Reportagem de Capa

TECNOLOGIA precisa a favor da produção

Um número cada vez maior de produtores utiliza a agricultura de precisão no Brasil. Anteriormente aplicada apenas em grandes propriedades, a ferramenta alcança agora um público mais diverso, curioso e interessado nos benefícios gerados pela tecnologia. E ainda que seja longo o caminho a ser percorrido, é preciso reconhecer o esforço da pesquisa e das instituições públicas e privadas para o desenvolvimento e a maior difusão da técnica no País

Produtor Maurício De Bortoli (de boné), ao lado do agrônomo Rodrigo Rossato: intenção é aplicar a agricultura de precisão em 100% da área cultivada até 2015

Denise Saueressig
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Em 2005, quando a agricultura de precisão começou a ser utilizada pela Sementes Aurora, empresa com atuação na região noroeste do Rio Grande do Sul, o objetivo era saber a real situação da terra, com seus níveis de acidez e nutrientes. "Concluí que fazer a amostragem georreferenciada do solo seria como ir ao médico para fazer um check up completo e, depois, realizar as intervenções corretas, onde fossem necessárias", compara o engenheiro agrônomo e produtor Maurício De Bortoli.

Naquele ano, foi selecionada uma área de 148 hectares sob um pivô entre os 6 mil hectares que a empresa mantém nos municípios de Cruz Alta, Tupanciretã e Boa Vista do Cadeado. A opção pela análise numa parcela irrigada se deu pelo maior investimento que essa lavoura demanda e, consequentemente, pela maior necessidade de controlar custos. "Quando os insumos não custavam tão caro, se falava menos em agricultura de precisão. Hoje, os fertilizantes respondem por 50% dos custos fixos da soja e do milho. Percebemos que as decisões tomadas de forma comum acabavam gerando incorreções e gastos desnecessários. Agora, com o diagnóstico detalhado, conseguimos fazer interferências localizadas e em pontos estratégicos, o que resulta em um sistema mais racional e mais econômico", analisa o produtor.

Na área escolhida para dar início ao projeto, o milho é cultivado por quatro safras seguidas e, durante um ano, a soja é plantada. A família De Bortoli notava que em alguns pontos do talhão as plantas de milho cresciam de maneira desuniforme, abaixo do ideal. A amostragem georreferenciada permitiu identificar detalhes – carências ou excessos – nos níveis de macronutrientes primários (fósforo e potássio), macronutrientes secundários (cálcio, magnésio e enxofre) e micronutrientes (zinco e boro). "Essa área já está passando pela terceira amostragem e percebemos resultados muito bons relacionados à uniformidade de nutrientes e à produtividade", conta De Bortoli.

Mesmo considerando aspectos favoráveis relacionados ao clima e ao manejo, o uso das ferramentas de precisão também ajudou a incrementar o rendimento no talhão. Em 2005, foram colhidas 151 sacas de milho por hectare, enquanto em 2011 a média foi de 217 sacas por hectare.

Exemplo de mapa de análise realizada para medir o teor de fósforo em fazenda da empresa Sementes Aurora

Pacote de ações — Na última safra, a amostragem de solo georreferenciada foi utilizada em torno de 30% da área cultivada pela Sementes Aurora, abrangendo o plantio em nove pivôs. Até 2015, a meta é utilizar a ferramenta em 100% das terras, incluindo as áreas de sequeiro. "O investimento em agricultura de precisão é três vezes maior em comparação com a amostragem convencional, mas, quando os devidos ajustes são feitos no solo, o retorno financeiro chega logo depois do primeiro ano de uso. Não conseguimos calcular uma diminuição homogênea nos gastos com fertilizantes, mas estimamos uma economia entre 10% e 30%, dependendo da situação da área", relata o produtor.

Pesquisador Ricardo Inamasu: difusão do conhecimento possibilitou que o produtor tivesse acesso aos benefícios da tecnologia

Também está nos planos a incorporação de novas tecnologias, como a aplicação variável de defensivos. As colheitadeiras adquiridas nos últimos anos já vieram equipadas com mapas de colheita que, em breve, serão implantados em 100% da frota. "Como somos cadastrados no Programa ABC, de agricultura de baixo carbono, conseguimos adquirir parte dos equipamentos de forma subsidiada", declara De Bortoli. O produtor acha importante lembrar que, além de investimentos financeiros, a agricultura de precisão é uma ferramenta que demanda tempo, dedicação e qualificação da mão de obra. "A tecnologia não pode ser utilizada de forma isolada na propriedade. É uma ferramenta que integra um pacote de ações para o produtor que tem consciência que precisa ser o gestor estratégico do seu negócio", ressalta.

Respeito às diferenças — O depoimento do produtor gaúcho Maurício De Bortoli ajuda a ilustrar a importância que a agricultura de precisão, ou simplesmente AP, passou a ter na produção brasileira nos últimos anos. Se comparada a outras tecnologias incorporadas há décadas, como o plantio direto, por exemplo, a ferramenta é de uso recente no País, com registros iniciais em 1995, quando houve a importação de equipamentos, principalmente colheitadeiras equipadas com monitores de produtividade.

No Boletim Técnico publicado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o professor da Esalq/USP José Paulo Molin (veja o artigo dele nesta edição, página 36), um especialista no assunto, afirma que "a prática remonta aos anos 1980, quando, na Europa, foi gerado o primeiro mapa de produtividade e, nos Estados Unidos, fez-se a primeira adubação com doses variadas. Mas o que deu o passo determinante para a sua implementação foi o surgimento do GPS (Sistema de Posicionamento Global por satélite), em torno de 1990".

As técnicas da AP estão baseadas no respeito às diferenças e no reconhecimento das potencialidades do solo. É um sistema de gestão da lavoura que leva em conta a variabilidade espacial da propriedade para aumentar o retorno econômico e reduzir o impacto ao meio ambiente. Mas, durante algum tempo, a AP esteve muito mais relacionada a equipamentos sofisticados e softwares. "Essa era a imagem que a maior parte dos produtores tinha da tecnologia. Aos poucos, a pesquisa foi apresentando o que os processos eletrônicos poderiam fazer pela produção, gerando uma cadeia de conhecimento sobre o assunto. Para o produtor, era importante informar o retorno econômico que ele poderia ter ao utilizar a ferramenta", conclui o pesquisador Ricardo Inamasu, da Embrapa Instrumentação Agropecuária.

Embrapa mantém uma Rede de Pesquisa voltada para a agricultura de precisão. Estão envolvidos mais de 200 pesquisadores de 22 unidades da empresa. "Nosso objetivo está direcionado para a difusão da informação. Estamos conseguindo avançar em muitos aspectos, mas precisamos lembrar que existem produtores que sequer fazem análise de solo convencional nas suas propriedades", salienta Inamasu, que também é coordenador da Rede. "A minha expectativa é de que no futuro não precisemos mais explicar sobre agricultura de precisão e que os profissionais que vão a campo tratar de uma doença nas plantas, tratem também automaticamente das diferenças que existem na terra. Acredito que esses conceitos serão incorporados automaticamente pelos produtores e pelas universidades", destaca.

Diferencial para a sustentabilidade — Foram as diferenças num mesmo talhão que motivaram o engenheiro agrônomo, produtor e consultor Endrigo Dalcin a investir em AP. Em 2008, quando a área plantada na propriedade em Nova Xavantina/MT era de 800 hectares, a tecnologia foi aplicada sobre 150 hectares. Agora, o cultivo ocupa 3,7 mil hectares e a AP está presente em 100% da área. Em locais onde a aplicação variável de corretivos e fertilizantes já ocorre há cinco anos, os benefícios são concretos, atesta o produtor. "Ganhamos agilidade no plantio, o que ajuda a seguir a janela certa para a semeadura da soja, concentramos a entrega de matéria-prima, o que resulta em menos custo de frete, e reduzimos os riscos de salinização do solo pelo excesso de adubos", cita Dalcin.

O incremento de produtividade na soja é estimado em até 15%, e o trabalho de correção do solo também ficou mais rápido. "Antes, o tempo para alcançar os índices corretos de nutrientes chegava a três ou quatro anos. Agora, no segundo ano já percebemos a diferença", acrescenta o agrônomo. O aumento no rendimento também foi notado no milho, que é cultivado na segunda safra. Mesmo considerando que as novas variedades de sementes tenham parcela fundamental nesse crescimento, Dalcin acredita que a melhor fertilidade do solo colaborou para ampliar em até 25% as médias do cereal.

Os altos investimentos aplicados nos últimos anos valeram muito a pena e formam um diferencial importante para a sustentabilidade do sistema, aponta o produtor. A última aquisição foi de uma colheitadeira já equipada com monitor de produtividade e GPS, com custo de R$ 700 mil. A compra foi com recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO), com juros de 5% ao ano e prazo para pagamento de dez anos. "No futuro, a intenção é que todas as nossas máquinas de colheita tenham esse equipamento", projeta. Nos próximos anos, os investimentos não devem parar, diz Dalcin, que também presta consultoria em AP para outros produtores. "Sabemos que as tecnologias estão avançando. Um cliente nosso, por exemplo, está fazendo a distribuição de sementes em taxa variável com bons resultados", descreve.

Projeto precursor — Uma das iniciativas que mais têm colaborado para a difusão de informações sobre AP no Brasil iniciou em Não-Me-Toque/RS, no ano 2000. O Projeto Aquarius, que tem parceiros representando o setor privado, os produtores e a pesquisa, teve como primeiro objetivo comprovar a viabilidade da adoção da AP em propriedades agrícolas. "Os resultados iniciais revelaram elevada variabilidade espacial de fósforo, com teores abaixo do estabelecido como crítico. Também constatou-se grande variabilidade de produtividade de soja e milho, que alcançava valores superiores a 100% no mesmo talhão", lembra o engenheiro agrônomo Telmo Amado, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e coordenador técnico do projeto desde 2004.

Os principais benefícios da ferramenta foram logo percebidos com a melhoria da fertilidade do solo, a uniformização da lavoura e a racionalização no uso de insumos, que, no caso do calcário, alcançou 25% e, no do potássio, 15%. As produtividades incrementaram entre 5% e 10%. Amado recorda que, embora com resultados importantes, a expansão da AP há alguns anos era travada pelo elevado custo da tecnologia e sua restrita aplicação. "Com o avanço das pesquisas houve também uma grande evolução da tecnologia e da indústria de máquinas. O custo caiu consideravelmente e sua aplicação passou a ser mais ampla, alcançando a pulverização, a escarificação e a semeadura precisa", diz.

O Aquarius chegou a envolver propriedades em 13 diferentes municípios gaúchos. Hoje, as pesquisas estão concentradas em quatro fazendas e envolvem diversas tecnologias de AP aplicadas de forma conjunta, com o ciclo completo e com uma pesquisa com maior grau de refinamento. O projeto é desenvolvido em parceria por UFSM, Cooperativa Cotrijal, Fazenda Anna, Massey Ferguson, Pioneer, Stara e Yara. As principais linhas de pesquisa incluem a distribuição precisa de sementes, evitando erros no espaçamento de plantas na linha; a utilização de base RTK, visando à melhoria da aplicação de agroquímicos e da implantação da lavoura; o tráfego controlado, visando diminuir a compactação e aumentar o armazenamento de água; a utilização de sensores ópticos para prescrição da adubação nitrogenada diretamente na lavoura; a utilização de sensores de solo para determinação de zonas de manejo; e o ajuste da população de plantas de acordo com a zona de manejo.

Projeto Aquarius, desenvolvido no interior gaúcho, tem parceiros representando o setor privado, os produtores e a pesquisa

Na opinião do professor Telmo Amado, o Aquarius tem grande contribuição para a expansão da AP no País pela divulgação de resultados de pesquisa que orientam produtores e técnicos. "Também tem sido uma oportunidade de treinamento de pessoas nos mais diferentes níveis da graduação até o doutorado, possibilitando a criação de várias empresas de prestação de serviço em AP. O projeto ainda mantém um site, e as publicações estão disponíveis de forma gratuita. Foram realizadas mais de 300 palestras em diferentes regiões agrícolas do País, e recebemos excursões e visitas técnicas com muita frequência. Na Expodireto, o projeto mantém um estande onde os principais resultados são apresentados anualmente", enumera.

Produtor Endrigo Dalcin: AP favoreceu o rendimento das lavouras e diminuiu os riscos de salinização do solo pelo excesso de adubos

Impulso cooperativo — O trabalho feito pelas cooperativas vem sendo fundamental para uma maior disseminação da agricultura de precisão, especialmente entre os médios e pequenos produtores. No Rio Grande do Sul, o Projeto Cooperativo de Agricultura de Precisão (APcoop) promove, desde 2007, cursos e treinamentos em módulos por assunto de interesse, para qualificar os assistentes técnicos das cooperativas envolvidas. "Também realizamos palestras e dias de campo com o objetivo de desmitificar e esclarecer aos produtores o potencial que a agricultura de precisão representa na atual conjuntura", revela o engenheiro agrônomo Jackson Fiorin, pesquisador da CCGL TEC/Fundacep, com sede em Cruz Alta/RS.

Em parceria com a UFSM, o trabalho da CCGL (Cooperativa Central Gaúcha) ajudou a estruturar projetos de AP em 22 cooperativas. Além do treinamento da equipe técnica, essas empresas investiram na aquisição de equipamentos para amostragem de solo, distribuidores à taxa variada, GPS, penetrômetros e sensores de rendimento. A estimativa é de que as ações do APcoop tenham a adesão de mais de 4 mil produtores em 160 municípios, numa área de 203.170 hectares no Rio Grande do Sul. "Com base no levantamento de dados, foi constatado que, mesmo considerando os custos envolvidos, o retorno econômico ao produtor que adotou AP foi positivo, variando de 9,2% a 13,7%", sustenta Fiorin.

difusão e a popularização da agricultura de precisão nas mais diferentes regiões e sistemas produtivos do Brasil estão acontecendo de maneira intensa, avalia o pesquisador. No entanto, alguns desafios precisam ser considerados. "Os mais importantes são o fator econômico associado aos custos envolvidos, a falta de conhecimento e o treinamento da mão de obra", frisa.

O engenheiro agrônomo Fabrício Povh, pesquisador da Fundação ABC na área de AP, acredita que a adoção das ferramentas entre pequenos e médios produtores nunca foi realmente um problema. Na opinião dele, com o surgimento de empresas prestadoras de serviços, o pequeno agricultor pode ter os mesmo benefícios de um grande produtor. "A diferença é que, no início, os grandes tinham condições de adquirir os equipamentos com mais facilidade, entretanto, sem ter alguém especializado na fazenda corre-se o risco de não aproveitar tudo o que as ferramentas têm a oferecer. Em teoria, boa parte dos problemas são resolvidos quando o agricultor tem acesso a um bom prestador de serviços. Os pequenos produtores também podem se associar para compartilhar certas ferramentas, contratar os serviços de uma empresa ou trabalhar por meio das cooperativas, o que já vem sendo feito", argumenta.

Projeto APcoop promove desde 2007 cursos e treinamentos para assistentes técnicos das cooperativas envolvidas

Desde que iniciou seus trabalhos em agricultura de precisão, em 1999, a Fundação ABC de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário, com sede em Castro/PR, desenvolve e avalia tecnologias para que o produtor saiba o que existe de mais eficiente no mercado. Os resultados obtidos nos estudos são repassados para as equipes técnicas das cooperativas paranaenses Capal, Batavo, Castrolanda, Coopagrícola e da paulista Holambra Paranapanema.

Parceria pela rentabilidade — No Paraná, a C.Vale, que tem sede em Palotina, iniciou um projeto em AP em agosto do ano passado. A cooperativa investiu em quadriciclos equipados com brocas especiais e GPS para a coleta de amostras de solo. "Nossos técnicos se deslocam até as propriedades, realizam a coleta e encaminham as amostras para o laboratório. Posteriormente, são gerados mapas que apontam as recomendações para os produtores", detalha o engenheiro agrônomo Diego Gambaro, supervisor do departamento Agronômico da C.Vale. O custo pela prestação do serviço varia conforme o tamanho do grid (área avaliada por amostra), e o valor pago pela análise é diferenciado, já que a cooperativa firmou parceria com laboratórios.

A receptividade por parte dos associados vem sendo bastante positiva, revela Gambaro. Segundo ele, o perfil dos produtores que procuram o serviço é bem variado e, em média, as propriedades examinadas têm 40 hectares. "O produtor está aberto às novas tecnologias e, com a agricultura de precisão, logo consegue visualizar seus problemas de fertilidade e traçar a melhor alternativa para sua solução", constata. A análise georreferenciada do solo é a primeira parte do projeto da C.Vale. A intenção, nos próximos anos, é ampliar o serviço oferecendo outras opções que melhorem a utilização dos insumos por parte dos cooperados. "Sabemos que é apenas um começo, e o nosso objetivo é que o produtor consiga aumentar sua rentabilidade, iniciando pelo manejo do solo, que é a base de todo processo agrícola", justifica o agrônomo.

Pereira da Cruz garante que são concretos os benefícios da AP na sua área de 150 hectares. Com cultivo de soja no verão e milho na safrinha, ele diz que começou a utilizar análise georreferenciada do solo para ampliar a produtividade e reduzir custos. Em parceria com uma empresa de agroquímicos, o produtor iniciou o trabalho na propriedade em 2005 e, hoje, recebe o apoio do projeto da C.Vale. Nos últimos cinco anos, Cruz calcula que teve um incremento de 20% na sua produtividade. Na última safra, o rendimento da soja foi de 68 sacas por hectare. Para o milho, ele espera uma colheita de 100 sacas por hectare no atual ciclo. "A utilização dos adubos de forma adequada e com exatidão já faz uma enorme diferença. Mas todo o processo envolve a união do planejamento, da tecnologia e do gerenciamento das atividades", ensina.

Produtor Francisco Pereira da Cruz (de boné) recebe orientação de técnico da C.Vale na sua propriedade em Maripá/PR

Apoio do Governo — Com o intuito de difundir e fomentar os conceitos e as técnicas da AP no País, o Ministério da Agricultura criou, em setembro do ano passado, a Comissão Brasileira de Agricultura de Precisão (CBAP). Os integrantes são profissionais de diferentes segmentos envolvidos na área, como indústria, produtores, academia e serviços. Uma das primeiras preocupações da comissão é levantar e descrever o que existe em AP no Brasil para que seja realizado um diagnóstico do uso da ferramenta pelos produtores rurais. "No setor de serviços, por exemplo, já catalogamos cerca de 120 empresas que prestam assistência ao agricultor", informa o secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do ministério, Caio Rocha. A comissão também está atuando sobre desafios previamente observados, como a organização do conhecimento já produzido, o treinamento e a capacitação. O plano de ação propõe, entre outras iniciativas, a criação de uma linha de apoio para AP, a promoção de encontros técnicos e a parceria na realização de cursos e treinamentos.

Conceito amplo — Além do desafio de difundir o uso da ferramenta, o processo de desmitificação da AP passa pela ruptura de alguns conceitos. "É importante dizer que a técnica não precisa necessariamente de equipamentos específicos e sofisticados para ser colocada em prática. Em alguns casos, a AP pode ser aplicada apenas com uma prancheta", aponta o pesquisador Ricardo Inamasu, da Embrapa. Ele dá exemplos de variabilidade de qualidade numa mesma área. "Temos um caso observado numa lavoura de café, onde, depois de três anos de estudos, concluiu-se que 20% da área produzia grãos com melhor qualidade. Pesquisa semelhante foi feita numa área de vinhedos onde em quatro hectares havia sete tipos de solo, e a qualidade do vinho variava conforme a área de cultivo da uva. Nesses dois casos, a precisão foi obtida com análise sensorial", observa.

O pesquisador Fabrício Povh, da Fundação ABC, acrescenta que, se o produtor consegue diferenciar as áreas utilizando apenas seu conhecimento, não deixa de ser considerado AP. "As novas tecnologias ajudam a mapear e quantificar a variabilidade de maneira mais detalhada. Mas muitas questões levantadas durante este mapeamento da variabilidade podem ser respondidas pelo próprio agricultor", avalia.

É preciso pesquisar mais — A evolução tecnológica em AP foi importante nos últimos anos. No entanto, ainda há temas que precisam de mais pesquisa e trabalho para um desenvolvimento mais consistente. O especialista da Fundação ABC reconhece que existem técnicas que são utilizadas há mais de dez anos fora do Brasil e ainda estão em fase inicial no País. "Os monitores de colheita para culturas de grãos, que chegaram ao Brasil em meados da década de 90, ainda não são amplamente utilizados ou, pelo menos, não da forma como deveriam. E na mesma linha seguem os sensores para aplicação de nitrogênio em taxa variável e os sensores de solo. Também nos faltam resultados de pesquisa gerados internamente. A comunidade de pesquisa em AP ainda é pequena no Brasil quando comparada com outras áreas do conhecimento. Da mesma forma que os investimentos em pesquisa", declara.

Segundo ele, a utilização em taxa variável de defensivos como herbicidas e reguladores de crescimento estão sendo estudados com mais frequência, assim como a aplicação de reguladores de crescimento com base na biomassa da cultura (estimada por sensores de reflectância), a aplicação de herbicidas apenas sobre as plantas daninhas identificadas pelos mesmos sensores de reflectância, ou ainda aplicação de herbicidas pré-emergentes com base na variabilidade da matéria orgânica do solo. "Já a utilização com fungicidas e inseticidas é algo mais recente, devido à dificuldade de modelar a variabilidade espacial de pragas e doenças. A dificuldade é proporcional à dinâmica da evolução de determinada praga ou doença. Mas em casos como os de nematoides, que possuem mobilidade reduzida no solo, a ferramenta poderia ser aplicada não fosse o custo elevado das análises e a quantidade de amostras necessárias para conseguir modelar a variabilidade", explica.

As máquinas que possuem dispositivos que ligam, dosam e desligam de forma automática não são sucessos de mercado, acrescenta o pesquisador Ricardo Inamasu. "Muitos ainda são protótipos. Talvez o principal desafio esteja no processo de identificação do alvo. Sensores que detectam plantas daninhas estão no mercado. Sensores óticos que detectam estresse em plantas estão sendo pesquisados para localizar e mensurar o nível de infestação de uma determinada praga", pontua.

Outra técnica considerada viável e com grande potencial para a exploração é a distribuição de sementes em taxa variável. "Tivemos resultados importantes com soja e milho. Ficou nítido que são vários os fatores que podem contribuir para a resposta positiva da cultura, mas muitas vezes esses fatores estão combinados em uma mesma área. A base para o uso da taxa variável de sementes é oposta entre a soja e o milho. Na soja, se reduz a população de plantas em áreas mais férteis ou com maior disponibilidade hídrica para evitar o acamamento e aumenta-se a população em áreas mais fracas. No milho, pode-se aumentar a população em áreas melhores e reduzir nas áreas fracas", compara Povh.

Engenheiro agrônomo Bruno Gherardi: controle de tráfego pode ajudar no aumento da produtividade e traz benefícios operacionais

Sistema para evitar a compactação — As ferramentas da agricultura de precisão podem ser utilizadas em funções distintas daquelas que são comumente vistas na agricultura brasileira. Na Fazenda Arrossensal, em Nortelândia/MT, a empresa Cruzeiro do Sul Grãos implantou, na última safra, um sistema de controle de tráfego (CT) com a utilização do sistema RTK de correção de posicionamento. "Na Austrália, onde o controle de tráfego foi desenvolvido, a técnica é facilitada pela adequação das máquinas utilizadas nas diversas etapas da lavoura. No Brasil, esse processo é mais complicado pela dimensão dos equipamentos, já que não foram desenvolvidos para possuírem as mesmas dimensões de largura e adequar o tráfego das máquinas sobre a mesma linha do plantio, definida pelo GPS de alta precisão do sistema RTK", relata o engenheiro agrônomo Bruno Gherardi, técnico da Cruzeiro do Sul Grãos.

Com o uso da tecnologia, na safra 2012/2013 todas as operações, com a exceção da colheita, foram adequadas. Nos 10,8 mil hectares cultivados com soja na fazenda, o objetivo era analisar como a passagem do pulverizador sobre as plantas afeta a produtividade. No CT, são criadas pistas para o trânsito dos rodados dos equipamentos entre as linhas de plantio. "Na pulverização cruzada, a estimativa é de que haja pisoteio em cerca de 4% da lavoura, o que representa perdas de produtividade", exemplifica Gherardi.

Quando as máquinas ficam restritas à área delimitada para o tráfego, a compactação ficará apenas nessa zona, favorecendo, em associação com o plantio direto, a infiltração de água no solo e as condições de crescimento para as raízes das plantas. "A restrição da compactação também traz benefícios operacionais, uma vez que a superfície compactada reduz a patinação das rodas e gera economia de combustível. Além disso, plantas que não são pisoteadas têm menos chance de desenvolver doenças", complementa o agrônomo.

O projeto implantado na Fazenda Arrossenssal teve custo de R$ 140 mil, considerando a tecnologia necessária para o sistema RTK, de geração e recebimento de informações em todas as máquinas agrícolas. "Se o benefício for de uma saca por hectare, o retorno financeiro será de R$ 430 mil, com o preço da saca a R$ 40 em Mato Grosso", calcula Gherardi. A aplicação variável de fertilizantes também está sendo utilizada na propriedade. Um dos primeiros passos, na última safra, foi homogeneizar os níveis de nutrientes como fósforo e potássio. Para executar a operação foram adquiridos três equipamentos para a aplicação em taxa variável com custo de R$ 45 mil, mais o investimento em análise de solo de cerca de R$ 40 mil. "Nesse primeiro ano, houve retração de 180 toneladas de cloreto de potássio em comparação com a adubação tradicionalmente feita na fazenda, ou seja, uma economia de mais de R$ 150 mil, mesmo com o alto custo em análise de solo", menciona o agrônomo.


QUALIFICAÇÃO DA MÃO DE OBRA FAZ A DIFERENÇA

O Senar começou a projetar um trabalho na área há três anos, a partir de demandas de algumas administrações estaduais

Assim como ocorre em outros setores da economia e nos próprios segmentos do agronegócio, a capacitação da mão de obra é um dos principais desafios do Brasil para a maior difusão da AP. Referência na qualificação de trabalhadores em todo o País, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) começou a projetar um trabalho na área há três anos, a partir de demandas de algumas administrações estaduais. Ao mesmo tempo, houve a procura pela Embrapa e pelo Ministério da Agricultura, que buscavam parceiros na área, observa Patrícia Machado Gomes, coordenadora da Área de Projetos e Programas Nacionais do Departamento de Educação Profissional e Promoção Social do Senar. "A partir daí, iniciamos várias ações abrangendo duas vertentes: uma demanda específica na área das máquinas agrícolas precisas e a outra na área de disseminação do conceito como sendo uma ferramenta de gestão", explica.

Embora algumas ações tenham sido realizadas em 2011 e 2012, os treinamentos para os produtores e trabalhadores ainda não iniciaram de forma geral, no Brasil. A intenção, segundo Patrícia, é nacionalizar um programa de AP que foi desenvolvido pelo Senar no Rio Grande do Sul, o único estado onde já houve turmas nas áreas de operação e manutenção de máquinas agrícolas precisas. As capacitações realizadas pelo Senar Administração Central foram para os instrutores de administrações regionais e ministradas por universidade e empresas parceiras fabricantes de máquinas. Em 2012 foram dez estados participantes – Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí, Maranhão, Bahia, Rio Grande do Sul e Paraná.

O programa que será lançando nacionalmente terá 120 horas, dividido em sete módulos, com encontros presenciais (teoria e prática) e terá como públicoalvo trabalhadores operadores de máquinas agrícolas precisas, com idade acima de 18 anos, com habilitação. "Estamos bem otimistas para os próximos anos, porque este é um mercado que tende a crescer cada vez mais. A demanda por parte dos produtores rurais em relação à mão de obra qualificada para atender este setor também está cada vez maior", assinala Patrícia.

Para ela, é importante que o produtor entenda que a AP é uma ferramenta de gestão e não apenas um sistema vinculado à alta tecnologia. "O conceito de agricultura de precisão preconiza que cada área de uma propriedade deve ser trabalhada de forma diferente, pois tem características diferentes. Assim, é possível diminuir custos e aumentar a produtividade. Este conceito precisa alcançar principalmente os pequenos e médios produtores, que devem saber que é possível fazer AP sem máquinas caríssimas e sem altos custos de produção", conclui.


IMPLANTAÇÃO DE UM ESQUEMA DE CONTROLE DE TRÁFEGO

* Combinar a largura dos equipamentos de modo que cada equipamento possa usar os rastros (pistas) pré-existentes (por exemplo, uma barra de pulverização ou um distribuidor de fertilizante granulado de 27 metros de largura, combinado com 13,5 metros das plantadeiras);

* Ajustar as bitolas e as larguras dos pneus de todos os equipamentos (por exemplo, todas as bitolas são de 3 metros e os pneus com no máximo 42 centímetros de largura);

* Disciplinar o tráfego sobre o mesmo rastro ano após ano, com uso do GPS de alta precisão (RTK).