Reportagem de Capa

 

A vitória avassaladora dos TRANSGÊNICOS

O Brasil já é o segundo maior produtor mundial de alimentos geneticamente modificados, uma vitória recente da tecnologia sobre ideologias, obscurantismos e medos. Mas soja, milho e algodão, que produzem mais, melhor e com menos custos, são apenas a ‘ponta do iceberg’ de uma tecnologia revolucionária que pode beneficiar a todos: produtor, consumidor e, sobretudo, meio ambiente. Por que, afinal, os transgênicos representam uma nova era para a agricultura e são a oportunidade de alimentar o planeta?

Leandro Mariani Mittmann
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Aqueles que militam por uma agricultura moderna, que usufrua a ciência para gerar alimentos, começaram 2013 degustando um discurso inesperado. Em 3 de janeiro, na Conferência Agrícola de Oxford, Inglaterra, o ativista ambiental britânico Mark Lynas, jornalista feroz e histórico adversário dos transgênicos, disse o seguinte na sua palestra: “Peço desculpas por ter passado vários anos destruindo lavouras transgênicas. Lamento também ter ajudado a iniciar o movimento contra os transgênicos em meados de 1990 e, assim, ajudado na demonização de uma opção tecnológica importante que pode ser usada para beneficiar o meio ambiente”, admitiu. “Como ambientalista e alguém que acredita que todos no mundo têm o direito a uma alimentação saudável e nutritiva de sua escolha, eu não poderia ter escolhido um caminho mais contraproducente. Hoje, me arrependo completamente.” Enquanto isso, o mundo atingia (em 2012) 170,3 milhões de hectares de plantios geneticamente modificados, 10,3 milhões a mais que no ano anterior – e o Brasil representou 61% desta expansão.

E Lynas prosseguiu a manifestação de 32 minutos elencando uma sequência de argumentos embasados em princípios científicos a favor da utilização dos alimentos geneticamente modificados, inclusive sem deixar de mencionar a decisiva significância da tecnologia para suprir as necessidades alimentares que a humanidade tem hoje e terá nas próximas décadas. Ao mesmo tempo em que o britânico fazia o mea culpa, há milhares de quilômetros, sem nenhum remorso, os agricultores brasileiros tinham acabado de plantar a segunda maior área de cultivos modificadas do mundo. Isso apenas oito anos após a Lei de Biossegurança (11.105/2005), que regulamentou e deu legitimidade a este tipo de cultivo – além de regular pesquisa, transporte, comercialização e mais. Nesta safra 2012/2013 o Brasil plantou 37 milhões de hectares de transgênicos, 14% a mais que na temporada anterior. A soja modificada representa 88,8% da área total da oleaginosa; o milho, 87,8% e o algodão, 50,1%. Estão aprovados no País 36 eventos transgênicos, 18 de milho, 12 de algodão, cinco de soja e um de feijão.

Os números – e os arrependimentos, ainda que tardios – comprovam que esta tecnologia revolucionária deslanchou de vez no mundo. Sobretudo nas planícies brasileiras. E, dizem em uníssono os especialistas, está se vivendo hoje apenas o princípio de uma era de possibilidades ilimitadas. Um híbrido de milho resistente a uma lagarta permite ganhos importantes ao produtor e, por conseguinte, ao consumidor final da cadeia, que poderá pagar mais barato por um alimento gerado a um custo inferior. Mas o que dizer deste consumidor poder, daqui a um tempo, lançar mão na gôndola do supermercado de um alimento enriquecido com determinada proteína ou com uma propriedade me dicinal? Estas pesquisas estão em pleno andamento, especialmente nos Estados Unidos, principal pesquisador e maior produtor de transgênicos.

Por hora, como mencionado, os agricultores brasileiros seguem abarrotando – a cada safra mais – suas plantadeiras com as sementes modificadas. E se mostram muito satisfeitos – e agradecidos. Mas não são os únicos a manifestarem gratidão: a economia do País e a natureza também dizem obrigado. É o que descrevem em detalhes dois estudos da consultoria Céleres, divulgados no ano passado. Um sobre os ganhos econômicos e outro em relação aos benefícios ambientais do plantio de transgênicos nas lavouras brasileiras entre as temporadas 1996/97 e 2011/12 (16 safras). Explica-se: a safra 1996/97 de referência foi a que americanos e argentinos passaram a usufruir a tecnologia – bem antes dos colegas brasileiros. A consultoria comparou a diferença dos custos de produção de lavouras transgênicas e convencionais, assim como fez o paralelo nos manejos das duas tecnologias para estimar quanto foi economizado em água, CO2 emitido, diesel e ingrediente ativo de defensivo não utilizado.

Os resultados dos dois levantamentos não exigem argumentos para justificar a vantagem da adoção da tecnologia. Os ganhos econômicos obtidos por agricultores e pela indústria detentora da tecnologia somam US$ 18,8 bilhões, dos quais o milho (cultivo transgênico legalizado em 2008/09) acumula 58%, a soja, 39% (desde 2003/04) e o algodão, 3% (2004/05). A maior parte dos ganhos, 51%, decorre dos incrementos de produtividade, seguido pela redução do custo de produção, com 37%. E, conforme o levantamento, o produtor é o maior beneficiado pelo “extra”, com o embolso de 81%, ou R$ 15,23 bilhões. A indústria ficou com os demais 19%. Outro valor impressionante: se a tecnologia dos três cultivos tivesse sido incorporada já na safra 1996/97, como ocorreu com os concorrentes americanos e argentinos, as vantagens econômicas seriam de US$ 47,6 bilhões, ou quase três vezes a obtida. Portanto, o atraso significou um ralo de US$ 28,75 bilhões.

A soja foi a primeira cultura a ter a transgenia aprovada no Brasil, na temporada 2003/2004, com a soja RR1, resistente ao glifosato. Hoje, a oleaginosa tem cinco eventos avalizados pela CTNBio

Já o estudo sobre os benefícios ambientais desmanchariam qualquer resistência de “ambientalista” – desde que houvesse boa vontade para interpretá-lo. A estimativa da Céleres, com as mesmas referências e parâmetros da econômica, concluiu que se economizou o seguinte: 27,8 bilhões de litros de água – suficiente para abastecer uma cidade com mais de 630 mil habitantes desde 1996; no caso do diesel, foram economizados 231 milhões de litros – volume para atender a uma frota de 96 mil veículos leves desde 1996; a redução de da emissão de CO2 atingiu 614 mil toneladas, o equivalente a 4,5 milhões de árvores preservadas de pé; e os ingredientes ativos não lançados dos bicos de pulverizadores totalizam 22,1 mil toneladas. “A biotecnologia se apresenta como uma ferramenta capaz de contribuir com práticas agrícolas mais sustentáveis que reduzem a pressão exercida sobre os recursos naturais”, avaliou o trabalho.

A consultoria ainda calculou ganhos e economias a serem acumulados pelas dez temporadas seguintes, da safra 2012/13 à 2021/22. O benefício total seria de US$ 118,2 bilhões, dos quais a produtividade representaria 67%. E o produtor ficaria com 82%, ou US$ 97 bilhões. O estudo menciona, inclusive, que o consumidor final será um dos beneficiados, visto o barateamento de insumos como a ração animal, o que implicará em carne menos custosa. Se, no caso hipotético, os transgênicos vierem a ser proibidos, as perdas potenciais seriam da ordem de US$ 175,7 bilhões, enquanto para repor o tamanho dos prejuízos em produção de soja, milho e algodão seria preciso adicionar uma área total de 53,1 milhões de hectares – o que exigiria outros US$ 188 bilhões em investimentos.

Facilitações ao produtor — No caso do produtor, o advento da transgenia possibilitou praticidades cotidianas nos cultivos. O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Marcelo Gravina, doutor em Fitopatologia e Biologia Molecular, esclarece que a tecnologia permite que o produtor reduza significativamente as aplicações de defensivos, o que diminui consideravelmente o uso do insumo água na agricultura – responsável por 70% da demanda de água no mundo. “O número de vezes que o produtor vai à lavoura é menor”, lembra. Mais do que isso, a tecnologia tornou viável diminuir o número de produtos aplicados, como inseticidas para lagartas, já que o milho Bt é tolerante a estas pragas e, portanto, não exige a pulverização com lagarticida. “No milho de segunda safra, em algumas regiões a lagarta inviabilizava o plantio”, revela.

Já o plantio de soja resistente ao glifosato facilitou a adoção do plantio direto, pois permite o uso de um único herbicida e de espectro amplo. O professor acrescenta que o princípio ativo do glifosato é de uma classe toxicológica inferior à de outros herbicidas e tem degradação no solo mais rápida. Inclusive, exemplifica, nos Estados Unidos é comumente utilizado para pulverizar jardins de casas. “Não é só o volume que reduziu, mas o tipo de produto usado”, ressalta. E Gravina, que é engenheiro agrônomo, lembra que os casos de resistências, tanto de invasoras como de pragas, se devem a erros de manejo do produtor, como a não observância da rotação de princípios ativos, o não estabelecimento de áreas de refúgio, entre outros equívocos na condução dos cultivos. “Existe tecnologia para resolver isso. Mas o produtor tende a usar o que vem dando certo”, adverte, ao relatar porque às vezes o manejo não é alterado.

Estudo da Céleres aponta que na agricultura brasileira, nos próximos dez anos, a transgenia vai “evitar” que 53 milhões de hectares sejam desbravados por lavouras para gerar a mesma produção

As explicações e também os números levantados pela Céleres não deixam margem a dúvidas sobre o que significa a adoção – ou não – desta tecnologia para o campo e, sobretudo, para a sociedade. Portanto, todos os empenhos e investimentos nesta área da ciência são muito bem-vindos. Inclusive porque, até que se prove (em laboratório) o contrário, não existe nenhuma evidência científica que alimentos modificados façam mal a pessoas, animais ou meio ambiente. Um dos maiores especialistas nesta área, o pesquisador da Embrapa Francisco Aragão, responsável pelo laboratório de engenharia genética da instituição, menciona organismos internacionais insuspeitos como a Organização Mundial da Saúde e academias de ciências de vários países que não averiguaram nenhum dano ou ameaça dos transgênicos desde 1996, quando a soja Roundup Ready (RR1) foi liberada. Ele lembra que, desde então, mais de 1 bilhão de hectares da oleaginosa já foram cultivados sem causar nenhum problema comprovado.

Aragão reflete ainda que outro temor aventado desde sempre não tem fundamento: o perigo da tecnologia ficar monopolizada por poucas empresas. “Como se isso já não acontecesse em defensivos, sementes, fertilizantes, irrigação”, compara. Sem contar, acrescenta, os monopólios em setores da sociedade, como o caso da informática. Hoje, os debates se transgênico faz bem/faz mal estão restritos à “arena dos artigos científicos”, conforme define. Até pelo interesse em ganhar visibilidade global, revistas científicas veiculam artigos de pesquisas alertando sobre riscos dos alimentos modificados. Porém, mais tarde estes são desqualificados por equívocos básicos de metodologia, e muitas publicações são obrigadas a retirar o artigo de circulação. Como foi o caso recente de uma pesquisa francesa sugerindo que ratos alimentados com milho transgênico contraíam câncer, trabalho invalidado pela Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos (EFSA) em razão de erros de procedimento.

Aragão, da Embrapa: "a Organização Mundial da Saúde e academias de ciências de vários países nunca apuraram nenhum mal causado pelos alimentos modificados"

Quanto ao futuro da biotecnologia, Aragão destaca cinco grupos de possibilidades: 1 – o controle de estresses abióticos, ou seja, plantas resistentes à estiagem e que já são realidade nos Estados Unidos inclusive com a comercialização de sementes neste ano - “Isso está só no começo”, avalia; 2 – plantas com maior teor nutritivo; 3 – plantas muito mais produtivas, como um arroz (em desenvolvimento) que vai produzir 30% mais; 4 – a alteração do genoma da planta, que pode, por exemplo, retirar o gene da toxidez de uma cultura ou acrescentar um que faça gerar mais óleo e, assim, ser mais propícia à geração de biodiesel; 5 – “plantas-remédios”, com propriedades farmacológicas. Fora tudo isso, naturalmente, seguem as pesquisas e os lançamentos comerciais de variedades com resistências e tolerâncias (e combinações entre estas características) que facilitem cultivos e reduzam os custos de produção do produtor.

Adriana, do CIB: “A biotecnologia é mais uma ferramenta para aumentar a oferta de alimentos em consonância com práticas sustentáveis de preservação do meio ambiente”

Mais comida para a humanidade — A doutora em Ciências Biológicas Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), contextualiza realidades + possibilidades dos transgênicos no imenso desafio da humanidade em alimentar todos nós. Afinal, são 7 bilhões de pessoas hoje, com previsão de chegar a 9 bilhões em apenas mais 17 anos. Ela lembra que o crescimento da população vai impor o aumento das produtividades, visto os impedimentos para desbravar novas áreas por uma série de barreiras, a começar pelas ambientais. “O Brasil pode liderar este processo investindo em modificação genética. Por meio da biotecnologia, podemos conseguir variedades de plantas mais resistentes, adaptadas, nutritivas e produtivas, o que reduziria a pressão por novas áreas agrícolas e contribuiria para a sustentabilidade”, avalia. “Certamente, a biotecnologia é mais uma ferramenta para aumentar a oferta de alimentos em consonância com práticas sustentáveis e preservação do meio ambiente.”

E Adriana visualiza total vinculação entre o desenvolvimento da biotecnologia e o agronegócio brasileiro, já incumbido pela FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação para prover 40% do volume extra de alimentos necessários a serem produzidos até 2030. “A competitividade do agronegócio, particularmente o tropical, passa pela aplicação dos conceitos e ferramentas da biotecnologia moderna para a superação de limitações e para adição de novas funcionalidades à produção agropecuária”, lembra. Para tanto, esclarece: “É importante ressaltar, entretanto, que para o contínuo desenvolvimento da biotecnologia é preciso reconhecer a autoria das tecnologias geradas depois de anos de muita pesquisa e investimento. É graças ao sistema de remuneração de tecnologias como a modificação genética que é possível criar um modelo de negócios sustentável, também do ponto de vista econômico, que permita reinvestimento em novas pesquisas. A proteção intelectual pode ser utilizada como ferramenta para a criação de um círculo virtuoso de pesquisa, desenvolvimento e inovação”.

Polêmica dos royalties — Este tema, o pagamento de royalties, esteve no centro de uma polêmica no início do ano, num embate entre a Monsanto, detentora da tecnologia de soja resistente ao glifosato Roundup Ready, e os produtores, representados pela Associação Brasileira dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja). A entidade entende que a patente sobre a soja RR1 já está vencida e que a empresa não teria o direito que cobrar 2% de indenização sobre cada saca comercializada pelo produtor. “Não concordamos com a cobrança arbitrária”, argumenta Ricardo Tomczyk, vice-presidente da Aprosoja MT. “É retenção, é tributo. A Monsanto não pode cobrar tributo”, prossegue. “Não pode acontecer, é errado juridicamente.” A Monsanto entende que tem a patente até 2014, com base da legislação americana, e recorreu contra a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Tomczyk deixa claro que reconhece ser “mais do que justo que a tecnologia seja remunerada”. “Se não houver interesse econômico, não vai haver pesquisa”, entende. “Mas as empresas devem respeitar a lei brasileira, que é simples e clara.” Ainda quanto a esta questão, Tomczyk manifesta preocupação sobre como será feita a remuneração de uma tecnologia que tem dois eventos, cada qual pertencente a uma detentora (empresa). “É preciso segurança para quem vai receber, com justiça e equilíbrio para quem vai pagar. Desenvolver um sistema justo e adequado”, adverte. O dirigente esclarece que, hoje, nem ao menos existe um modelo definido, sendo que em breve uma semente com dois eventos já será realidade. “O setor tem muita preocupação sobre como será a captura de valores.

Não existe discussão quanto a isso. É preciso unir o setor e discutir.”

Outra apreensão do dirigente da Aprosoja MT é a mesma do presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), Narciso Barison. A China, justamente a principal importadora da soja brasileira, não tem aceitado a soja gerada com a tecnologia Intacta RR2 Pro, desenvolvida pela Monsanto, que agrega na mesma semente resistência ao glifosato e tolerância a lagartas – material já aprovado para cultivo no Brasil e em outros países. “A tecnologia não pode ser colocada à disposição do produtor por causa da China. O principal mercado consumidor não aceita”, lamenta Barison. Ele conta que as lideranças brasileiras, incluindo o Governo, estão empenhadas em convencer os chineses para que recebam esta soja, inclusive com o envio de comitivas àquele país. “Queremos sensibilizar o governo chinês e mostrar que não existe risco nenhum.”

Este imbróglio com os asiáticos é considerado pelo dirigente o principal desafio do momento enfrentado por quem milita em torno da tecnologia dos transgênicos. Mas, fora o impasse, Barison considera que o país obteve “avanços extraordinários” na tecnologia dos cultivos modificados. “Nós (do segmento sementeiro) nos sentimos importantes em levar a genética para o agricultor e à agricultura brasileira”, ressalta. A partir da adoção da tecnologia, tornou-se possível ao produtor daqui competir em igualdade de condições com o americano e o argentino. “Além de renda, a biotecnologia trouxe conforto extraordinário para o agricultor e para o meio ambiente.” E Barison entende que a realidade de hoje é apenas a “ponta do iceberg”, visto o potencial da transgenia. “Os novos eventos vão multiplicar os benefícios”, diz, referindo-se às possibilidades de incutir no grão qualidades como resistência à seca, proteína, amido, Ômega 3, etc


AGRICULTORES EUROPEUS VIVEM O DRAMA DA BETERRABA

Enquanto por aqui os agricultores brasileiros deleitam-se com os avanços milagrosos da biotecnologia, os colegas europeus esbarram nos “contrastes incoerentes”, definição da bióloga Lúcia de Souza (foto), doutora em Bioquímica e integrante do Public Research and Regulation Initiative (PRRI), iniciativa internacional que reúne cientistas e acadêmicos do setor público que trabalham com biotecnologia moderna. A brasileira, que também presta apoio à Associação Nacional de Biossegurança (ANB), esclarece que entre as missões da PRRI está aumentar a conscientização para a necessidade e o progresso na pesquisa pública em biotecnologia moderna.

É histórica a resistência dos consumidores europeus aos alimentos modificados. Mas veja que incoerência. Conforme Lúcia, duas pesquisas recentes apontaram, respectivamente, que 54% e 61% dos europeus são contra os transgênicos. Portanto, a maioria não engole um alimento modificado. Mas... “Numa população de mais de 500 milhões de habitantes, essa considerada ‘minoria’ é, na verdade, um número alto e importante; representa uns 200 milhões de consumidores que estariam acessíveis ao consumo de transgênicos. E, afinal, toda nova tecnologia começa pela adoção de uns poucos inovadores e adotantes iniciais. É com o tempo que pode ganhar outros consumidores pelos méritos do produto”, argumenta a cientista.

“Existem várias causas para a plantação de transgênicos não engrenar na Europa, mas a resistência dos consumidores não é a causa principal. O sistema regulatório é mal gerenciado e implementado. As regras definidas na legislação são ignoradas, e produtos geneticamente modificados esperam muito tempo numa espécie de limbo burocrático”, analisa. “Acredito que o número de ativistas contra transgênicos seja na verdade pequeno, mas são muito influentes. Campanhas sustentadas por esses grupos antitransgênicos fazem muita pressão, baseadas mais em ideologias ou interesses econômicos que fatos, e espalham medo de maneira aonde a ética e a responsabilidade deixam a desejar.”

O curioso é que instuituições europeias há muito avalizaram os transgênicos, baseadas em 25 anos de pesquisa. Como o EU Commission-sponsored Research on Safety of Genetically Modified Organisms (1985-2000), que declara “a utilização de tecnologia mais precisa e o maior escrutínio da regulamentação tornam provavelmente os OGMs ainda mais seguros do que as plantas e os alimentos convencionais”. Já o relatório “Uma década de financiamento de investigação na União Europeia, 2001-2010”, que analisou projetos de investigação de mais de 400 grupos independentes, concluiu que “a biotecnologia e, em particular os OGMs, não apresentam por si mais riscos do que as tecnologias de melhoramento convencional de plantas”. Ambos os trabalhos são da Comissão Europeia.

Outra incoerência é que os europeus importam cerca de 30 milhões de toneladas de alimentos por ano, sobretudo de países que cultivam transgênicos. Um exemplo: 93% da soja consumida na Europa é de fora, principalmente importada de Brasil e Argentina, onde predomina o cultivo da oleaginosa modificada. A realidade é que apenas um milho Bt e uma batata com composição alterada de amido estão liberados para o plantio na Europa. “Um produtor na Itália, por exemplo, vive a frustrante situação de poder oficialmente comprar milho Bt para alimento ou ração, mas, se plantar, é ilegal”, descreve.

E há ainda o caso da beterraba para produção de açúcar, um dos cultivos mais importantes naquele continente, mas que tem as ervas daninhas como uma das limitações de cultivo. A variedade sacarina tolerante ao herbicida glifosato foi desenvolvida, mas devido às complicações para se fezerem testes em solo europeu, os desenvolvedores a lançaram comercialmente nos Estados Unidos e no Canadá. “Mesmo com essa experiência positiva na América do Norte, os produtores da União Europeia (UE) ainda não dispõem dessa opção”, espanta-se. “Outro exemplo é o caso da empresa alemã Basf, que anunciou recentemente que iria abandonar o processo de aprovação de suas variedades de batatas transgênicas na UE depois de uma década de pesquisa e investimento, citando incertezas no ambiente regulatório e os problemas de vandalismo nos testes de campo na Europa.”


"Todos ganham com o avanço da biotecnologia"

Absolutamente tudo o que envolve transgenia no Brasil precisa passar pela Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia (CTNBio), um colegiado formado por 27 cientistas titulares e 27 suplentes de diferentes áreas. A missão da CTNBio, criada em 2005, é prestar apoio técnico consultivo e assessoramento ao Governo quando o assunto é Organismo Geneticamente Modificado (OGM). O presidente da Comissão para o biênio 2012/13 é Flavio Finardi Filho (foto), Ph.D em Ciência dos Alimentos, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo.

No início do ano o ativista inglês Mark Lynas, histórico antitransgênicos, admitiu estar arrependido de sua militância. Simbolicamente, o que isso significa na queda de braço contra os que são contra a biotecnologia por princípios, por vezes, obscuros? No Brasil, ainda existem resistências consideráveis aos GMs?

O que devemos comemorar é a percepção de que a ciência é o caminho para propor novas soluções, seguras e confiáveis, para a manutenção e preservação do meio ambiente e da saúde dos seres vivos. Portanto, não encaro como uma queda de braço com ganhador e perdedor. Considero que os fatos mostram, ainda que a médio ou longo prazo, que todos ganham com o avanço da biotecnologia. Em relação à resistência do público aos OGMs, penso que está cada vez menor. Em grande parte, a melhor aceitação pode ser explicada pela produção e consumo de alimentos derivados da tecnologia há quase duas décadas, sem relato de qualquer dano à saúde de pessoas ou animais alimentados, em condições reais e de forma regular, com milho, soja, canola, em quase todo o mundo, ou papaia, nos Estados Unidos e no Canadá.

Como se dá o trabalho da CTNBio para liberar um evento agronômico modificado?

A Comissão analisa caso por caso em diversas etapas antes de um evento GM ser liberado para o consumo. Se desenvolvido no país, como o caso do feijão resistente ao vírus dourado, é feita uma comunicação de projeto de pesquisa pela Comissão Interna de Biossegurança (CIBio) da instituição, para a fase de testes e ensaios em laboratório. Ao se obter produtos de transformação candidatos a evento elite, a CIBio solicita à CTNBio a Liberação Planejada no Meio-Ambiente. Nesta etapa são analisadas, por parte dos membros da CTNBio, as condições de segurança ambiental e instalações nas quais os ensaios serão implementados, monitorados e colhidos, no caso de plantas, para avaliação de desempenho agronômico. Estão também previstas nessa etapa as formas de descarte dos resíduos agrícolas do ensaio não usados. Somente após estas fases, a instituição ou empresa interessada solicitará a Liberação Comercial do evento GM, abrindo mais uma rodada de avaliação pelos membros da CTNBio. Finalmente, se aprovada a liberação, os interessados devem aguardar a manifestação do Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS), composto por 11 ministros de Estado. A nossa cadeia de avaliação e liberação é única entre os países que adotam sistemáticas de análise de segurança de OGM, no entanto, tem despertado interesse de diversos países que estão em fase de elaboração de diretrizes e leis para essa finalidade.

Neste momento, quantos eventos agronômicos transgênicos estão em análise na CTNBio?

São diversos processos com tipos distintos de modificações. Sem mencionar nominalmente, posso adiantar que, além dos “clássicos”, soja, milho, algodão e vacinas para aves, estão registrados em nossas pautas produtos de modificações em mosquitos, leveduras, cana-de-açúcar e eucalipto. Sobre a disponibilidade ao produtor, depende de diversos fatores, que vão do tempo necessário para o registro e reprodução de sementes a estratégias comerciais das empresas. Em alguns casos a espera para liberação ao produtor depende da liberação do produto para consumo em países da Ásia.

Que futuro o senhor vislumbra para os organismos geneticamente na agricultura brasileira? Sobretudo em comparação a outras agriculturas desenvolvidas.

A continuidade nos avanços da agricultura brasileira destinada à produção de commodities deverá ser mantida por meio de novas modificações e de genes combinados numa única semente, visando resolver velhos problemas e favorecendo o aumento da produção agrícola de forma sustentável. No entanto, a garantia para o crescimento do setor está na correta aplicação da tecnologia, de acordo com as recomendações de boas práticas agrícolas, que incluem rodízio de culturas, pousio e manutenção de áreas de refúgio. Ainda, novos nichos virão com a introdução no mercado do feijão, que se destina a pequenos e médios produtores, com a produção de OGMs destinados a sintetizar vitaminas, vacinas e outros compostos bioativos.