Glauber em Campo

 

O DESAFIO DA ABUNDÂNCIA DE PRODUÇÃO

GLAUBER SILVEIRA

Pelo que tudo indica, teremos uma grande safra de milho, com estimativas de volumes superiores a 80 milhões de toneladas, um crescimento expressivo de 60% em cinco anos. Mas, aliada à esta produção colheremos também consequências severas, seja pela falta de armazéns, seja pela pior logística de transporte que um país exportador poderia ter. E por isso, uma produção que deveria ser comemorada traz na verdade consigo muitas preocupações.

O Brasil tem demonstrado sua vocação como um grande produtor de milho, com potencial para dobrar sua produção rapidamente. Mas infelizmente, a cada tonelada adicional produzida uma grande pressão é feita nos preços. E esse ano, dessa produção estimada devem ser consumidas no máximo 55 milhões de toneladas. Restariam, assim, 25 milhões de toneladas, fortemente concentradas no Centro- Oeste, a 2 mil quilômetros do porto. O frete por sua vez, segue em alta, pressionado pelas péssimas condições das vias, portos ineficientes e a Lei dos Motoristas inexequível à realidade brasileira.

E quando buscamos um entendimento com o Governo, mesmo diante do nosso potencial produtivo e as dificuldades enfrentadas, há sempre forte resistência. Ainda que seja demonstrado que nos EUA se gasta US$ 25/tonelada no transporte de grãos e no Brasil US$ 85/tonelada, não surte efeito. Mesmo mostrando que o motivo é o nosso modal de transporte equivocado. Mesmo assim, ouvimos do Governo por diversas vezes que a solução é diminuir a produção. E ainda que o Ministério da Agricultura defenda a produção, os demais tratam nossa pujança como se fosse um mal.

Ora, o milho figura entre as culturas mais importantes para humanidade, tanto para a alimentação humana quanto para conversão em proteína animal. E, justamente por isso, os grandes países produtores de alimentos têm se especializado na sua produção. Os Estados Unidos, por exemplo, apesar de serem os maiores produtores mundiais do grão há anos, aumentaram seu patamar de produção 131% na última década.

E por isso acredita-se que o Brasil pode e deve aproveitar essa oportunidade e aumentar sua produção, haja a vista a alta eficiência do milho para transformar a luz solar em amido. Mas colocarmos todas as nossas apostas na sua exportação é um equívoco. E a nossa desvantagem em infraestrutura e logística está aí para nos lembrar de que já entramos no limite da competitividade com a exportação do milho.

Nós da Aprosoja, há muito incentivamos a agregação de valor da produção pela transformação do milho em etanol e DDGS, este último um ingrediente interessante para ração animal. A pergunta é: por que não? Se podemos produzir etanol desse excedente, agregando um valor fantástico, por que não fazer? Afinal, com uma tonelada de milho se faz 380 litros de etanol, 240 quilos de DDGS. Isso daria um faturamento de R$ 700 por tonelada de milho, segundo a Céleres, contra R$ 250 a R$ 300 se apenas fosse exportada.

Fica claro que se trata de uma grande oportunidade para amenizar os impactos atuais da falta de infraestrutura e logística e equilibrar os preços regionais. E ainda, se considerarmos o advento das indústrias de etanol Flex, que surgem nesse momento em que o mundo fala em eficiência, aproveitando o período ocioso das usinas de cana e o grande potencial de expansão do milho nas fronteiras agrícolas do Brasil, tudo se casa. Em alguns números, segundo a Céleres, uma usina de 1 milhão de toneladas de milho produziria etanol suficiente para substituir 290 milhões de litros de gasolina, geraria R$ 180 milhões em tributos e 150 novos empregos diretos.

Temos acompanhado a usina de Campos de Júlio/MT, a Usimat, e temos visto a empolgação e o sucesso destes dois anos de produção com a grande procura pelo etanol e DDGS de milho. Fica aqui o alerta: o Brasil precisa começar a pensar grande no futuro e no seu potencial. E, principalmente, deixar de ver problemas onde na verdade existe solução. Quem mora no Mato Grosso vendeu milho há uma safra por R$ 20 a saca e na outra tem que vender a R$ 10, sabe do que estou falando.

Engenheiro agrônomo, produtor e presidente da Aprosoja Brasil