Lagarta

 

A lagarta de R$ 2 BILHÕES em prejuízos

Este foi o estrago causado pela lagarta Helicoverpa armigera apenas na Bahia em duas safras de algodão e soja. Mas, se medidas profundas e, sobretudo, conjuntas não forem tomadas, as perdas serão ainda mais bilionárias em todo o País

Eng. Agr. Celito Breda, consultor da Círculo Verde, pesquisador e diretor da Abapa e Fundação BA

Qualquer praga exótica é ou poderá ser um grande problema para qualquer país. É o caso desta praga, a Helicoverpa armigera. Existem no mundo mais de dez espécies deste gênero e no Brasil, agora, pelo menos três delas. Existiam no Brasil, até uns dias atrás, a H. zea e a gelotopoeon. A Embrapa identificou agora a presença no Brasil da espécie H. armigera, a pior de todas. Esta espécie já existe na Ásia, na África e na Oceania. De todas as espécies, esta é a mais agressiva e mais polífaga que se conhece. Se alimenta de algodão, soja, milho, sorgo, milheto, braquiária, tomate, melancia, citros, feijões e muitos outros que ainda nem se sabe ao certo. Também é a que exige mais cuidado nos controles e doses mais altas de inseticidas químicos e biológicos.

As lagartas deste gênero foram detectadas a partir de fevereiro de 2012 na Bahia e no sul do Piauí, em lavouras de algodão

As proteínas Bt têm que se manifestar nas plantas em maior concentração para que se consiga um controle efetivo. É aí que as coisas se complicam, pois os transgênicos atuais em soja, milho e algodão não têm tido um controle satisfatório ou terão apenas uma supressão (no caso de soja Intacta, a supressão será boa nos dois primeiros anos, provavelmente). Dos inseticidas atuais, nenhum é milagroso na cultura do algodoeiro. Nesta cultura, a praga se “esconde” nas estruturas reprodutivas da planta e fica difícil atingir o alvo. As doses são 50% mais altas que para outras lagartas. Em soja fica mais fácil o controle, pois as lagartas ficam mais expostas aos produtos e, portanto, torna-se mais fácil atingi-las. As doses e os produtos variam um pouco, mas requerem atenção muito acima do que se estava acostumado.

Prejuízos na Bahia e no Brasil — As lagartas deste gênero foram detectadas a partir de fevereiro de 2012 na Bahia e no sul do Piauí, em lavouras de algodão. No começo eram confundidas com as do gênero Heliotis, pois são muito parecidas. Esta demora na identificação correta e, como consequência, a na tomada de medidas mais eficazes para seu controle ocasionou grandes perdas na safra 2011/12. Calcula-se em torno de R$ 200 milhões entre danos+ produtos+pulverizações. Esta alta incidência decorreu da junção de algumas coincidências: sobra de Helicoverpas em milho (plantado mais cedo que o algodão); clima seco e quente a partir de fevereiro; produtores/técnicos/ empresas sem as devidas precauções, pois é uma praga totalmente diferenciada em vários aspectos; falta de produtos mais eficazes e doses mais assertivas.

No período de entressafra, cultiva- se, na Bahia, feijão e milho irrigados, entre outras. As pragas têm alimento o ano todo e o clima seco favorece à praga do gênero Helicoverpa. Daí veio, na sequência, em outubro de 2012, o plantio de soja irrigada e soja/milho em sequeiro, que hospedaram a praga. Na safra 2012/13, houve outra infeliz coincidência que culminou numa verdadeira explosão populacional das Helicoverpas. Em dezembro choveu muito pouco e em fevereiro e março de 2013 também. Isto culminou com altos índices desta praga. Saiu da soja, foi para o milho e, destas duas culturas, houve uma grande migração para a cultura do algodão em janeiro, fevereiro e março de 2013.

Na soja houve talhões com até 12 aplicações de inseticidas específicas para a praga, aplicações muito caras – custos de US$ 20 a US$ 25/hectare. Em média foram de cinco a oito aplicações específicas na Bahia nesta safra 2012/13 de soja. Os prejuízos em soja em 2012/13 foram de 5 a 7 sacas/hectare em 1,3 milhão de hectares – custos adicionais com inseticidas+aplicações de US$ 120/ ha. No algodão a coisa foi pior: hoje são de 15 a 20 aplicações e deve-se chegar a mais de 20 aplicações específicas. Cada aplicação custa de US$ 25 a US$ 30/ha. Os prejuízos no algodão da Bahia na safra 2012/13 são calculados em torno de 10 até 60 arrobas/ ha – na média 25 arrobas em caroço/hectare. Em inseticidas podese estimar em US$ 400/ha (produto + aplicação). Prejuízos totais acumulado nas duas últimas safras, na Bahia, somam mais de R$ 1 bilhão. No Brasil, a Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa) estima um prejuízo acima de R$ 2 bilhões, nas duas últimas safras – somando-se soja e algodão.

Contra-ataque — As ações dos produtores, pesquisadores e técnicos da Bahia e do Brasil foram as seguintes:

• Missão técnica-científica para a Australia, país que teve forte incidência e prejuízos nos anos 90 com esta praga;

• Fórum da Helicoverpa em Luis Eduardo Magalhães/BA em fevereiro último com participação de 1.400 pessoas;

• Criação de grupo de gestão e de grupos técnicos de trabalho para criar e implementar um programa fitossanitário nos moldes da Austrália;

• Criação de um grupo situacional de gestão no Ministério da Agricultura para gestão de Helicoverpa spp em nível de Brasil. Há participação de Abrapa, Aprosoja, Embrapa, Abin, Casa Civil e Ministério da Agricultura;

• Reunião em Brasília, promovida pela Embrapa, para gestão da praga com a participação de vários setores ligados ao tema – pesquisadores, consultores, produtores, fornecedores, Ministério da Agricultura e outros – em abril.

O risco da praga foi constatado a partir do momento em que a Embrapa identificou que se tratava do gênero Helicoverpa armigera, muito polífaga e com capacidade de deslocamento a longas distâncias – pode atingir lavouras de Norte a Sul – nos anos com baixas incidências de chuvas e/ou coincidências de outros fatores. A agricultura familiar também corre sério risco de grandes perdas. Mas o principal de tudo é o risco da principal commodity brasileira, a soja, sofrer grandes perdas nas safras futuras, em nível de Brasil, caso não sejam tomadas medidas eficazes. Dentre estas, a principal de todas é a criação e implementação de um programa fitossanitário global.

Se esta praga atingisse 100% da soja brasileira e com danos semelhantes aos que ocorreram na Bahia na safra 2012/13, o Brasil acumularia um prejuízo de US$ 200/ha. O total somaria mais de US$ 2 bilhões. Causaria desemprego e uma grave crise nacional. É fundamental enxergar o Brasil como uma só fazenda, pois esta e outras pragas têm uma grande mobilidade. Na Austrália, a do gênero punctigera chega a migrar mais de 2 mil quilômetros numa safra.

Um programa fitossanitário global envolve as seguintes medidas:

• Assistência agronômica a todos os agricultores;

• Vazio sanitário de pelo menos 60 dias (sem hospedeiros);

• Refúgio obrigatório de 20% ou mais, espaço sem culturas transgênicas com proteínas Bt;

• Destruição massal de pupas nas entressafras;

• Uso obrigatório de controle biológico para complemento de outras tecnologias;

• Calendário de plantio obrigatório e regulamentado para cada região;

• Calendário de inseticidas para evitar indução de resistência aos inseticidas;

• Treinamento de monitores de pragas e capacitação de operadores de máquinas;

• Fiscalização estadual treinada para executar a lei, caso a consciência dos produtores não seja suficiente;

• Uso de, no mínimo, duas proteínas eficientes em cada planta para controle de lagartas;

• Uso adequado e criterioso de tecnologias transgênicas;

• Diminuição o uso de inseticidas químicos e de fungicidas que controlam fungos benéficos (aqueles que matam as lagartas, como o Nomurea);

• Criação e aplicação massal de insetos benéficos (como as vespinhas Trichoplusia spp).

Se esta praga atingisse 100% da soja brasileira e com danos semelhantes aos que ocorreram na Bahia na safra 2012/13, o Brasil acumularia prejuízo de US$ 200/hectare

Enfim, um programa fitossanitário para ser eficiente tem que atender os seguintes quesitos: conscientização do problema; união de produtores, consultores, pesquisadores, consultores, pesquisadores, indústrias, governos, agências de defesa estaduais, Ministério da Agricultura e Embrapa; organização de todos; determinação e perseverança. Se assim o fizermos, em cinco anos seremos vencedores de mais um desafio. Uma questão importante: este desafio está sendo o maior de todos os que a Bahia já experimentou em sua história.