AP - Equipamentos

 

VIABILIZAÇÃO para todos os tamanhos

Independente do perfil da propriedade, cada produtor deve encontrar a melhor e mais prática maneira de usufruir das múltiplas aplicações da agricultura de precisão. Em Não-Me-Toque/RS, um exemplo: uma associação aproximou 60 agricultores destas tecnologias

Leandro de Nadai Geib, mestrando em engenharia agrícola PPGEA-UFSM, e Telmo Amado, professor titular da UFSM

A agricultura brasileira tem experimentado durante as últimas duas décadas profundas transformações, com ênfase ao aprimoramento do controle gerencial e à incorporação de novas tecnologias, que resultaram na modernização do processo produtivo nas propriedades rurais. Os reflexos destas transformações se fizeram sentir no expressivo incremento da produtividade das principais culturas de grãos. A busca por novas alternativas de incremento da eficiência do uso de insumos e da produtividade das culturas levou os agricultores a buscarem a agricultura de precisão (AP).

A introdução das ferramentas da AP iniciou ainda na metade da década de 90 com a utilização de equipamentos de posicionamento global (GPS), como a barra de luz que auxilia no direcionamento do deslocamento de máquinas agrícolas durante a aplicação de agroquímicos. Neste mesmo período, os sensores de produtividade de grãos começaram a equipar as colhedoras de grãos, possibilitando a geração de mapas de colheita. Ainda, a coleta de solo georeferenciada e em malha amostral permitiu espacializar a variabilidade de atributos químicos do solo.

Com isto, a aplicação de fertilizantes e corretivos, que era feita uniformemente na área, passou a ser feita de forma variada, respeitando a necessidade de reduzidas subáreas dentro do mesmo talhão (sítio-específico). Estas ferramentas tecnológicas possibilitaram conhecer a elevada variabilidade da produtividade das culturas dentro do mesmo talhão, desafiando os produtores e técnicos a reverem as práticas de manejo do solo e das culturas.

Entre as vantagens da AP destacamse o racionamento no uso de insumos e defensivos, por meio de aprimoramento da aplicação com ajuste de doses, diminuição de sobreposição proporcionada pelo sistema de desligamento de seção e de guia por GPS, diminuição do impacto ambiental e maior produtividade das culturas. Para a sociedade, o menor impacto ambiental associado à aplicação precisa. O conceito é aplicar a quantidade adequada de insumos, no local correto, na fonte eficiente e com distribuição precisa. O controle gerencial visa aumentar o retorno econômico, social e ambiental da atividade agrícola, proporcionando lavouras mais homogêneas e com produtividade superior ao manejo tradicional.

Porém, a adoção das técnicas associadas à AP encontrou uma grande limitação na sua fase inicial, que foi o elevado custo de aquisição dos equipamentos e a necessidade de um acompanhamento técnico especializado nem sempre existente. A grande maioria dos equipamentos disponíveis para AP eram importados e estavam presentes somente nas máquinas agrícolas de última geração. Este fato restringiu a adoção da AP aos proprietários com maior capacidade de investimento. Embora se destaque experiências com o equipamento virtual e aplicações à taxa variada simplificada, que levam em conta a variabilidade espacial, porém utilizam os equipamentos existentes na propriedade agrícola.

Familiares — O elevado custo dos equipamentos de AP restringiu a adoção dessa tecnologia nas pequenas propriedades, caracterizadas pela agricultura familiar. Atualmente, a agricultura familiar tem lugar de destaque na economia do Rio Grande do Sul e do Brasil, representando 27% e 10% do PIB, respectivamente. Este cenário, no entanto, está gradualmente mudando. As ferramentas da AP apresentam um elevado grau de incorporação na indústria nacional de máquinas agrícolas. Com isto, a nacionalização ou tropicalização da AP, fenômeno semelhante ao verificado com o plantio direto, tem possibilitado o lançamento de um grande número de máquinas agrícolas voltadas à AP. A cada ano, o mercado nacional é acirradamente disputado por novos equipamentos com GPS, DGPS, controladores, atuadores, sensores que equipam pulverizadores, semeadoras, colhedoras, distribuidores de fertilizantes e tratores. A popularização da AP tem permitido o lançamento de equipamentos menores, mais baratos, porém com tecnologia e eficiência muitos semelhantes às dos mais sofisticados.

Neste novo cenário, surge a oportunidade para a adoção da AP na agricultura familiar. Visando contornar o desafio da viabilidade econômica, pequenos produtores têm encontrado alternativas criativas como as cooperativas e associações, que adquirem ou contratam a prestação do serviço de forma associativa. Um exemplo a ser citado é o da Associação de Prestação de Serviços e Assistência Técnica (Apsat), localizada no município de Não- Me-Toque/RS, que conta com a participação de 60 produtores associados, totalizando 920 hectares, onde foram adquiridos em conjunto tratores, colhedoras e, recentemente, implementos com tecnologia para trabalhar com AP.

Atualmente, oito dos 60 produtores associados se reuniram em busca de alternativas para viabilizar a adoção da AP em suas propriedades. Estas propriedades servirão com base para a expansão das demais. Contando com o apoio da empresa Stara e da equipe do Projeto Aquarius, foi realizado o mapeamento de atributos químicos por meio de amostragem georeferenciadas. Posteriormente, os dados obtidos foram interpolados, gerando mapas de aplicação de insumos. Interessante registrar que mesmo em áreas menores foi verificada importante variabilidade espacial dos atributos químicos.

Atualmente, no mercado brasileiro já é possível encontrar uma gama de equipamentos, tais como distribuidores de insumos, pulverizadores com controle de seção e semeadoras precisas para o médio e pequeno produtor

Para aplicação de fertilizantes, os associados adquiriram um distribuidor centrífugo de três pontos capaz de realizar aplicação à taxa variável através de um controlador com sistema DGPS (Sistema de Posicionamento Global com Sinal Diferencial) que faz a leitura do mapa de prescrição (shape file). Em algumas áreas, a economia com insumos proporcionada pela gestão da variabilidade foi na ordem de 25% se comparada com a dose fixa que o produtor tradicionalmente utilizava.

O mesmo controlador DGPS utilizado para as operações de fertilização e correção do solo também foi utilizado em uma colhedora automotriz adquirida pela Apsat, que monitorou a produtividade das lavouras nas quais houve intervenções sítios–específico. A utilização do controlador DGPS em diversas operações é possível por meio do uso de módulos instalados em diferentes equipamentos, que permite a conexão entre o controlador e o equipamento a ser usado em determinada operação agrícola, tornando-o multiuso e reduzindo o custo de aquisição de novos equipamentos.

Indústria facilita — Diante da necessidade de modernização das lavouras, até mesmo na agricultura familiar, a indústria brasileira de máquinas agrícolas tem feito a sua parte incorporando a tecnologia desenvolvida para AP em implementos de pequeno porte, tornando o custo mais acessível para produtores de menor escala produtiva. Atualmente, no mercado brasileiro já é possível encontrar uma gama de equipamentos, tais como distribuidores de insumos, pulverizadores com controle de seção e semeadoras precisas para o médio e pequeno produtor.

Para executar a operação de fertilização, encontram-se disponíveis distribuidores centrífugos que trabalham com faixas de aplicação ajustável entre 18 a 36 metros. Estes permitem a operação na mesma faixa de pulverização e podem ser acoplados em tratores de pequeno e médio porte, no sistema de três pontos. Esses equipamentos possuem controladores eletrônicos integrado com sistema DGPS que possibilitam aplicações à taxa variável e com direcionamento do trator pela barra de luzes ou até mesmo com piloto automático, garantindo uma aplicação precisa e uniforme, com melhor aproveitamento dos insumos.

Em algumas lavouras com adoção de elevado nível tecnológico e grande aporte de insumos, ainda é reportada variabilidade espacial na produtividade, provavelmente relacionada a fatores de ordem natural e de difícil solução. Para ajustar o manejo a esta situação, a AP propõe a criação de diferentes ambientes, permitindo, por exemplo, o ajuste da população de plantas dentro da mesma lavoura. Em países onde a AP se encontra implantada há mais tempo, como os EUA e a Argentina, é comum a utilização de semeadoras com sistemas pneumáticos e capazes de variar a dose de fertilizantes e, ao mesmo tempo, realizar o ajuste de população de plantas de acordo com os diferentes ambientes.

Essa estratégia de manejo, no Brasil, inicialmente foi projetada para grandes produtores, pois o custo de aquisição desta tecnologia era mais facilmente diluído no custo de produção. Porém, com a adoção da AP nas pequenas propriedades, houve a necessidade de incluir esta tecnologia em semeadoras de pequeno porte. Atualmente, já é possível adquirir semeadoras com cinco linhas de semeadura com a mesma tecnologia das de 35 linhas, capazes de variar a população de plantas e realizar a semeadura precisa. Este sistema trabalha com o mesmo controlador DGPS utilizado em distribuidores de insumos, necessitando apenas de um módulo que permite a conexão entre controlador e semeadora, tornando o custo da tecnologia mais acessível.

Com a facilidade do controlador DGPS em operar em diferentes implementos, o produtor pode contar também com a utilização do mesmo equipamento para a pulverização agrícola. É o caso de pulverizadores com acoplamento em três pontos ou de arrasto para tratores de pequeno e médio porte com barras de 18 a 21 metros que proporcionam uma pulverização uniforme e precisa, com redução da sobreposição de aplicações, pelo desligamento automático de sessões, proporcionando economia nas aplicações de agroquímicos. No caso dos produtores da Apsat foi possível realizar um conjunto de intervenções de manejo seguindo a AP, com reflexos positivos na uniformidade da lavoura, na racionalização do uso de insumos e no aumento do grau de gerenciamento da propriedade.

Cada produtor deve encontrar a melhor forma de implantar AP em sua propriedade, seja através de terceirização de serviços, na criação de associações e cooperativas ou, até mesmo, na aquisição de implementos de pequeno porte. A tecnologia embarcada tem evoluído constantemente, facilitando a aquisição de equipamentos mais modernos e em diferentes escalas, tornando a modernização do campo uma realidade para todos independente do tamanho da propriedade. Em um futuro próximo, teremos uma distinção entre os agricultores mais pelo uso da tecnologia do que pelo tamanho da propriedade.