Glauber em Campo

 

O QUE ESPERAR DO MERCADO ASIÁTICO

O consumo de proteína na Índia tem crescido significativamente, impulsionado pelo crescimento econômico da população. Os hábitos alimentares dos indianos com a globalização estão mudando, jovens começam a ir aos fast foods, a internet tem levado os jovens a experimentar o diferente

GLAUBER SILVEIRA

Estive recentemente na China e na Índia, onde tive a oportunidade de me reunir com representantes do setor privado e governamental para discutirmos quais as tendências de futuro do mercado asiático, o que nossos principais compradores de soja estariam interessados em comprar e qual seria o potencial de crescimento da demanda. A Ásia a cada ano se torna mais importante, e precisamos estar atentos às expectativas destes consumidores.

Em todas as reuniões ficou clara a importância do Brasil como fornecedor de soja. No último ano, a China importou 27 milhões de toneladas do Brasil e, neste ano, deve passar de 30 milhões. Mas também ficou claro em todas as reuniões que a China tem noção de que a ineficiência de logística do Brasil é uma das principais preocupações no curto prazo para manter o País como seu principal fornecedor, afinal, o Brasil tem investido pouco em Infraestrutura: 1,7% do PIB, contra 8% da China e 7,6% da Índia.

Na China começa a haver mudanças sobre a tendência do mercado na relação entre transgênicos e nãotransgênicos. Tanto o setor privado quanto o governamental nos informaram que a grande massa é menos sensível a isto; compra o mais barato. Mas que uma parcela importante da população chinesa, melhor colocada economicamente, estaria atenta e teria preferência por produtos não-transgênicos.

Da China seguimos para a Índia, onde fiquei surpreso com o contraste entre os dois países mais populosos do mundo: a China é extremamente organizada e a Índia, o caos. Fiquei impressionado como os indianos conseguem conviver entre si com tantas religiões, dialetos e diferenças de classe. A Índia é uma experiência que não consegue ser contada, apenas vivida, e recomendo a todo político brasileiro conhecer.

Na Índia, na embaixada brasileira, tivemos uma reunião com a consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), discutindo sobre o mercado de carnes na Índia. O indiano Mudit Agrarwal, da PwC, nos fez um relato detalhado sobre a evolução do mercado de carnes na Índia, o que nos interessou muito principalmente pela perspectiva de ocorrer na Índia o processo de importação que ocorreu na China, tendo ali um mercado importador em construção.

O consumo de proteína tem crescido significativamente, impulsionado pelo crescimento econômico da população. Os hábitos alimentares dos indianos com a globalização estão mudando, jovens começam a ir aos fast foods, a internet tem levado os jovens a experimentar o diferente e, com isso, vegetarianos deixam de ser vegetarianos e consomem carne de frango. É importante salientar que, por questões religiosas, o consumo de carne bovina e de suínos na Índia é quase nulo.

A Índia é a população que mais cresce no mundo. Já são 1,22 bilhão de habitantes, com uma renda per capita de US$ 1.200, ainda muito baixa, mas que dobrou nos últimos cinco anos. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 11% em 2012. Com isso, o setor de frango cresce 15% ao ano, e o de ovos cresce 7%. Somado a isto, há ainda o mercado de leite, que se expande 8% ao ano. E olha que a Índia produz 13% do leite do mundo, e apenas 20% do rebanho leiteiro indiano recebe ração.

A média de consumo de carne de frango por indiano é de 3,3 quilos/ ano, e de 57 ovos/ano, enquanto a recomendação do Instituto Nacional de Nutrição da Índia recomenda 11 quilos e 180 ovos. Mas vale ressaltar que em 2003 o consumo de carne era de 1,4 quilo/habitante, um crescimento de 135% desde então. Institutos projetam que nos próximos dez anos, a média de consumo de carne por indiano supere os 11 quilos

Quando se entra Índia adentro conseguimos ver o potencial econômico e de crescimento deste país. Cidades inteiras sendo construídas, mas, como todo país em crescimento acelerado, a urbanização é crescente e o governo busca equilibrar o anseio da população com suas ações políticas. Como podemos ver, existe um mercado em construção, e este mercado também está olhando para o Brasil. A nós brasileiros fica o dever de casa a ser feito para aproveitar e atender mais este mercado.

Engenheiro agrônomo, produtor e presidente da Aprosoja Brasil