Adubação

 

FERTILIZANTE no sulco ou a lanço na soja?

Os dois métodos de aplicação apresentam vantagens e desvantagens, mas circunstâncias como as características do solo devem ser levadas em consideração

Roni Fernandes Guareschi, mestre em Ciências Agrárias, doutor e pós-doutor em Agronomia

O não revolvimento do solo, a adição constante, a manutenção da palhada e a rotação de culturas, premissas básicas do sistema plantio direto (SPD), afetam a dinâmica dos nutrientes no solo, exigindo um manejo diferenciado da adubação e da fertilidade do solo. Dentre esse manejo diferenciado de adubação no SPD, destacam-se as formas de aplicação dos fertilizantes fosfatados e potássicos. Atualmente, as formas de aplicação mais utilizadas desses fertilizantes no cultivo da soja são as aplicações em sulco junto à semeadura e as aplicações a lanço antecipadas à semeadura da oleaginosa.

A aplicação em sulco junto à semeadura, como seu próprio nome já sugere, consiste em aplicar o fertilizante ao lado e abaixo do sulco de semeadura da Leandro M. Mittmann cultura. Já o método de aplicação a lanço antecipado consiste em distribuir os fertilizantes superficialmente à camada do solo antes do plantio. Tais métodos de aplicação de fertilizantes apresentam vantagens e desvantagens entre si, a seguir descritas.

Sulco - vantagens:

1 - reduz o contato das partículas de solo com os fertilizantes, diminuindo a adsorção de P e facilitando o processo de difusão desse nutriente até as raízes;

2 - reduz o número de operações de manejo, ou seja, realiza- se a adubação e a semeadura ao mesmo tempo;

3 - maior eficiência em adubações em solos de baixa fertilidade.

Até o momento, os resultados demonstram não ocorrer alterações na produtividade da cultura da soja quando se opta por um dos dois métodos de aplicação de fertilidade

Sulco – desvantagens:

1 - prejudicial à germinação e/ou crescimento inicial da planta em razão do aumento excessivo na concentração salina próxima das sementes, quando se utiliza doses de potássio superiores a 80 quilos/hectare;

2 - ocasiona atrasos durante a operação de semeadura, pois ao aplicar grandes quantidades de adubos no momento da implantação da cultura, aumenta- se o tempo e o número de abastecimentos da semeadora.

A lanço – vantagens:

1 - menor risco de danos às sementes, por efeito salino de altas concentrações de adubação com potássio;

2 - proporciona um menor tempo nas paradas para abastecimento da semeadora, reduzindo o número de conjuntos (trator – semeadora) e os custos operacionais e totais da semeadura;

3 - maior rapidez da semeadura, proporcionando maiores chances de semear na época recomendada, bem como aproveitando as condições climáticas favoráveis para a semeadura;

4 - menor tempo de estocagem de fertilizante, desencadeando menor risco com perda de qualidade do mesmo.

A lanço - desvantagens:

1 - é restrita à adubação de manutenção de áreas com solos de média a alta fertilidade e de textura argilosa;

2 - é restrita a áreas de SPD com rotação de culturas que possuam alta capacidade de ciclagem de fósforo e potássio e promovam a movimentação destes nutrientes em profundidade, pois plantas de cobertura, como o milheto e espécies do gênero Brachiaria, por exemplo, acumulam grandes quantidades desses nutrientes nas raízes, que, ao serem decompostas, funcionam como um veículo de distribuição de fósforo e potássio no perfil do solo;

3 - escassez de estudos de longa duração que comprovem sua maior eficiência em disponibilizar os nutrientes à absorção das plantas.

Diversos estudos em diferentes regiões do País têm comparado ocasionalmente a eficiência desses dois métodos de aplicação de fertilizantes. Até o momento, os resultados demonstram não ocorrer alterações na produtividade da cultura da soja, quando se opta por um dos dois métodos de aplicação de fertilizante. Diante desses resultados, o método de aplicação a lanço antecipado leva certa vantagem em relação à aplicação em sulco junto à semeadura, ou seja, o benefício nessa condição seria dado pelo aumento da eficiência da operação de semeadura. No entanto, vale ressaltar que a maioria dos resultados demonstra que a adubação a lanço antecipada é uma prática viável somente como adubação de manutenção e em solos que apresentem teores médios a altos de P.

Dinâmica do P no solo - Uma das principais preocupações da comunidade científica em relação ao uso da adubação a lanço antecipada está relacionada à dinâmica do fósforo no solo. Até então, sabe-se que este nutriente é pouco móvel no solo e está disposto a reações de precipitação com alumínio e ferro e de adsorção em óxidos, hidróxidos e oxi-hidróxidos de ferro e alumínio, que reduzem a disponibilidade deste nutriente às plantas. Devido a estas características expostas anteriormente, que a recomendação de aplicação deste nutriente até a década passada seria apenas localizada no sulco de semeadura. Pois, desta maneira, evitava-se o contato íntimo das partículas de solo com os fertilizantes fosfatados, reduzindo sua adsorção e facilitando o processo de difusão deste nutriente até as raízes.

No entanto, o SPD, através de suas premissas básicas, alterou a maneira de pensar a aplicação de fósforo na agricultura. Isso ocorreu devido ao aumento de matéria orgânica do solo (MOS) com o passar dos anos de adoção do SPD, bem como a liberação de compostos orgânicos solúveis oriundos da decomposição da MOS agirem na disponibilização de P no solo. Esses compostos orgânicos competem com o fósforo pelos sítios de adsorção do solo, resultando no aumento da concentração de fósforo na solução.

Além disso, tais compostos orgânicos solúveis promovem a complexação de cátions metálicos como Fe e Al da superfície de adsorção, decrescendo assim o número de sítios disponíveis ou diminuindo a força de adsorção do fósforo nestes sítios, fazendo com que o fósforo adsorvido possa ser liberado e se tornar disponível a absorção das plantas. Outrora, a sorção de compostos da matéria orgânica pode aumentar a carga negativa na superfície do solo e/ou diminuir o ponto de carga zero (PCZ), tornando mais difícil a adsorção de P.

Em decorrência desses efeitos positivos da MOS na disponibilidade de fósforo, surgiu a possibilidade de aplicação a lanço antecipado deste nutriente. Além da redução da adsorção de fósforo, outro fator que contribui para a viabilidade desta forma de aplicação é a movimentação deste nutriente por meio da ciclagem de nutrientes e/ou complexado a ácidos orgânicos. A rotação de culturas com plantas de cobertura que possuam alta capacidade de ciclagem do fósforo podem promover a movimentação deste nutriente em profundidade pela acumulação de fósforo em suas raízes, e posterior decomposição no perfil do solo. Ainda o fósforo pode se complexar a ácidos orgânicos oriundos da decomposição da MOS e percolar ao longo do perfil do solo. Desta maneira, a pouca mobilidade do fósforo no solo passa a não ser mais tão preocupante.

Em suma, pode-se concluir que até Divulgação o momento da adubação de manutenção de fósforo e potássio pode ser aplicada a lanço antecipadamente à semeadura da soja, desde que seja utilizada em áreas de SPD sob solos argilosos com teores médios a altos de fósforo, potássio e matéria orgânica do solo. Ademais, devem ser realizadas mais pesquisas sobre a dinâmica do fósforo e do potássio em áreas que utilizam essa forma de aplicação de fertilizante há mais tempo, visando consolidar o uso desta tecnologia.

A maioria dos resultados aponta que a adubação a lanço antecipada é uma prática viável somente como adubação de manutenção e em solos que apresentem teores médios a altos de fósforo