Armazenagem

 

Falta ESPAÇO, sobra prejuízo a todos

Segundo orientação da FAO, o País deveria ter uma capacidade estática de armazenagem para 220 milhões toneladas de grãos, mas nossos silos comportam menos de 150 milhões. A diferença pode ser traduzida em perdas imensuráveis

Carlos Cogo, sócio-diretor da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica, www.carloscogo.com.br

Nos últimos cinco anos a produção de grãos no Brasil aumentou em 50 milhões de toneladas, enquanto a infraestrutura para escoar a safra, transportar insumos e armazenar não avançou. Dada a lentidão com que as obras vêm sendo executadas e o crescimento da produção agrícola voltada à exportação, os congestionamentos nos portos eram mais do que previsíveis. A aposta agora é nos pacotes de ferrovias e de portos, desenhados com foco na exportação da produção brasileira. Mas as novas linhas férreas, terminais portuários e hidrovias só ficarão prontas daqui a cinco anos, se tudo correr como o planejado, restando ao Governo, no curto prazo, a ampliação da capacidade de armazenagem nas regiões deficitárias e melhorias nos atuais modais de transporte. Com a falta crescente de armazéns, é preciso ter um esquema de logística para escoar a safra rapidamente.

No Brasil, a capacidade estática atual de armazenagem soma 148,4 milhões de toneladas, para uma produção de grãos prevista em 184 milhões de toneladas. Segundo orientação da Organização das Nações Unidas para Alimentação e e Agricultura (FAO), o ideal é que a capacidade estática de um país seja 1,2 vez maior que a produção de grãos, o que de fato ocorre nos Estados Unidos, que é 1,25. No Brasil, essa relação é de apenas 0,80. Para atender a relação ideal recomendada pela FAO, a capacidade estática de armazenagem no Brasil deveria ser de 220,8 milhões de toneladas. Considerando apenas a necessidade de estocagem da safra atual, o déficit de armazenagem atinge 45,1 milhões de toneladas em 2013, considerando que os estoques de passagem de 2012 para 2013, de 9,5 milhões de toneladas, compõem uma oferta total de 193,5 milhões de toneladas.

No Brasil, apenas 16% da capacidade de armazenagem localizam-se nas propriedades dos produtores, o que sobrecarrega o transporte e a armazenagem intermediária em épocas de colheita, além de elevar a demanda de estocagem nos portos. Em 2003, 8% da capacidade estática nacional estavam nas fazendas e, atualmente, essa participação é o dobro, mas o ideal seria de 60% a 70%, como nos outros grandes países produtores. A capacidade de armazenagem de grãos de capital privado nos Estados Unidos é de 140 milhões de toneladas e a capacidade total do País atinge 540 milhões de toneladas para uma produção de grãos estimada em 466 milhões de toneladas, sendo 65% nas áreas rurais. Devido ao alto custo do carregamento de estoques, o Governo brasileiro transferiu a responsabilidade para o setor privado, diminuindo assim sua interferência no mercado.

Investimentos bem aquém — Embora crescentes, nos últimos anos os investimentos em infraestrutura de armazenagem no Brasil não acompanham o dinamismo da agricultura, afetando o sistema logístico para a movimentação das safras de grãos, com congestionamento nas estradas, portos e, sobretudo, nos pátios das instalações para recepção das mercadorias a serem guardadas. Nos próximos anos, haverá um agravamento da situação, acarretando problemas na logística de movimentação das safras de grãos e frequentes congestionamentos nos portos. Para o agricultor, o efeito direto da inadequação do sistema de escoamento das safras (transportes e armazenagem) é a queda dos preços dos produtos em face da necessidade de comercialização logo após a colheita e, com a grande oferta concentrada em uma mesma época no mercado, os preços dos grãos caem e os produtores não aproveitam o melhor período para a realização de lucros.

A baixa capacidade de armazenamento nas propriedades rurais é uma situação desfavorável do Brasil frente aos demais grandes produtores mundiais de grãos, que têm no campo a maior parcela das unidades para guardar seus produtos. Essa condição força o produtor a comercializar prontamente suas safras, na época de preços baixos, além de causar problemas de logística, com congestionamentos nas redes de armazenagem intermediária e terminal. Grandes volumes de açúcar e de fertilizantes concorrem com o espaço armazenador de grãos e há um volume considerável de fertilizantes utilizados nas lavouras brasileiras que é temporariamente armazenado. O fato de o milho ser colhido em duas épocas diferentes não aliviou a demanda de armazenagem, pois o Brasil já produz 42,6 milhões de toneladas na segunda safra.

O rápido embarque de soja com encurtamento do canal de comercialização é necessário para reduzir a pressão sobre a capacidade estática de armazenagem e impõe um prejuízo bilionário decorrente da logística deficitária no país. Na época das colheitas de grãos, os preços pagos aos produtores sofrem um forte achatamento, decorrente da alta dos preços dos fretes, das filas de caminhões nas rodovias e da demora prolongada para embarques nos portos. Considerando a produção de soja e milho das últimas cinco safras e os preços médios recebidos pelos produtores brasileiros, os prejuízos acumulados atingem R$ 6,1 bilhões, um montante de recursos suficientes para cobrir mais de 60% do déficit atual de armazenagem no Brasil. Os investimentos necessários para cobrir o déficit atual de armazenagem no Brasil estão estimados em R$ 10 bilhões.

Outro problema é a distribuição física pelo País, já que os armazéns estão concentrados em áreas anteriormente mais importantes para a produção de grãos do que atualmente. Em primeiro lugar no ranking de capacidade está o Rio Grande do Sul (31,457 milhões de toneladas), depois Mato Grosso (28,477 milhões), Paraná (27,337 milhões) e Goiás (13,078 milhões). Enquanto as Regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste concentram 92% da capacidade estática, as Regiões Norte e Nordeste são extremamente carentes dessa infraestrutura. Somente o Sul concentra 43% de toda a capacidade nacional de armazenagem, mas, ainda assim, possui um déficit de 6,7 milhões de toneladas. O maior déficit está na Região Centro- Oeste (24,6 milhões de toneladas), equivalente a 70% do total no Brasil.

Considerando apenas os espaços destinados a granéis, os mais comuns para estocar soja, milho e trigo, que representam 90% da produção total do País, a capacidade de armazenagem do Brasil cai para 121 milhões de toneladas. Considerando a projeção da safra de grãos de 184 milhões de toneladas, o País possui um déficit real de 63 milhões de toneladas de estocagem (granelizada). Se considerarmos os parâmetros da FAO, de que o Brasil tenha capacidade para armazenar 120% de sua produção, o déficit saltaria para 100 milhões de toneladas. Dos 27 estados, apenas cinco, todos sem tradição agrícola, teriam capacidade nominal para acomodar suas safras.

No Brasil, apenas 16% da capacidade de armazenagem localizam-se nas propriedades dos produtores, o que sobrecarrega o transporte e a armazenagem intermediária em épocas de colheita

Nos estados do Paraná e do Mato Grosso, os dois maiores produtores de grãos, atualmente, a falta de espaço para estocar a colheita chega a metade da capacidade dos armazéns instalados. No Mato Grosso, a capacidade de armazenagem é suficiente para acomodar somente a produção de soja. Porém, o Mato Grosso produz 16,8 milhões de toneladas de milho na segunda safra e grande parte terá que ser estocada a céu aberto ou escoada imediatamente a preços abaixo dos custos de produção para exportação. Apenas 33% dos produtores mato-grossenses têm armazéns na propriedade. O estado precisaria de armazéns para receber mais 17 milhões de toneladas e, para suportar o crescimento previsto nas próximas safras, mais 50 milhões de toneladas até 2050.

Imagem reprisada: o Mato Grosso produz 16,8 milhões de toneladas de milho na segunda safra e grande parte terá que ser estocada a céu aberto ou escoada imediatamente a preços abaixo dos custos para exportação

De todos os investimentos necessários para eliminar o caos logístico, o único que surtiria efeito no curto prazo (já na próxima safra) é a construção de armazéns graneleiros. Com mais silos, o produtor pode escalonar melhor o escoamento dos grãos e organizar a exportação dos produtos. Além disso, gastaria menos com o congestionamentos dos caminhões e, com mais capacidade de armazenamento, o produtor ganhará mais poder na formação de preço. O equacionamento do déficit de armazenagem refletiria em ganhos líquidos diretos de R$ 12 bilhões para os agricultores na próxima década, além dos ganhos resultantes do melhor escalonamento da oferta, da contratação desconcentrada dos fretes e do uso mais racional dos terminais portuários.