Plantio Direto

 

EROSÃO x plantio direto no arenito paranaense

Eng. Agr. Fernando Ribeiro Sichieri, Universidade Estadual de Maringá/PR, responsável pelo Projeto Arenito (ILP no Noroeste do Paraná) com apoio da Fundação Agrisus

Uma paisagem desoladora lembrou cenas da década de 80, quando se praticava o preparo convencional para plantio de algodão e mandioca, entre outras culturas, e havia a incorporação de herbicidas préemergentes, em toda a região. Mais de três décadas se passaram e práticas conservacionistas tradicionais consideradas por diversos setores da agricultura como tecnificadas, conduzidas sob as mais modernas tecnologias de maquinários e insumos, sucumbiram diante das chuvas da primavera-verão de 2012 no noroeste paranaense, ocasionando intenso processo erosivo. A erosão ocorrida no final do último ano removeu parte considerável da camada superficial do solo, sua matéria orgânica e nutrientes para as plantas, provocando, indiscutivelmente, perdas econômicas ao produtor, além de poluição de várzeas, açudes, riachos e rios.

Mais alarmante que observar a erosão retornar à região do arenito paranaense é perceber que providências, possivelmente, não serão tomadas para prevenir novos desastres como esse, pois a maioria dos produtores, técnicos de cooperativas agrícolas e usinas canavieiras da região avaliam o ocorrido como fato casual. Estão convencidos de que o cultivo mínimo (sem palha), os pequenos sulcos ou canais de base larga em nível Fotos: Divulgação são suficientes para controlar a erosão nessa região do país. Vamos relatar a experiência da Estância JAE, no município de Santo Inácio/PR, local em que é realizado o Projeto Arenito, que tem apoio da Fundação Agrisus desde 2003, com a prática de Integração Lavoura-Pecuária em solos do arenito caiuá contendo apenas 11% de argila.

Mais alarmante que observar a erosão retornar à região do arenito paranaense é perceber que providências, possivelmente, não serão tomadas para prevenir novos desastres como esse de 2012

Face à omissão ou falta de conhecimento técnico do uso de práticas conservacionistas de cobertura do solo para o efetivo controle da erosão nessa região do Paraná, esse quadro não é tão raro como podemos imaginar, visto que no outono de 2012 já houve chuvas muito acima da média, com grande estragos financeiros e ambientais. Embora esse cenário tenha se reproduzido em ampla região do estado, observa-se que lavouras conduzidas sob sistema plantio direto, em consonância com os princípios da agricultura conservacionista, permaneceram imunes à ação erosiva das intensas chuvas registradas.

O plantio direto praticado na cultura da soja no verão é executado com grande quantidade (> 4 toneladas/hectares de matéria seca) de palhada (forrageiras tropicais) de alta relação C/N. Por dez anos estamos cultivando soja (verão) em solos de arenito caiuá com 11% de argila e 6% de silte e mais de 80% de areia, e em nenhum desses anos tivemos qualquer caso de erosão, seja eólica ou hídrica. Também temos experiências bem sucedidas com produtividades sustentáveis ao longo desta década, em safras como 2004/2005, 2006/2007 e 2011/2012, em que as produtividades da região Noroeste foram muito prejudicadas pela seca de mais que 40 dias em plena época reprodutiva.

Obtivemos produtividades 50% superiores à média da nossa microrregião, aonde as medições de temperatura de solo com palhada de forrageiras tropicais foram de 8º a 12º inferiores a solos nus, destacando que no final de 2012 tivemos temperaturas de mais de 50º em solos descobertos e, consequentemente, um stand muito abaixo do recomendado e inferior ao da área ao lado com plantio direto. Ou seja, nas mesmas condições edafoclimáticas temos lavouras diferentes em desenvolvimento e, consequentemente em produção, havendo do assim uma linha tênue entre o sucesso e o fracasso pela falta ou adoção do plantio direto na palha.

As causas que concorreram para esse cenário estão associadas a vários fatores, como o preparo convencional do solo em novas áreas para plantio de cana, eucalipto, culturas anuais e reforma de pastagem. Essa metodologia pode ser substituída em várias situações por plantio direto ou cultivo mínimo, visto que os solos do arenito caiuá paranaense têm de 10% a 20% de argila e, dificilmente, são diagnosticadas áreas de compactação nesse tipo de terra, sendo que o mercado oferece maquinário adequado para se realizar plantio de canade- açúcar, pastagem, soja e milho, entre outros, em áreas que não foram revolvidas, mas somente dessecadas.

Hoje, o SPD ocupa 22 milhões de hectares, segundo dados da Federação Brasileira do Plantio Direto na Palha, dos 42,5 milhões de hectares destinados à produção de grãos no Brasil

Nota-se que a tomada de decisão do produtor ou técnico por sistema convencional é facilitada pela queima dos resíduos orgânicos de uma área ocupada por pastagem por 10 ou 20 anos e seguida das operações mecânicas no solo antes das culturas a serem plantadas, principalmente cana-de-açúcar, mandioca e pastagem. Com o decorrer dos anos e a desestruturação física e biológica do solo, ocasionada pelo seu revolvimento, será acelerada sua degradação, agravada pelo processo erosivo.

Nessa região do Brasil, em razão das características de intensidade e de distribuição das chuvas, em qualquer época do ano há probabilidade de ocorrência de precipitação pluvial com potencial para superar a taxa de infiltração de água no solo e formar enxurrada. A experiência do Projeto Arenito nos dá a segurança de trabalhar com palhada de alta permanência no solo (mais de 40% da matéria seca inicial após 100 dias de desenvolvimento da cultura), com um volume que supere quatro toneladas/ hectare de matéria seca na dessecação, após regeneração das gramíneas pastoreadas durante o inverno.

Missão de todos - Diante desse quadro, as ações voltadas à transferência de experiências e informações técnicas de práticas conservacionistas devem se estender por meio de demonstrações a todos os profissionais que trabalham com a agropecuária, independentemente dos sistemas adotados como ILP, culturas perenes (cana, pastagem e outras), culturas anuais (soja, milho e outras). Todos devem estar sobre a plataforma do plantio direto.

Este sistema divisor de águas foi introduzido em 1971 pelo agricultor Herbert Bartz, em Rolândia (norte do Paraná). Mas foi a partir de 1974 que agricultores de Mauá da Serra (também no norte do PR), orientados por Bartz, difundiram a prática. Hoje, o SPD ocupa 22 milhões de hectares, segundo dados da Federação Brasileira do Plantio Direto na Palha, dos 42,5 milhões de hectares destinados à produção de grãos no Brasil. “Nos EUA, o sistema era muito rudimentar e não existia um conceito amplo como o nosso. Por isso, podemos falar que o SPD é uma tecnologia autenticamente brasileira”, afirma Bartz.

Baseado em um processo de agricultura sustentada, o sistema remove o mínimo possível do solo e procura, na agricultura comercial, dar características de solo de floresta para as áreas de lavoura. Além do ganho na produtividade, ao saltar de uma produção de 1.980 quilos de soja por hectare, na década de 70, para 4 mil quilos, na média da última safra, o SPD incorpora ganhos ao reduzir custos de produção.

No sul do Brasil, pelas condições climáticas mais favoráveis, há maiores opções de rotação de culturas, envolvendo tanto as culturas de verão como as de inverno. No Brasil Central, as condições climáticas, com quase total ausência de chuvas entre os meses de maio e agosto, dificultam os cultivos de inverno, exceto em algumas áreas com microclima adequado ou com agricultura irrigada. Essa situação dificulta ou deixa poucas opções para o estabelecimento de culturas comerciais ou mesmo culturas de cobertura, isto é, culturas cuja finalidade principal é cobrir o solo e aumentar o aporte de restos culturais sobre a sua superfície, exigindo que estas tenham características peculiares, como um rápido desenvolvimento inicial e maior tolerância à seca.

No Brasil Central, a implantação do sistema plantio direto tem sido facilitada em áreas onde é possível o desenvolvimento de safrinha. A safrinha só é possível onde o período chuvoso se prolonga um pouco mais. Dentre as principais culturas de safrinha, destaca-se o milho. O novo sistema de produção estabelecido, indutor de uma expansão indiscriminada de fronteiras agrícolas e de uso intenso do solo, produziu, num primeiro momento, a sensação de um negócio agrícola rentável e promotor de desenvolvimento regional e, num segundo momento, transformou- se na principal causa de degradação dos solos dessas regiões.

A falta de consciência conservacionista, o incipiente domínio dos problemas implicados no processo de erosão hídrica e a predominância de políticas agrícolas imediatistas voltadas à exportação, ofuscando a percepção diferencial entre o conservacionismo do potencial produtivo e a oportunidade do negócio rentável, condicionaram essa sucessão de culturas a métodos inadequados de manejo de solo, diante das condições ambientais das regiões cultivadas, envolvendo queima de resíduos culturais, mobilização intensa de solo e uso de terras inaptas às culturas anuais.

Mais visível é a incorporação de áreas antes destinadas a pastagens no noroeste do Paraná, no sudoeste de São Paulo e no sul de Minas, onde o SPD tornou possível a produção de grãos, especialmente soja. O mesmo aconteceu em áreas degradadas do Rio Grande do Sul, como em Alegrete. O pesquisador José Eloir Denardin, da Embrapa Trigo, de Passo Fundo/RS, aponta o SPD como responsável pela transformação de Carazinho/RS, antes apenas área de agricultura, em uma importante bacia leiteira do Rio Grande do Sul. “Com a rotação de culturas, o produtor passou a integrar lavouras com pecuária de leite, e hoje a região produz 1 milhão de litros/dia, o que seria impossível sem o sistema.”

O pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) Ademir Calegari lembra que o sistema “assustou os norte- americanos”. Há dez anos, técnicos do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) visitaram o Cerrado brasileiro e relataram que “os solos frágeis não suportariam o avanço da agricultura brasileira”. Há dois anos, novos consultores do USDA voltaram ao Cerrado. E o relatório final mostra um “espanto” com o “crescimento linear da produção de alimentos”. Desde 2001, o SPD brasileiro é indicado pela FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação como um modelo de agricultura. A erosão está voltando a preocupar como no passado, mas a diferença é que, hoje, temos mais ferramentas disponíveis, assim como um maior conhecimento e conscientização dos malefícios que podemos enfrentar no bem que apenas tomamos emprestado de nossos sucessores, ou seja, a terra.