento influenciará tanto seu crescimento vegetativo quanto seu potencial reprodutivo e, ainda, sua habilidade competitiva.

A plasticidade do crescimento dependente da densidade é influenciada pelo espaço disponível ao desenvolvimento da planta e pela habilidade das espécies em ocupar esse espaço e utilizar os recursos do meio. Como estratégia de ocupação do espaço disponível, a planta altera a morfologia do dossel, regulando também o número de estruturas reprodutivas. Pesquisas demonstram que a presença da cultura e a época de emergência da planta daninha afetam o crescimento e a reprodução da planta daninha, fatores que podem causar reduções de até 96% na massa seca e na produção de sementes.

Nesse contexto, a adoção de estratégias de manejo de plantas daninhas, como arranjo apropriado de plantas da cultura e emprego de cultivares com maior habilidade competitiva, influencia negativamente tanto o acúmulo de fitomassa pelas plantas daninhas como a formação de estruturas reprodutivas.

Em consequência, essas práticas podem neutralizar os efeitos decorrentes do aumento das reservas de sementes no solo, causado pela sobra de plantas não controladas na lavoura.

Como salientado anteriormente, o emprego de estratégias de manejo das populações residuais de plantas daninhas, após a colheita das culturas, é de fundamental importância. Nestes casos, a permanência da área sem uma cobertura vegetal propiciará reinfestação da área, trazendo prejuízos no rendimento das culturas sucessoras ou mesmo maior custo financeiro ao produtor no momento do controle.

Plantas de cobertura e rotação — Neste aspecto, uma abordagem salutar refere-se à instalação de culturas de cobertura no solo ou mesmo da rotação de culturas. A cobertura morta funciona como camada isolante entre a atmosfera e o solo, altera as condições de temperatura e umidade do solo, além de liberar compostos aleloquímicos que inibem a germinação das sementes ou o desenvolvimento das plântulas de determinadas espécies. No que diz respeito às plantas daninhas, a cobertura morta modifica a constituição qualitativa e quantitativa do complexo florístico que se desenvolve no terreno, por interferir no processo de quebra de dormência das sementes e pela sua ação alelopática sobre a germinação e o desenvolvimento das plântulas.

Já a prática da rotação de culturas comumente resulta em menores densidades de plantas daninhas emergidas e em menor produção de sementes do que em situação de monoculturas.

A redução na população de plantas daninhas em sistemas de rotação de culturas tem por base o uso de uma sequência apropriada de culturas que originam diversidade nas lavouras e, dessa forma, modificam os padrões da relação cultura-plantas daninhas.

De outro modo, as estratégias químicas para impedir a produção de sementes estão associadas com a eliminação das plantas na sua fase inicial de desenvolvimento, seja dentro do ciclo normal das culturas ou no manejo de entressafra, principalmente no período de outubro/inverno. Esta época do ano é aquela em que há menor proteção do solo e, por consequência, maior possibilidade de novas infestações.

Esta prática, conhecida como dessecação, consiste na eliminação das plantas daninhas antes da semeadura das culturas, utilizando-se herbicidas com ação de contato ou sistêmica, mas geralmente de ação total sobre as plantas. Entre os herbicidas utilizados destacam-se amônioglufosinato, glifosato, paraquat e saflufenacil.