Soja

 

A técnica do PLANTIO CRUZADO tem futuro?

Apesar de eventuais benefícios, o plantio cruzado da soja oferece riscos que dificultam sua adoção em larga escala. Porém, ainda cabem estudos e pesquisas, já que em lavouras experimentais de concurso a técnica proporcionou ganhos de produtividade

Engº. Agrº. Ph.D. Plinio Itamar de Souza, pesquisador e integrante do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb)

A produtividade da cultura da soja tem como suporte quatro abrangentes fatores, que são os seguintes: genética, energia solar, nutrientes e água. Portanto, no cultivo da soja, praticamente todos os aspectos de manejo estão ligados às diversas técnicas de cultivo, dependentes de cada um desses fatores, com o objetivo de se alcan- Fotos: Divulgação çar as máximas produtividades, em um determinado ambiente. Dentro dessa linha de ações, o Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) formada por profissionais do ramo agrícola na busca de novas tecnologias, criou o Desafio Nacional de Máxima Produtividade da Soja, uma competição que tem o objetivo de premiar produtores que comprovadamente obtenham as produtividades mais elevadas do País e concordem em descrevê-las e registrá-las, para que o Cesb possa conhecê- las, estudá-las e, se confirmadas as suas eficácias, imediatamente disponibilizá- las às instituições de pesquisa e à sociedade em geral.

Pelo seu ambiente mais fechado, o plantio cruzado pode favorecer, em determinadas situações, a ocorrência de doenças como o mofo branco e a ferrugem

Entre as diversas tecnologias utilizadas pelos vencedores do Desafio, tem se observado as já reconhecidamente importantes, como rotação e sucessão de culturas, correção total da fertilidade do solo, bem como, elevadas e equilibradas adubações, correções profundas da fertilidade ao longo do perfil do solo e o uso correto e harmônico de defensivos. Entretanto, atendendo um dos principais objetivos do Desafio do Cesb, estão os registros observados com significativa consistência, da ocorrência de outras técnicas, muitas delas bastante incomuns às lavouras tradicionais de soja, como é o caso da semeadura cruzada ou plantio cruzado, como é popularmente chamado.

Aparentemente, a técnica de cruzar as linhas de plantio e aumentar o número de plantas/hectare surgiu entre produtores na tentativa de obter maiores produtividades, por meio do melhor aproveitamento de área, energia solar, chuvas, melhor controle do mato, com menor risco de acamamento. Nesta técnica, o risco de acamamento, um dos grandes causadores da queda de produtividade, é bastante diminuído, muito embora quase sempre ocorra o aumento do número de plantas e fertilizantes por área de cultivo. Embora, teoricamente, todos esses aspectos sejam indicativos favoráveis ao aumento de produtividade, poucas ou quase nenhuma são as informações baseadas em testes científicos que garantam esses possíveis benefícios quando o tipo de plantio é o cruzado. O máximo que se pode fazer é extrapolar certos conhecimentos já adquiridos cientificamente para as condições de plantio cruzado.

Por outro lado, apesar de todos os prováveis benefícios proporcionados pelo plantio cruzado à lavoura de soja, a técnica, nas condições atuais, apresenta também um real e significativo número de aspectos ou riscos negativos que dificultam e desestimulam a expansão de sua adoção em larga escala:

* Por ser um plantio cruzado, são duas as passadas da plantadeira sobre a mesma área, aumentando, portanto, os gastos de tempo, pessoal, combustível, máquinas e sementes;

* Dependendo do tipo de plantadeira e de solo, o segundo plantio (passada) na área tem que ser mais lento, porque a plantadeira pula muito, além da possibilidade de ocorrerem maior compactação e distúrbios mecânicos nas intersecções com as linhas já plantadas;

* Sempre haverá uma maior competição intraespecífica com as plantas de soja nascidas no local ou próximas à intersecção das linhas de plantio;

* Pelo seu ambiente mais fechado, pode favorecer, em determinadas situações, a ocorrência de doenças como o mofo branco e a ferrugem;

* Além de ainda não existir informações sobre a densidade adequada de semente/ hectare, ela poderá variar dependendo da cultivar, região, fertilidade e época de plantio;

* Inexistência de informações científicas e concretas sobre a quantificação de seus benefícios.

Técnica promissora — Contudo, apesar dos aspectos negativos que essa técnica pode aparentemente ocasionar, o Cesb está bastante interessado e a vê como uma das mais promissoras, tendo em vista que sem nenhum aprimoramento ou conhecimento mais profundo, já participa de várias lavouras de elevadas produtividades. Como é o caso das duas últimas campeãs do Desafio, em 2010/2011, com 100,63 sacas/hectare, e em 2011/2012, com 108,71 sacas/ hectare.

Lavoura com produtividade de 108,71 sacas/hectare, a vencedora do Desafio Nacional de Máxima Produtividade na safra 2011/2012, utilizou o plantio cruzado

Também desperta muita atenção o indicativo de que com o refinamento dessa técnica haverá grandes chances de aumentar, de forma significativa, a produtividade da soja, atuando exatamente no início do sistema, ou seja, no melhor aproveitamento da energia solar, do solo (nutrientes e água) e do espaço, pois a presença desta técnica em lavouras de alta produtividade parece indicar que nossas lavouras em plantio tradicional não estão captando adequadamente a energia disponível e tão necessária para o aumento da produtividade atual. Assim, aparentemente o que o plantio cruzado mais proporciona, pelo número maior de plantas e uma melhor distribuição espacial das mesmas, é um fechamento mais rápido dos espaços entre linhas, tendo como consequência um melhor e mais precoce aproveitamento da energia solar e do solo.

Desta forma, se o indicativo positivo dessa técnica for confirmado, a grande preocupação da pesquisa será encontrar distribuições espaciais adequadas e compatíveis para cada situação. Portanto, o Cesb, devido à falta de informações rigorosamente científicas, não pretende no momento, sob nenhuma hipótese, recomendar ou sugerir a prática do plantio cruzado, mas sim estimular instituições de pesquisa a estudar detalhadamente esta possível tecnologia, não somente para entendimento, comprovação e quantificação de seus benefícios, como também para seu refinamento, especificação e difusão para os produtores de soja.

Por último, para refletir: considerando que estimativas do potencial teórico produtivo para a cultura da soja, calculadas em diversos trabalhos de pesquisa, variam entre 250 a 300 sacas/hectare, que a produtividade da lavoura vencedora do Desafio do Cesb 2011/2012, de 108,71 sacas/hectare, é 64,4 sacas/hectare – ou 145% –, superior à média nacional de 44,42 sacas/hectare, resultando na mais alta produtividade até então alcançada no Brasil, pode-se inferir com significativa facilidade que ainda há um grande espaço a conquistar em relação à produtividade da soja. Mas que isso somente poderá ser alcançado por meio da criação de novas tecnologias e/ou detecção, refino e difusão das já existentes, como é o caso do plantio cruzado.

Souza: “Desperta muita atenção o indicativo de que com o refinamento dessa técnica haverá grandes chances de aumentar, de forma significativa, a produtividade da soja"