Eduardo Almeida Reis

 

JOSEPH RODGERS & SONS

Sócio-fundador da ABIR, Associação Brasileira de Informação Rural, e jornalista agrícola durante séculos, convivi desde sempre com a natural desconfiança do homem de campo. O fazendeiro está quieto em suas terras, dando tratos à bola sobre o pagamento das contas e dos empréstimos rurais, quando aparece um desconhecido fazendo perguntas, tirando fotografias, querendo saber tudo antes de se identificar como fiscal do Ministério do Trabalho, hoje chamado Trabalho e Emprego, talvez pelo fato de Brasília/ DF conhecer dezenas de milhares de cavalheiros e damas que têm emprego e nunca trabalharam.

Em nossa penúltima fazenda afixei imensa placa, próxima da porteira, com os seguintes dizeres: “É proibido reclamar da estrada e vender sais minerais”. O fato de um visitante reclamar dos horríveis 11 quilômetros de barro, pedras e buracos não melhoraria a estrada, função da prefeitura de Três Rios/RJ. Quanto aos sais minerais, se o fazendeiro não proibir a entrada dos vendedores, vai passar o dia inteiro às voltas com eles, educados, simpáticos, treinados para vender misturas minerais.

Sempre mineralizei nosso gado, mas baseado num estudo feito na região por três craques, Canella, Tokarnia e Hubinger, que estudaram o assunto e disseram quais eram os dois minerais necessários, além do cloreto de sódio. A mistura recomendada pela trinca sempre funcionou, obtive índices apreciáveis de eficiência reprodutiva do rebanho e me livrei de gastar fortunas com sais absolutamente desnecessários.

Tive grande amigo, suíço de família muito rica, que cismou de produzir leite nas serras do estado do Rio. Comprou fazenda grande e construiu bela sede, onde vi pela primeira vez um portão eletrônico comandado à distância de uns 300 metros. Silos aéreos espetaculares em aço inox, padrão internacional, tratores de esteiras alisando morros para permitir plantio e colheita de milho à máquina. Estábulo moderníssimo, cochos revestidos de cerâmica especial à prova do corrosivo ácido lático, pisos de borracha, bela indústria de mistura mineral.

Meu amigo acreditava honestamente nos sais que misturava para vender. Ninguém precisa acreditar, mas a mistura incluía até um elemento químico, metálico e precioso, de número atômico 79 [símb.: Au], que todos conhecemos como ouro. Pouquíssimo, mas incluía. Sei que a mistura era honesta, porque ele acreditava honestamente nos minerais que misturava, mas continuei fiel aos sais recomendados pela trinca citada ao lado.

Como tinha conhecimentos de informática, o suíço trouxe da Europa o primeiro desktop IBM que vi de perto – e isso no tempo da idiotíssima “reserva de mercado”. Resultado: para passar pela Alfândega do Galeão com o desktop, foi tungado em 35 mil dólares cash, que o zeloso inspetor aduaneiro embolsou. No dólar daquele tempo dava para comprar bom apartamento.

A história da modelar fazenda, com o leite mungido à máquina e pesado três vezes por dia, gado holandês PO malhado de preto, daria um livro. Meu amigo notou que suas vacas apresentavam feridas parecidas na mesma região das ancas. Seu veterinário quase ficou maluco até descobrir que determinado empregado, muito elogiado por tanger as vacas sem gritos, levava um prego escondido na mão para espetar as holandesas.

Quando alcançou a produção diária de 4 mil quilos, já com um programa de computador dos mais modernos, contabilizou o prejuízo e viu que alcançando sua meta de 10 mil quilos diários o prejuízo seria proporcionalmente maior. Parou com o leite: mesmo cavalheiros com fortuna de família não gostam de perder dinheiro.

É tempo de falar do título desta conversa de hoje, marca de um canivete famoso fabricado em Sheffield, Inglaterra. Descobri uma cutelaria carioca que vendia caixas de canivetes Rodgers a preços razoáveis. Não havia melhor passaporte para fazer reportagem numa fazenda. Certa feita, descascando uma laranja com o meu Rodgers, na fazenda de um paulista muito rico, dono de hidrelétrica e grande criador de mangas-largas, ele comentou: “Eu já possuí um destes”.

Expliquei-lhe que o canivete seria seu depois de descascada a laranja. Pra quê? O homem endoidou e mandou trazer da cocheira seu famoso garanhão de 24 anos, um dos cavalos mais caros do estado de São Paulo, para eu montar. A partir dali, foi fácil fazer a matéria, as fotos e sair da fazenda endeusado.

Distribuindo canivetes, que me custavam uma tuta e meia, viajei o Brasil quase todo, sempre muito bem tratado. Parece fácil, mas não é. Fazendeiros profissionais detestam certos fiscais. Dia desses, o pessoal do Ministério do Trabalho (e Emprego) queria fechar uma usina de açúcar alegando “trabalho escravo”, só porque os usineiros não trocavam diariamente os lençóis das camas dos alojamentos. Ora, não troco todo dia na minha casa e acredito que o leitor de A Granja também não troque na sua.