Pulverização

 

Aplicação certeira e EFICIENTE

O tratamento fitossanitário ideal significa aplicar no alvo, na quantidade necessária, promovendo a mínima contaminação e quando for realmente preciso

Prof. Dr. Marcelo da Costa Ferreira, [email protected], e Eng. Agr. Sergio Tadeu Decaro Junior, M.Sc., [email protected], do Departamento de Fitossanidade da Unesp, Campus de Jaboticabal/SP

A agricultura brasileira requer o acompanhamento de profissionais capacitados em técnicas corretas para a manutenção da sanidade dos cultivos. Com a expansão das fronteiras agrícolas, há uma necessidade crescente por conhecimento e capacitação, dadas algumas falhas verificadas a campo, sobretudo quanto à tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários. Para que um bom tratamento fitossanitário se proceda, é importante considerar o conceito da tecnologia de aplicação, que é a correta colocação do produto da aplicação em seu alvo, quando e se for necessário e na quantidade necessária, de forma econômica e com o mínimo de contaminação.

Para isto, devem ser consideradas as variações meteorológicas (umidade relativa, vento e temperatura) para selecionar a melhor configuração do equipamento que aplicará um determinado produto, para uma praga numa cultura, em um dado local e momento. O Brasil já dispõe de técnicas e de equipamentos compatíveis com alguns dos mais desenvolvidos do mundo. Naturalmente que a pesquisa e o desenvolvimento são constantes. Mas há itens que não dependem propriamente da máquina ou da técnica para se tornarem adequados na aplicação dos produtos fitossanitários.

Apenas para dar alguns exemplos, pode-se citar a escolha correta da ponta de pulverização e da pressão de trabalho. Pressões muito altas promovem desgaste da ponta de pulverização, além de forçar todo o sistema hidráulico do pulverizador com reflexos que podem ser sensíveis no consumo de combustível. Estas pressões acima do especificado em catálogo também aumentam a quantidade de gotas sujeitas à deriva e à evaporação, não sendo seguras para a aplicação preconizada. Pressões muito baixas prejudicam a formação de gotas e a qualidade da distribuição do jato pulverizado. As características de tamanho de gotas e de pressão de trabalho são geralmente informadas nos catálogos dos fabricantes e devem ser seguidas para proporcionar o padrão esperado quando se adquire e instala o acessório em um pulverizador.

É sabido que pressões abaixo da faixa de trabalho provocam aumento no coeficiente de variação da distribuição de caldas, que ficam acima dos 10%, que é um limite aceito internacionalmente (alguns países da Europa praticam coeficientes menores que 7%). Sabe-se que trabalhando na pressão adequada estes valores podem ser bastante aceitáveis. É algo simples, mas que nem sempre é seguido. Sem mencionar que ainda há equipamentos no campo com o manômetro danificado ou ausente, impedindo a mensuração da pressão.

Calda - A preparação da calda também é um momento importante no contexto da aplicação. Esta deve seguir as indicações para a finalidade a qual o produto se destina, com a utilização na concentração adequada e a preparação conforme indicado nos rótulos dos produtos. Muitas vezes há a indicação de realizar uma pré mistura e esta etapa não é seguida. Isto pode implicar numa má homogeneização do produto no tanque, tendo aplicação hora mais concentrada e hora menos concentrada da calda, além de poder inclusive não haver a disponibilização adequada do ingrediente ativo, conforme se espera.

Os problemas podem se agravar quanto à concentração da calda no tanque, se a agitação não for bem feita.

As formulações dos produtos fitossanitários vêm melhorando ao longo do tempo e estão mais dispersáveis e mais estáveis do que já foram no passado. Mas ainda assim são oriundas de grupos químicos preparados com adjuvantes que necessitam de agitação da calda no tanque para resultar em concentrações homogêneas durante a aplicação, como na maioria das suspensões e das emulsões.

Estas características combinadas, irregularidades na seleção da ponta de pulverização e da pressão de trabalho e falhas na concentração e na agitação da calda, via de regra resultam em regiões sob a barra do pulverizador que não recebem quantidade suficiente de calda, com falhas no controle do alvo, enquanto outras regiões recebem quantidades excessivas, podendo intoxicar a cultura com o produto aplicado e reduzir a produtividade. Outros cuidados, como a limpeza dos filtros do tanque, dos filtros de linha e das pontas de pulverização, bem como a substituição de mangueiras furadas e entupidas, devem ser sistematicamente realizadas.

No caso de pulverizadores de barra, o ajuste de altura das pontas em relação ao solo deve ser muito bem determinado para evitar variações na sobreposição dos jatos. Portanto, oscilações na barra devem ser evitadas. Além disso, as pontas jato plano devem ser instaladas com uma angulação de 6 a 10 graus entre si e em relação ao paralelismo do jato aplicado com a barra, para que não haja choque entre as gotas em sua trajetória até o alvo, pois isto causa alteração do trajeto e do tamanho das gotas, comprometendo a qualidade da aplicação.

Clima e equipamento - As condições meteorológicas no momento da pulverização devem ser as seguintes: temperatura abaixo de 30o; umidade relativa do ar acima de 55%; velocidade do vento abaixo de 10 km/h. Uma vez não que não seja atendido algum desses parâmetros, perdas na qualidade do tratamento podem ocorrer, exigindo ações para minimizá-las. Algumas delas são relacionadas ao equipamento, como a seleção de pontas com indução de ar. Pontas que produzem gotas pequenas, como as “standard” (modelos padrão), podem produzir mais de 20% do volume aplicado em gotas menores que 100 micrômetros, que são muito sujeitas à deriva e à evaporação.

Já para pontas com indução de ar, dependendo do modelo e do fabricante, tem até menos de 5% das gotas aplicadas, menores que 100 micrômetros. Imagine um ganho de aproveitamento de 15% no volume aplicado! É algo para se pensar. Claro que o tamanho de gotas deve ser compatível com alvo preconizado. Caso se precise ainda de gotas pequenas e o ambiente esteja desfavorável (seco e quente), pode-se lançar mão de adjuvantes em concentrações adequadas que reduzam a evaporação das gotas. Os óleos não se evaporam e podem colaborar neste processo, desde que compatíveis com a molécula aplicada do produto fitossanitário e na concentração suficiente para evitar a evaporação.

As perdas custam caro ao bolso do produtor, além de colocar em risco o ambiente. A calibração do pulverizador é outro ponto no qual se encontram falhas no campo. Em um trabalho realizado em 2005 no Mato Grosso pela equipe da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em mais de 500 abastecimentos realizados verificou- se que menos de 30 deles estavam aplicando a taxa esperada, apresentando variações que superavam 20% do volume, para mais ou para menos.

Entretanto, a calibração dos equipamentos é bastante simples e direta. Basta responder a pergunta de quantos litros estão sendo aplicados em um hectare. Isto se faz em atividades que demoram menos de 30 minutos para serem realizadas e podem trazer benefícios de milhares de reais para produtores individuais, considerando apenas a adequação no controle da praga (mais produtividade da cultura), o aproveitamento da hora-máquina (ganhos de capacidade operacional) e do produto aplicado. Embora a tecnologia de aplicação evolua diariamente e proporcione melhores ferramentas para o produtor, estas ferramentas necessitam ser adotadas e bem utilizadas a fim de proporcionar os melhores resultados a que são destinadas. Havendo atitudes positivas neste sentido, a evolução conjunta da ciência e da prática deverá significar uma agricultura melhor e mais saudável, com procedimentos mais racionais em termos de custos e de sustentabilidade social e ambiental. Seguimos trabalhando para isto.

Pressões abaixo da faixa de trabalho provocam aumento no coeficiente de caldas, mas há equipamentos com o manômetro danificado (foto), o que impede a mensuração da pressão