Eduardo Almeida Reis

 

ARACNOLOGIA

EDUARDO ALMEIDA REIS

Conselho de louco vale pouco, conselho de amigo vale um reino, conselho de vinho é falso caminho, bom conselho desprezado há de ser muito lembrado, pouco vale o bom conselho onde não querem segui-lo, mais vale ruim conselho do que boa demanda – são alguns dos ditados que recolho à pressa no Google.

Se procurasse nos livros, encheria esta página sem proveito para o leitor d’A Granja e para mim. Mesmo sabendo dessa verdade, mais velha que a Sé de Braga, continuo sem acreditar que amigos e colegas de trabalho não aceitem conselhos dados com pureza de alma, baseados nos anos todos em que vivi na roça.

Sei perfeitamente que neste país grande e bobo inventaram-se conselhos empresariais, sobretudo nos governos estaduais e federal, que nada aconselham e servem apenas para irrigar os bolsos e as bolsas dos apaniguados, corja de pilantras que vive da pilantragem política, partidária, bajulatória, parental.

De vez em quando, fico sabendo de um Fulano ou de uma Fulana no conselho desta ou daquela estatal faturando uma fortuna para engordar seu salário, sem que tenha competência para palpitar sobre os assuntos tratados pela empresa, mas fiquei furioso com dois jornalistas de alta expressão nacional, às voltas com os micuins apanhados na fazenda de um deles, que troçaram do conselho que lhes dei.

Na maior parte do Brasil é inevitável: tempo seco tem micuim à beça. Um tiquinho de aracnologia transcrita no papel não faz mal a ninguém. Vejamos: micuim é designação comum aos ácaros prostigmatos, da família dos trombiculídeos, que, em suas fases juvenis, são parasitas da pele de vertebrados; quase microscópicos, de colorido amarelo ou avermelhado, são confundidos geralmente com carrapatos de pequeno porte; bicho-colorado, micuim-amarelo, timicuí, timicuim. Durante a estação seca permanecem sobre a vegetação da capoeira ou sobre o capim, aglomerados aos milhares, de onde se desprendem para atacar homens ou mamíferos, causando neles terrível coceira. Mais grave que isso, micuins são difíceis de localizar nos corpinhos das crianças, como também nos corpos dos adultos, sejam ou não adúlteros.

Acontece que vivi na roça durante séculos e aprendi alguma coisa sobre ácaros postigmatos. A primeira delas é a seguinte: todos os banheiros do Pantanal tinham uma garrafa com um líquido fácil de preparar, que os pantaneiros usavam para passar em seus corpos antes da barba e do banho do final da tarde.

Mistura de uma colher de sopa de creolina em um litro de água, você passa o líquido no corpo inteiro, poupando as partes pudendas. Depois, faz a barba e toma o banho. Não fica um micuim para contar história. E não fica cheiro de creolina, que, sabemos todos, é o nome comercial de um líquido desinfetante composto de óleo de alcatrão mineral ou creosoto, a que se acrescentam sabão de resina, fenol e outras substâncias de propriedades antissépticas e germicidas.

Lá se vão muitos anos inventei um negócio que batizei como Quadrado de Pearson, composto de uma lata de creolina em 20 litros de água, para regar o terreiro de fazendinha que comprei. Escrevi uma crônica para A Granja com esse título – Quadrado de Pearson –, lá se vão bons 20 anos.

No terreiro da fazendinha havia milhões de bichos-de-pé: não sobrou um, porque um operoso compadre começou a regar a partir do centro do porão da casa colonial e foi ampliando as linhas regadas até chegar ao final do terreiro. O antigo proprietário criava porcos soltos. E teve 14 bichos-de-pé retirados por sua neta, no dia em que lá estive para conhecer a fazendinha.

Até o arquiteto e sua mulher, que depois foram comigo para palpitar sobre a reforma da velha casa, os dois calçando tênis importados, saíram de lá com os pés recheados de insetos sifonápteros, da família dos tungídeos (Tunga penetrans), de presumida origem sul-americana.

Vocês pensam que os dois jornalistas acreditaram no conselho que lhes dei sobre a mistura de uma colher de sopa de creolina em um litro de água? Até hoje não acreditam e passaram semanas catando micuins em seus filhinhos, porque acham que fica o cheiro da Pearson. Garanti que não fica, mas a minha garantia, ou nada, foi mais ou menos a mesma coisa.

Espero que o caro e preclaro leitor desta revista acredite em mim. Entra ano, sai ano, micuins são inevitáveis no período seco que se aproxima. Já que é meio difícil nos livrarmos dos políticos, podemos ficar livres dos postigmatos trombiculídeos.