Na Hora H

 

OS 40 ANOS DA EMBRAPA. PARABÉNS, BRASIL!

Alysson Paolinelli

Em 26 de abril a Embrapa comemorou os seus 40 anos de existência. Quarenta anos de profundas modificações na agropecuária brasileira, que alteraram de vez, e muito, toda a economia, a parte social e a própria vida do País. E lembrar que nas décadas de 1960 e 1970 o País dependia de importações de alimentos na ordem dos 30% de suas necessidades. A nossa economia, como ainda hoje, dependia da exportação de seus produtos primários tropicais, como o café, que chegou a quase 80% de nossas exportações, o cacau, a borracha e as madeiras tropicais, as únicas coisas em que éramos “competitivos”. Os grandes saldos da nossa balança comercial, gerados por estes produtos, estavam a cada ano sendo corroídos pelo desequilíbrio de uma indústria obsoleta e dependente de ajudas governamentais. Também pelo acréscimo na importação de alimentos para complementar o abastecimento brasileiro, dependente de importações crescentes.

Na década de 1970 veio a crise do petróleo, na qual o barril, de US$ 3, vai, em uma semana, a US$ 11, US$ 15 por barril. Isto para um país como o Brasil, que dependia de 80% de petróleo importado para atender a sua demanda, foi fatal. Os saldos comerciais provenientes do café e dos outros produtos que exportávamos não eram suficientes para manter esta terrível despesa. A persistir esta situação, o Brasil estaria literalmente quebrado. Descobrir-se petróleo de uma hora para outra era uma ilusão. Conseguir fazer a nossa indústria passar a ser competitiva levaria tempo e muito dinheiro. A única solução viável seria atentarmos para a nossa produção de alimentos, procurando pelo menos corrigir a necessidade das vergonhosas importações. Como fazer este “milagre”?

Este milagre de fato começou nas nossas universidades e escolas de Agronomia e Veterinária, que àquela época não passavam de 12 de Agronomia e 9 de Veterinária. Os seus professores saíram em busca de aperfeiçoamento em cursos de pós-graduação em países mais desenvolvidos em tecnologia e conhecimento. Lá encontraram o chamado Land Grant College, onde o ensino se integrava à pesquisa, à extensão rural e à universidade e, de fato, influenciava nas comunidades e em seus níveis de conhecimento.

Voltaram ao Brasil e aqui botaram em prática o que lá aprenderam. Fundaram os primeiros cursos de pós-graduação do País. Implantaram formalmente a integração de ensino, pesquisas e extensão rural. Os professores atuavam em tempo integral e realmente começaram a formar uma leva de profissionais muito mais bem preparados para a realidade brasileira. Descobrimos que, como país tropical, não adiantava insistir em importar tecnologias de clima temperado, pois aqui elas não produziam como lá. Tínhamos sim era de enfrentar os nossos biomas, que são muito diferentes dos de lá, e procurar com novos conhecimentos aprender a manejar os recursos naturais que eles dispõem e que têm de ser permanentes.

Foram estes novos profissionais que, convocados por governos, aonde chegavam criavam novas mentalidades e direcionamentos nos objetivos fundamentais dos bons administradores. Aí sim, iniciou-se a nova mentalidade que revolucionaria a agricultura brasileira, que em menos de uma década já era capaz de suprir o auto-abastecimento de seu povo. Buscaram na ciência e na tecnologia as inovações que criariam a primeira agricultura tropical do globo, competitiva, altamente produtiva e, mais do que isto, a mais conservacionista que existe.

Foi esta verdadeira revolução que possibilitou a criação da Embrapa. Foram homens que, liderados por um Elizeu Andrade Alves, por um professor Almiro Blumenshein e tantos outros, se atreveram a organizar e sustentar a instituição mais respeitada no mundo em agriculturas tropicais. Temos de reconhecer que foram bons governos que souberam manter esta instituição livre de injunções políticas e das mazelas da estrutura pública, na preservação de seus valores sempre escolhidos sob a bandeira do mérito e da honradez. É por isto que temos o privilégio de poder ter um Elizeu Andrade Alves, alma mater da nossa Embrapa, um verdadeiro guardião dos princípios que a nortearam desde a sua fundação. Muito obrigado, Brasil, por não ter permitido que politizassem e destruíssem o que temos de melhor: a nossa Embrapa.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura