O Segredo de Quem Faz

 

Mais DINHEIRO para investir

Gaúcho radicado em Mato Grosso na década de 80, Neri Geller leva a experiência e a vivência de produtor para o trabalho como titular da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). E, especialmente nas últimas semanas, o trabalho foi intenso por lá. Nomeado secretário no início de janeiro, Geller conta que começou a tratar da formulação do novo Plano Agrícola e Pecuário já no final do mesmo mês. Na segunda semana de abril, quando esta entrevista foi feita, as definições estavam em fase decisiva, já que o anúncio das regras que irão guiar a próxima safra deve ocorrer ao longo deste mês. Embora não possa dar detalhes sobre o volume de recursos que será destinado aos produtores, o secretário garante que vem por aí um plano com mais dinheiro e muitas novidades.

Denise Saueressig
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A Granja – Como estão as discussões a respeito do Plano Agrícola e Pecuário para a safra 2013/ 2014?

Neri Geller – Começamos os debates, com o recebimento das demandas, no final de janeiro e, agora, estamos na fase de conclusão. A equipe da SPA (Secretaria de Política Agrícola) viajou até diferentes estados para ouvir lideranças, e diversas áreas do Governo estão envolvidas na formatação do novo Plano Safra.

A Granja – Quais devem ser as principais novidades apresentadas aos produtores?

Geller – Alguns assuntos específicos, como a armazenagem, farão parte desse novo plano. Discutimos com o setor tabelas de rentabilidade para construir um programa para estimular a construção de armazéns por parte da iniciativa privada. É preciso definir o período de carência, por exemplo, já que a construção de um armazém, dependendo do tamanho, pode levar entre um ano e meio a dois anos. Tivemos reuniões em estados como Goiás, Paraná, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Encaminhamos informações ao Ministério da Fazenda e ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para avaliarmos a possibilidade de incluir os armazéns no PSI (Programa de Sustentação do Investimento). O PSI financia hoje apenas os equipamentos para armazenagem, mas não a estruturação e a construção civil de um armazém. O que queremos é que um projeto só financie toda a estrutura com taxas de juros subsidiadas, entre 3,5% a 4% ao ano. O setor demanda um prazo de pagamento de 18 anos, mas nós pensamos em 15 anos. O setor ainda pede quatro anos de carência, mas para viabilizarmos esse projeto, pensamos num meio termo, entre dois ou três anos de carência. Hoje, temos o Moderinfra (Programa de Incentivo à Irrigação e à Armazenagem), que tem taxas de juros mais altas em relação ao PSI. Concluímos que a atividade econômica da armazenagem não é muito rentável e, por isso, teria que ser mais subsidiada. Se não conseguirmos mais benefícios por meio do PSI, vamos construir uma alternativa.

A Granja – O investimento em armazenagem é uma das vias para amenizar os graves problemas enfrentados no escoamento da safra. De que outras formas o Governo trabalha para atenuar esse que é o grande gargalo do agronegócio brasileiro?

Geller – Sem dúvida, quando a armazenagem é consistente, não há tanta pressa em escoar a safra. E aí podemos lembrar o que aconteceu em Mato Grosso: tivemos uma supersafra de milho no estado no ciclo 2011/2012, que passou de uma previsão de 8,5 milhões a 9 milhões para quase 16 milhões de toneladas, o que congestionou as estruturas de armazenagem. A nossa sorte foi que o mercado internacional estava aquecido e o Brasil exportou quase 20 milhões de toneladas de milho no ano passado. No entanto, essa venda não bastou para liberar os armazéns, que ainda precisavam receber a soja. Com isso, os caminhões usados no transporte da safra precisam, além de cumprir os contratos no mercado internacional, abrir espaço para o recebimento da nova colheita. Sabemos que existem programas de incentivo à armazenagem, principalmente, em novas fronteiras agrícolas, mas a implantação dessas unidades não acompanhou a dinâmica de aumento da produção. E a soja que agora está represada espera uma nova grande safra de milho, e assim por diante. Sobre a infraestrutura logística, temos que ser justos que nos últimos 30 anos foi investido muito pouco perto das necessidades do país. Agora, estamos animados com a conclusão da BR-163 (o Governo anunciou que a obra será finalizada este ano na rodovia que liga Cuiabá/MT a Santarém/ PA), que vai gerar ganhos pela redução de custos no transporte. Acreditamos que por essa rodovia haverá uma capacidade, num primeiro momento, para 4 milhões ou 5 milhões de toneladas, mas poderemos chegar a 18 milhões ou 20 milhões de toneladas nos próximos anos. Claro que isso não é de uma hora pra outra, porque também será necessário estruturar melhor o Porto de Santarém. A conclusão da BR-242 também será importante, porque vai levar parte da produção do norte do Mato Grosso até o Porto de Itaqui/ MA. Esses são exemplos de obras estruturantes que estão acontecendo, não na medida em que deveria ser, mas estamos avançando. Eu ando bastante pelo Centro-Oeste e percebo o quanto o setor é dinâmico e o quanto pode produzir ainda mais. A logística é o grande gargalo, que trava o aumento da produção. No sul do Pará, há muitas áreas de pastagens degradadas que serão incorporadas à produção e que, consequentemente, precisarão de infraestrutura para o escoamento. E isso inclui investimentos em mudanças na matriz de transporte. O país não pode continuar tão dependente das rodovias como ocorre hoje.

A Granja – Além da armazenagem, quais serão as outras prioridades do próximo Plano Safra?

Geller – Devemos apresentar uma linha de crédito de estímulo à inovação tecnológica, que foi uma determinação do ministro Antônio Andrade (Agricultura) e da presidente Dilma Rousseff, que tem a participação da Embrapa na formatação. Também vamos incentivar a irrigação, que entendemos ser uma ferramenta extremamente importante para as culturas da cesta básica. Estamos trabalhando inclusive em assuntos que não envolvem apenas as decisões do Mapa, como os custos e impostos sobre a energia. Podemos dizer que teremos um estímulo importante para inovação tecnológica, armazenagem, irrigação e para a agricultura de baixo carbono, que já vem recebendo uma atenção especial. Devemos ter novidades ainda para a manutenção do rebanho bovino. Como existem muitas áreas degradadas sendo incorporadas para a produção de grãos, estamos pensando numa estratégia para estimular a recuperação de áreas de pastagem extensiva para cria e recria. Essa é uma preocupação importante, porque entendemos que é preciso investir em tecnologia e recuperação do solo para manter o rebanho.

A Granja – Existe previsão de redução nas taxas de juros, assim como ocorreu no ano passado?

Geller - Podemos ter alguma modificação no Pronamp (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural). O Governo entende que há muitos pequenos produtores que estão se tornando médios produtores. E nós precisamos “tirar a tampa” para que eles possam crescer. A agricultura está gerando renda e o pai de família com dois filhos que hoje tem 100 hectares, quer ter mais 200 hectares para amanhã dar 100 hectares para cada filho. É natural e positivo que isso aconteça.

A Granja – Apesar do aumento no volume de recursos, o setor se queixa que ainda precisa recorrer muitas vezes ao capital privado para financiar a produção. O Governo tem alguma medida para sanar essa reclamação?

Geller – Uma das medidas que entendemos como útil para essa questão é a ampliação do limite do custeio por CPF, que é hoje é de R$ 800 mil. O setor defende R$ 1,7 milhão. Não vamos conseguir chegar a esse nível, mas talvez consigamos alcançar R$ 1,2 milhão. Assim, criamos uma autonomia maior para o produtor, principalmente em regiões onde as áreas cultivadas são maiores, como o Maranhão e o Piauí, por exemplo. Com dinheiro na mão, o poder de barganha do produtor é maior na hora de negociar a compra de insumos como óleo diesel, sementes, adubos e defensivos.

A Granja – Entre as muitas reivindicações entregues ao Governo pelo setor produtivo, está a proposta da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) de que o Plano Safra tenha duração de 18 meses e, num futuro próximo, que seja negociada uma proposta de cinco anos. O que o Governo pensa sobre isso?

Geller – Primeiro, entendemos que hoje já existem programas que duram de oito a 12 anos e que são investimentos de longo prazo. A proposta da CNA encontrou ressonância e, nesse sentido, estamos discutindo a criação de um limite de crédito que seja rotativo, que não precise ser efetivado todos os anos. Não somos contra a reivindicação da CNA, mas agora não sabemos se teremos tempo hábil para implementá-la. É preciso mudar uma série de regras para isso. A SPA e o Ministério da Fazenda já debateram essa possibilidade de crédito rotativo, que não precisaria ser específico para uma cultura. Cria-se um recurso, com um limite, como um cartão de crédito, e o produtor pode gastar como quiser. Mas ainda precisamos avançar nessa discussão, porque junto vêm o seguro, as garantias, a sustentação de preços.

A Granja - A CNA também sugere que o recurso para o seguro rural seja mais do que dobrado, chegando a R$ 850 milhões. É possível ampliar esse valor?

Geller - Acho extremamente justa essa reivindicação e devemos chegar perto disso, porque na safra anterior já houve um aumento, que elevou o orçamento para R$ 400 milhões.

A Granja – Uma das linhas de crédito que mais recebeu demanda nesta safra foi o PSI, que, pelas condições mais favoráveis, fez com que os produtores deixassem de lado o Moderfrota (Programa de Modernização da Frota) na hora de adquirir máquinas agrícolas. Existe alguma intenção de modificar o Moderfrota para os moldes do PSI?

Geller - O PSI tem muita procura pelas baixas taxas de juros e pelo longo prazo de pagamento, o que o diferencia em relação ao Moderinfra e ao Moderfrota. Sobre isso, estamos avaliando algumas questões. Existe a possibilidade de criação de uma nova linha nos parâmetros do PSI ou a injeção de recursos no Moderinfra e no Moderfrota com taxas de juros mais baixas, mesmo considerando que 5,5% ao ano já seja uma taxa muito boa, abaixo da inflação. E eu falo agora como agricultor. Mas talvez essas duas linhas venham com reformulações.

A Granja - Nos últimos anos o Governo vem ampliando o volume financeiro anunciado, que em 2012 chegou a R$ 115,2 bilhões. E para este ano, o que os produtores podem esperar?

Geller - Temos uma expectativa sim de aumento, mas não posso adiantar de quanto será. Os recursos vão continuar crescendo, até porque esse é um compromisso da presidente Dilma Rousseff. A ampliação vem dando resultados, porque, além de uma nova safra recorde que vem por aí, do plano de R$ 115 bilhões do ano passado, os financiamentos já somaram quase R$ 72 bilhões (entre julho de 2012 e fevereiro de 2013). Até o final do ciclo, a nossa expectativa é de que sejam demandados, pelo menos, R$ 105 bilhões. O Governo está fazendo a sua parte, com uma política agrícola forte. Ao mesmo tempo, a expectativa de alta rentabilidade mantém o produtor motivado a investir.