Vinhos

 

MENDOZA une tradição e modernidade

Principal região produtora de vinhos da Argentina incorpora tecnologia e qualidade às áreas cultivadas há mais de 400 anos

Denise Saueressig*
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É num cenário cercado pela beleza da Cordilheira dos Andes que são produzidos alguns dos melhores vinhos da Argentina. Próxima à fronteira com o Chile, a província de Mendoza responde por cerca de 80% dos vinhos fabricados no país vizinho. Parte dos vinhedos ocupa terras onde o cultivo iniciou há mais de 400 anos. Outras áreas foram incorporadas à produção de maneira mais efetiva a partir do século XIX. Na província, vinícolas tradicionais e conhecidas no mundo todo convivem com pequenas bodegas familiares. São mais de 900 empreendimentos, e muitos mantêm uma estrutura especial, voltada para o atendimento a turistas.

O clima é um dos principais responsáveis pelo sucesso da uva mendocina. A grande amplitude térmica e a alta luminosidade favorecem o amadurecimento da fruta e a concentração de açúcar, aromas e sabores. Mesmo nos meses mais quentes, as noites e as manhãs são frescas, com temperaturas amenas. No verão, os dias são mais longos e anoitece apenas às 21h. A chuva é escassa, com média de 200 milímetros anuais e concentrada entre os meses de dezembro e fevereiro. Por isso, para abastecer os vinhedos, os produtores utilizam a irrigação com a água proveniente do degelo da cordilheira. A baixa umidade também ajuda a afastar problemas sanitários provocados por pragas e fungos.

Na região, a principal preocupação é com a ocorrência de granizo, que no ano passado foi uma das causas da queda de 22% na produção de uvas na Argentina. Nesta safra, sem ocorrências climáticas desfavoráveis, a previsão é de um incremento de 18% na colheita, que deverá chegar aos 2,6 bilhões de quilos de uvas. Segundo o Instituto Nacional de Vitivinicultura, 1,8 bilhão de quilos terão origem em Mendoza, onde a variedade Malbec é a protagonista dos vinhedos.

Modernização — A última década foi marcada por inovações tecnológicas para a vitivinicultura argentina, com investimentos nos sistemas de produção e no processo de vinificação. O país é o quinto maior produtor de vinhos do mundo e o setor, altamente competitivo, destoa de outros segmentos do agronegócio que vêm enfrentando dificuldades para prosperar e frequentemente estão envolvidos em embates com o governo federal. “Ainda que sinta os impactos da alta inflação que provocou aumento de 25% nos custos desta safra, a produção regional, de alto valor agregado, permite a sustentabilidade da cadeia”, ressalta o gerente de desenvolvimento vitícola da Trapiche, Marcelo Belmonte.

Um dos processos que mais avança no país é a colheita mecânica da uva. Nos longos corredores verticais cultivados em Mendoza, o método começou a ser implantado na década de 1980 e vem ganhando adeptos pela escassez de mão de obra para o trabalho manual e pelas vantagens observadas no uso das máquinas.

Líder na comercialização de colhedoras de uva no país vizinho, a New Holland vem ampliando o número de equipamentos vendidos nas últimas safras. Em relação há dois anos, o número dobrou e deve atingir 20 máquinas na atual safra. A Braud 9060L é fabricada na França e chega à América do Sul custando US$ 430 mil. “A colhedora substitui o trabalho equivalente a 80 ou 100 pessoas, e os produtores calculam que as perdas no processo mecânico ficam em torno de 3%, índice inferior aos 5% estimado para o método manual. A colheita também pode ser realizada à noite, quando a temperatura está mais baixa e a uva leva mais tempo para iniciar a fermentação”, destaca o responsável pela área de marketing da New Holland na Argentina, Gabriel Tronchoni.

Empresários brasileiros de regiões onde a uva é cultivada em áreas planas, como a Campanha Gaúcha e o Nordeste, visitaram o país vizinho em busca de informações sobre a máquina, que consegue operar em terrenos com inclinação de até 30%.

Na Bodegas Salentein, a utilização das colhedoras teve início em 2006 e, hoje, abrange 85% da área cultivada nos vinhedos da empresa em Mendoza. A vinícola tem três máquinas próprias e o cálculo é de uma redução de 50% nos custos de produção. “O retorno foi bem positivo, porque levamos quatro anos para pagar o equipamento. Além da colheita, usamos a máquina para poda e pulverização, o que evita a ociosidade durante o ano”, descreve o engenheiro agrônomo Diego Morales, chefe dos vinhedos da Salentein. Ele conta que, no solo pedregoso e pobre em matéria orgânica típico da região, os resíduos gerados pela colheita mecânica são aproveitados como adubo.

Colheita mecanizada teve início na década de 1980 e vem crescendo devido à escassez de mão de obra para o trabalho nos vinhedos

Marcelo Belmonte, da Trapiche, salienta que a vindima ficou mais rápida e mais eficiente com a utilização das máquinas. “É possível trabalhar um hectare em duas ou três horas e realizar a colheita durante 20 horas por dia”, cita. A empresa adotou o processo mecânico há 12 anos e tem duas máquinas próprias que são operadas em 800 hectares.

Mercado externo — Os investimentos em inovação e qualidade também vêm propiciando o aumento das exportações das vinícolas argentinas. Em 2012, o aumento nas vendas externas foi de 17,17%. Apenas os vinhos produzidos com a uva Malbec foram exportados para 118 países. Em grandes empresas, como a Trapiche, 50% da produção é enviada para mais de 70 países, com destaque para clientes dos Estados Unidos, do Canadá, da Europa e do Brasil. “Nas décadas de 1970 e 1980, a exportação alcançava 20% do que era produzido. Mas a redução do consumo interno e a modernização permitiram o crescimento no exterior”, relata Belmonte.

A Argentina chegou a somar um consumo de 80 litros de vinho por pessoa ao ano na década de 1970. Para se ter uma ideia, o consumo no Brasil é de menos de 2 litros por pessoa ao ano. O volume no país vizinho, no entanto, caiu bastante devido a alterações no comportamento do consumo dos argentinos. “Além das mudanças na jornada de trabalho, que raramente permite o consumo de vinho na hora do almoço, houve incremento no consumo de bebidas como cervejas e refrigerantes, que são mais baratos”, constata Morales, da Salentein. A ressalva é que, apesar da queda na quantidade – hoje o consumo é estimado em 24 litros por pessoa ao ano –, os consumidores têm buscado beber cada vez mais vinhos de alta qualidade.

A jornalista viajou a Mendoza a convite da New Holland