Orgânicos

 

Mais que um nicho, muito FUTURO

Devido aos seus biomas, aos diferentes tipos de solo e clima e a uma ampla biodiversidade, o Brasil é um dos países com maior potencial para o crescimento da produção orgânica

Ming Liu, coordenador do Projeto Organics Brazil e consultor do
Instituto de Promoção do Desenvolvimento (IPD)

Já se passaram quase 14 anos das primeiras discussões sobre o início do esboço das normas do processo de regulamentação dos orgânicos, quase dez anos (23 de dezembro de 2003) que foi escrita a Lei 10.831 e pouco mais de dois anos da sua efetiva aplicação. Desde 2011, todos os produtos orgânicos, alimentos ou não, têm a obrigatoriedade de serem identificados com o selo de conformidade de Produtos Orgânicos do Ministério da Agricultura. Já se foi o tempo em que só encontrávamos produtos em feiras locais, ou lojas de produtos naturais, quando cada um usava um selo diferente, um discurso diferente e ficávamos com aquela dúvida se tinha uma garantia ou não. Atualmente todos os produtos comercializados têm que ter o selo oficial para a sua comercialização, facilitando a identificação por parte do consumidor.

Na verdade, hoje, os produtos orgânicos apesar de serem considerados ainda um nicho, já ocupam – de forma noticiada e visualmente – as gôndolas de supermercados pequenos, médios e as grandes redes. Também nos mercados e nas mercearias locais, são listados em cardápios de restaurantes e adotados de forma seletiva junto aos renomados chefs de restaurantes e hotéis, como um diferencial em seus serviços.

Por definição do Ministério da Agricultura, o produto orgânico é todo aquele que atende a legislação de produtos nos quais não são utilizadas substâncias que coloquem em Fotos: Divulgação O Brasil tem muitas atividades ligadas a agroecologia e extrativismo, com produtos únicos dos diferentes biomas, como é o caso do açaí risco a saúde humana e o meio ambiente. Não são utilizados fertilizantes sintéticos solúveis, agrotóxicos e transgênicos. Para ser considerado orgânico, o produto tem que ser produzido em um ambiente de produção orgânica, em que se utiliza, como base do processo produtivo, os princípios agroecológicos, que contemplam o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais. Mas orgânico não é só encontrado na agricultura e nos alimentos. Hoje, estão em produtos processados, grandes indústrias de alimentos e bebidas, na indústria de cosméticos e têxteis.

Vamos focar nos alimentos e bebidas. É importante saber que quando entramos na categoria dos produtos processados e industrializados, muitas vezes, pela natureza do produto, é difícil produzir de forma 100% orgânica. Dessa forma, o Ministério da Agricultura criou variações. Caso o produto contenha, no mínimo, 75% de seu ingrediente orgânico, ele ainda pode utilizar o selo desde que informe ao consumidor de forma clara esta condição.

O Brasil tem muitas atividades ligadas a agroecologia e extrativismo, com produtos únicos dos diferentes biomas, como é o caso do açaí

O que a legislação não garante com o selo, no caso dos alimentos, é a sua segurança e valor nutritivo. Dessa forma, todo produto orgânico deve seguir as mesmas condições básicas de higienização e preparo como qualquer alimento. No caso de produto animal, a legislação não garante também que os animais foram tratados de forma digna, porém os produtores certificados se orgulham de seus métodos e da forma como os tratam, pois o respeito ao meio ambiente e o bem-estar estão presentes em todos os processos.

As principais razões para se consumir produtos orgânicos está no fato de que, comprovadamente, se reduz a exposição de produtos químicos utilizados no processo de produção, antibióticos, sementes transgênicas (que ainda não se sabe dos efeitos a longo prazo), alimentos irradiados, hormônios e pesticidas. No caso de pesticidas, além de prejudiciais à saúde, podem contaminar o solo e a água onde são aplicado, ocasionando riscos ambientais de grande impacto.

Ming Liu: o futuro deste segmento segue uma tendência global de crescimento, mas há o receio de se perder a sua integridade na medida em que se ganha escala

Efeito social - Um fator muito favorável, que muita gente desconhece, diz respeito ao efeito social que ocasiona na construção de uma cadeia produtiva local, a partir do desenvolvimento da agricultura, com a possibilidade de construção de valor no produto e na medida em que se industrializa. Desta forma, se agrega valor aos produtos, proporcionando o desenvolvimento social do pequeno produtor e toda a sua cadeia.

O futuro deste segmento segue uma tendência global de crescimento, em que há o receio de se perder a sua integridade na medida em que se ganha escala. Como exemplo, podemos citar o que ocorreu na Europa e nos Estados Unidos, os dois maiores mercado mundiais: em dez anos de mercado regulamentado (desde 2000), observou-se o crescimento do processo de fusões e aquisições, a ponto de ter casos de empresas – com reputação negativa em ações de responsabilidade socioambiental – que buscaram na aquisição de uma empresa pequena do segmento a sua “boa ação”.

Podem existir sim oportunistas, mas o que sabemos é que o tamanho não necessariamente representa um menor comprometimento com os seus valores.

A raiz está no segmento das empresas e este não é um problema de escala corporativa, mas do grau de ética corporativa. Neste ponto, os empreendedores brasileiros são exemplos globais e cito, como exemplo, o caso do açúcar, produto no qual que somos o maior produtor mundial. No Brasil falta ainda uma importante etapa do processo do desenvolvimento desta cadeia, que é a educação do consumidor. Algumas empresas e cooperativas de produtores já iniciaram este processo, seja individualmente ou coletivamente, com seu distribuidor do varejo, campanhas de sensibilização, degustação e apresentação para sua disseminação de imagem.

Na medida em que o consumidor é apresentado aos valores e processos do setor de orgânicos, consegue entender que há um comprometimento de toda uma cadeia e não apenas um dos elos, e que seus custos também são maiores. Este é, aliás, um mito que faz os produtos orgânicos serem, em alguns casos, projetados como de poucos e elitista. Quando pouco se fala nos benefícios, os nutritivos que podem trazer, o social e o ambiental.

O Brasil tem uma característica única de que sua produção não se baseia apenas em sistemas agrícolas convencionais, mas devido aos seus biomas, em função de possuir diferentes tipos de solo e clima, uma biodiversidade incrível aliada a uma grande diversidade cultural. Tem muitas atividades ligadas a agroecologia e extrativismo, com produtos únicos dos diferentes biomas. Essa nossa diversidade faz do Brasil, sem dúvida, um dos países com maior potencial para o crescimento da produção orgânica mundial.


PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA EM FEIRAS INTERNACIONAIS

O Projeto Organics Brazil participou no primeiro trimestre de ações de promoção dentro do Projeto Carnaval com convidados europeus e de duas feiras internacionais do setor, a Biofach, na Alemanha, e a Expo West (foto), nos Estados Unidos, com balanço estimado de US$ 37 milhões entre negócios de exportação fechados e para os próximos 12 meses. “As feiras foram interessantes, pois serviram de medição da demanda do mercado global dentro de uma situação de crise econômica em vários mercados europeus. Para as empresas brasileiras, o resultado foi muito positivo tanto em relacionamento com clientes tradicionais como para abertura de novos mercados. Na Alemanha, onde foi realizada a principal feira do setor, foram mantidos negócios e o objetivo foi a manutenção de relacionamento comercial, mas houve abertura de novos negócios de distribuidoras e varejistas da Rússia, Austrália e China”, explica Ming Liu, coordenador do Projeto Organics Brazil.

Cada feira registrou público acima de 40 mil pessoas, sendo que na Biofach houve uma clara redução de espaço ocupado, mas não houve alteração no número de expositores. Na Biofach (em Nuremberg), o destaque foi a demanda de países como Austrália, Rússia e China em cosméticos e açúcar. Já na Expo West (em Anaheim), os destaques foram os lançamentos dos sucos de frutas da Native, empresa que já comercializa açúcar na rede WholeFoods; o azeite de dendê da Agropalma e o kit de “amenities” de cosméticos da Surya. “Os orgânicos continuam em alta. Nossa expectativa é fechar 2013 com, pelo menos, US$ 120 milhões em exportação entre as empresas associadas”, revela Liu.