O Segredo de Quem Faz

 

Do SEMINÁRIO para 3 mil hectares

Enquanto alguns contam com a sorte, outros criam oportunidades. Para Egon Jung, um dos 11 filhos de um casal de chacareiros, ter saído de São Luiz Gonzaga/RS no final dos anos 1970 e hoje ser dono de 3 mil hectares em Canarana/MT e administrá-los junto com os filhos é a realização de um sonho. Ao chegar ao Centro-Oeste, Jung, que tinha acabado de ser dispensado de um seminário por "falta de vocação ao sacerdócio", não possuía nada além de uma certeza: "Quero encontrar um lugar melhor para viver". Foi um financiamento do Banco do Brasil que possibilitou a aquisição dos primeiros hectares. Depois, se deram as sucessivas compras de propriedades vizinhas até as lavouras de soja e milho, além do confinamento de bois.

Thais D'Avila

A Granja — Como surgiu a ideia de sair do Rio Grande do Sul e tentar a vida em outro lugar?

Egon Jung — No ano de 1977 eu fui estudar em Salvador do Sul, perto de Porto Alegre (70 quilômetros), em um colégio de padres. Fiquei um ano, até terminar o ensino médio. E em 78 eu passei para Florianópolis, para fazer a faculdade de Teologia e me formar padre. Lá eu estudei até agosto ou setembro. E os padres resolveram dispensar quem não tinha vocação de seguir o sacerdócio. Mandaram embora uns 30 estudantes, incluindo eu (risos). A minha história começou do zero. Na época, eu retornei pra casa e falei para o meu pai, que não tinha condições de me ajudar: "Vou andar no mundo, vou procurar um novo horizonte e vou ver onde acho um lugar melhor do que o Rio Grande do Sul".

A Granja — E como foi a chegada a Canarana, o início?

Jung — Quando eu vim pra cá, os meus pais eram chacareiros no Rio Grande do Sul e não tinham como ajudar a gente. Somos 11 irmãos. Mas eu consegui tomar à frente, tomei conta, tomei rumo. Cheguei em Barra do Garças/MT, a 300 quilômetros de distância de Canarana. Na época o Banco do Brasil dava oportunidade pra financiar um lote de terra. Na verdade, um lote de terra era considerado 400 hectares. Eu me inscrevi no banco para tomar posse de uma área destas. De 78 até 83 a gente plantou arroz de sequeiro. Nos anos 83/84 começou a surgir a soja na nossa região, se descobriu que a soja era uma fronteira que daria certo.

A Granja — As condições da área eram boas? A produção deu certo?

Jung — A gente começou "calcariando" uma área de soja em 1983. Eu "calcariei" 130 hectares de terra para soja. Então, a primeira safra foi colhida em 1984, e foi uma safra minguada. Colhi só 22 sacas por hectare. Mas, com o valor da venda destas sacas, paguei toda a despesa da lavoura, banco, máquinas e tudo o que tinha financiado. E liquidei tudo. Não desisti, parti para outra planta. E aí continuei os negócios. Plantando mais, com novos conhecimentos, adquirindo sempre novas informações, inovações. Sempre aprendendo junto com o andamento da atividade. É como uma faculdade que a gente vai aprendendo. Foi crescendo e hoje estamos plantando em quase 3 mil hectares de soja e sem parar de crescer.

A Granja — E o senhor trabalha só com recursos próprios?

Jung — Eu, hoje, estou muito amparado por banco, por empresas, amparado por um monte de entidades que, quando a coisa aperta, a gente tem ajuda. A parte financeira do empreendimento, a parte da soja, é uma atividade fantástica, pelo fato que a soja é, na verdade, o que alimenta o mundo. Mas a gente também planta milho, eu mexo com uma quantidade de boi, tenho pecuária junto. Então, tudo vai se somando e a gente vai empreendendo. A gente vai se tornando um empreendedor de uma certa categoria, de um certo nível.

A Granja — Como está a sua produção atualmente?

Jung — Este ano foi um pouco diferente dos demais. No final da colheita, que encerrou no final de abril, choveu bastante, perdemos muita soja. Mesmo assim, em 2,3 mil hectares tivemos uma média de 50 sacas/ hectare. Até chegar a uns 1,3 mil hectares colhidos, eu estava na faixa de 59 sacas, em média, por hectare. Mas aí começou a chover muito e perdemos – grão bastante ardido, o peso caiu… De qualquer forma, não posso me queixar da colheita.

A Granja — Qual foi a sua marca nesses anos todos, sair dos 400 hectares iniciais para a área plantada de hoje?

Jung — Naqueles anos, quando eu comecei a entrar na soja, em 84, que eu fiz a primeira safra de soja, aquela com 22 sacas de rendimento. Mesmo assim, o que aconteceu de lá pra cá foi que fui aumentando a minha área. Para você ter uma ideia, eu já comprei umas 12 fazendas da vizinhança. Porque não é todo o mundo que tem o potencial de tocar, de manejar, de gerenciar uma fazenda. No ano passado, eu comprei mais duas fazendas na vizinhança. Então, a gente vai tentando melhorar, colher e partir pra negociação, que é a melhor parte.

A Granja — Como o senhor trabalha na gestão dos negócios para conseguir realizar essa ampliação da área a cada safra?

Jung — A gente faz uma planilha de plantio. Para pra você ter uma ideia, nessa época agora, o adubo para o próximo plantio já está todo no armazém, o potássio está pra chegar no final do mês (maio), a se semente está toda negociada. Só falta a parte operacional, empregados, máquinas. Mas já está tudo planejado e negociado. Só o que não está na fazenda é a semente, que a gente compra de empresas sementeiras. Isso porque a nossa região não comporta fazer semente por causa da altitude muito baixa. A fazenda não consegue produzir a semente. Nossa semente vem da Bahia, de Petrolina, ou de Rondonópolis/MT. A gente compra e negocia ela com a intenção de retirar só na época do plantio. Então, fica faltando para negociar só o óleo diesel para época do plantio e a parte operacional. A gente começa a plantar em outubro, entre os dias 15 e 20, dependendo de como estão as chuvas, e vai plantando até o dia 15 ou 20 de novembro. A colheita começa no fim de janeiro e no início de fevereiro. Se estende até o dia 20 de março.

A Granja — Qual a principal vantagem que o senhor encontrou em Canarana?

Jung — A minha fazenda aqui, a primeira lavoura está próxima mil metros dos armazéns. A última vai até 30 quilômetros dos armazéns. A gente está até privilegiado pela distância, o asfalto passa na frente da lavoura. A cidade está a 20 quilômetros da sede principal da fazenda. É cômodo. Eu moro na cidade, tenho casa na cidade e trabalham comigo, lá, meu filho que tem 26 anos, é casado, é agrônomo, o Rafael. O outro filho, que se chama Júnior, tem 24 anos, e também toma conta e ajuda na fazenda, está criando o seu futuro e quer permanecer por aqui. O meu filho mais novo, Eduardo, por enquanto não trabalha na fazenda. Está estudando. A vida nossa aqui é desse jeito. Todo o ano a gente tenta crescer alguma coisa, compra uma área, uma colheitadeira, dois ou três tratores…

A Granja — Como é a sua postura em relação à sustentabilidade e às questões ambientais?

Jung — O que a gente é bastante pressionada é com o meio ambiente. Temos as reservas, os 20% averbados. Mais para frente fui comprando umas fazendas e a lei já tinha mudado pra 35%. Então, fizemos cerca para preservar as margens das aguadas. Protegemos as nascentes. Trabalhamos junto com a lei e tomamos conta da natureza. Quando a gente veio pra cá, não existia lei, não existia que não podia derrubar, de proteger nascente. Nada disso se falava. O lema na época era "desmatar para plantar". No entanto eu tive, eu fui criado no Rio Grande, o meu pai tinha uma areazinha, que a gente viu, ninguém protegia nada, e tinha erosão. A gente se sensibilizou e, com um pouco de sorte, fizemos na época e, hoje, não precisamos pagar para reflorestar. Eu comprei uma propriedade este ano, e lá tem uma nascente que eu vou ter que replantar, vou ter que cercar, fazer os tratamentos… conforme a lei. Dentro da legalidade é mais interessante.

A Granja — O senhor falou sobre os filhos. Como é tê-los por perto, em uma época em que a sucessão é um dos grandes problemas dos produtores rurais no Brasil?

Jung — Os meus filhos se sentem muito orgulhosos pelo que eu fiz. E ainda faço por eles hoje. O Rafael está administrando já. Ele toma à frente. Volta e meia tem que puxar a orelha. Na faculdade, por exemplo, se estuda a teoria. Mas a prática é na fazenda, é no dia a dia. É mexer com funcionário, com problemas, é diferente do que só aprender nas coisas do livro. Quando eu comecei a fazer o primeiro ano de faculdade, o meu pai não teve como me escorar financeiramente. Não tive dinheiro para acabar a faculdade. Não sinto falta hoje. O que eu tenho hoje é a faculdade da vida. Eles me respeitam em tudo o que eu faço, eles admiram, têm uma admiração por mim. E isso graças a eu ter uma grande oportunidade de passar essas coisas pra eles, essa coisa de ter alguma coisa na vida, e vai ser deles.

A Granja — O senhor falou que a negociação é a melhor parte. Como é a negociação para a venda da soja, já que os custos o senhor administra comprando tudo antecipado?

Jung — Não devemos só trabalhar com dinheiro de banco. Precisamos trabalhar com certo apoio de recursos da fazenda. Ano passado, no início de junho, maio, já começou a alta gradativa do preço da soja. Na época eu fixei a soja e fiz contratos. Eu contratei essa soja nas financeiras segurando um valor alto da saca. Na época eu contratei 100 mil sacas num valor aproximado de R$ 50. O nosso preço é R$ 10 a menos do que no Rio Grande do Sul, por exemplo. Mas a gente tem uma firmeza na colheita. Para colher menos de 55 sacas por hectare é só por uma coisa muito séria como uma chuvarada… como aconteceu esse ano. Então, eu me garanti no ano passado, eu garanti o presente de hoje. O nosso preço da soja é R$ 42, R$ 43, até R$ 44, mas eu garanti esse preço de R$ 50, onde eu consegui ter suporte pra todas as contas. Comprei uma fazenda e paguei parcela, e foi dando suporte a tudo o que eu devia no final da safra. A gente vai se prevendo, olha lá na frente para ver o que pode acontecer. Veja o caso da soja: a soja foi a R$ 60 no ano passado. A tendência é só cair, não tem como subir mais. Tem que aproveitar aquela chance, aquela oportunidade. Com esses 2,3 mil hectares que a gente plantou, colhemos 114 mil sacas de soja. Então, eu tenho uma pontinha ainda pra vender que é pra alguma despesa até o plantio… dando suporte.

A Granja — E como é a sua vida, como o senhor aproveita o que construiu?

Jung — Eu sempre tive uma vida simples, eu sou de uma família simples. Do jeito que eu falo, eu tenho muita amizade, tenho muita ligação. A gente vive o dia todo andando de empresa em empresa, fazendo contatos. Eu fico cuidando da parte financeira. E a simplicidade é em primeiro lugar. E a comunicação, ser uma pessoa correta. A minha mentalidade é não ter problema, não ter uma dívida impagável, pagar as coisas na hora certa e falar sempre a verdade. E a verdade faz a gente ter poderes pra crescer na vida. Há dez anos eu separei da minha primeira mulher. E eu vivo sozinho, tenho uma casa na cidade e vivo uma vida de solteirão. Mas nada de inimizade, amizade total entre as famílias, os meninos… não tem coisas que sejam indesejáveis.

A Granja — E como o senhor avalia a produção agrícola na região que escolheu?

Jung — A nossa região é comprometida na parte logística. Principalmente esse ano, com os congestionamentos de navios que não são carregados, empresa vende a soja e não entrega na hora certa. E tudo quem paga é o produtor. Eu penso que a logística vai melhorar, mas não é a curto prazo. Nós temos aqui oportunidades de ir pro Norte, mas não tem ferrovia, os portos são precários. É uma série de coisas que pode modificar, mas não é coisa rápida, é coisa pra quatro a cinco anos ou mais. Mas o nosso empreendimento é viável porque a produção tem uma média boa, o milho safrinha está excelente, 700 hectares plantados com milho com 130/140 sacas por hectare em média. Então, a gente faz altas produtividades, vendendo num preço mais alto. E eu tenho também um confinamento na fazenda, vou confinar 400 bois, outra coisa que sempre dá uma coisa de margem, e a atividade vai se tornando viável.

A Granja — O que mudou no seu pensamento, desde que saiu do seminário em Florianópolis?

Jung — Desde a época que eu estudava, eu tinha uma cabecinha do tamanho de uma formiga. Eu estava numa expectativa, o que eu vou ser, será que eu tenho capacidade, quem eu vou ser no futuro? Mas eu sempre fui otimista de algum dia ser alguém que pudesse ter as coisas, até ajudar alguém, os vizinhos, os necessitados. Eu sou otimista e isso não se pode largar de mão.