Pulverização

 

Sem dar lado para a DERIVA

A dispersão de defensivos – conhecida por deriva – por meio de aplicações inadequadas é um dos aspectos mais negativos do uso de defensivos e causa efeitos maléficos ao aplicador, a outras culturas, animais, pessoas e meio ambiente

Marcelo Silveira de Farias, Ulisses Giacomini Frantz, Letícia Frizzo Ferigolo e Daniel Uhry, da Universidade Federal de Santa Maria/RS

O sistema agrícola empresarial, adotado por parte dos agricultores brasileiros, além de buscar incrementos na produção de alimentos, visa uma diminuição do custo de produção, com o objetivo de aumentar o lucro. Para que parte desse objetivo pudesse ser atendido, surgiu a chamada “tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários”, que se tornou prática indispensável para melhorar a viabilidade econômica do sistema de produção agrícola atual. Segundo Cunha (2008), os defensivos são fundamentais para o sucesso e o incremento da produção alimentar mundial por meio da proteção dos cultivos agrícolas. Visto que a agricultura moderna não pode prescindir desses produtos, vem crescendo a preocupação com respeito à contaminação do meio ambiente e dos animais, quando se trabalha com produtos potencialmente poluentes.

Os defensivos são classificados de acordo com sua finalidade de uso, que é definida pela ação do ingrediente ativo sobre o alvo biológico. As três principais classes, que representam aproximadamente 95% do consumo mundial dos agrotóxicos, são herbicidas, inseticidas e fungicidas (Agrow, 2007). Compreende- se que a tecnologia de aplicação preocupa-se principalmente em aumentar a eficiência das aplicações, evitar perdas e desperdícios de defensivos agrícolas (deriva, sobreposições, etc.) e diminuir a contaminação do meio ambiente, provocadas por uso e manuseio inadequado destes produtos e máquinas. A dispersão aleatória dos defensivos, isto é, a deriva das pulverizações por meio de aplicações inadequadas, é um dos aspectos negativos do uso desses produtos na agricultura. Essa deriva pode produzir efeitos maléficos não apenas ao aplicador, como também para outras culturas sensíveis, animais, pessoas, mananciais de água, etc.

Condições climáticas — Uma boa qualidade de aplicação depende diretamente das condições climáticas do local, pois podem afetá-la de diferentes formas. Essas condições são velocidade do vento, temperatura, umidade relativa do ar, entre outros, que podem potencializar ou diminuir o efeito da deriva. A temperatura e a umidade podem influenciar na evaporação rápida das gotas, ou seja, a volatilização do diluente e do produto. Ao passo que, também, uma umidade do ar relativamente alta aliada a volumes de aplicação elevados e gotas grandes pode fazer com que se tenham perdas por escorrimento.

A tensão de vapor da água, que é o principal diluente na aplicação de defensivos, é relativamente alta e, por isso, sua evaporação é rápida. Como os tamanhos de gota utilizados em aplicações são pequenos (em função do alvo), as condições ambientais (temperatura e umidade) podem fazer com que muitas das gotas evaporem-se no deslocamento do bico até o alvo. Determinados produtos a serem aplicados também possuem características na sua formulação que estão mais sujeitos à evaporação, sendo que, nesse caso, a aplicação deve ser mais criteriosa.

As correntes de ar, lateral (vento) e vertical (convecção), também afetam a deriva, pois provocam o deslocamento do produto para fora do alvo desejado. Esse deslocamento é influenciado pelas gotas que ficam em suspensão ou pelas gotas que evaporaram e deixam seu ingrediente ativo no ar, podendo ser carregados a distâncias consideráveis, atingindo outros locais que não são alvos da aplicação, como é o caso de outras culturas em um talhão adjacente, por exemplo, ou lavouras vizinhas. Devido a isso, há necessidade de serem respeitadas determinadas condições climáticas ditas como ideais.

O tamanho das gotas tem muita importância na ocorrência da deriva, pois há uma tendência de ocorrer um aumento da deriva quanto menor forem as gotas utilizadas na pulverização. O tamanho das gotas produzidas pela ponta de pulverização depende do tipo da ponta, da vazão, da pressão de trabalho, do ângulo do jato e também das propriedades da solução a ser pulverizada. Não esquecendo, é claro, que cada tipo de defensivo a ser aplicado possui um tamanho de gotas recomendado. As gotas que possuem tamanhos menores que 100 µm (micrômetro), segundo a Associação Nacional de Defesa Vegetal, a Andef (2010), são facilmente carregadas pelo vento e se evaporam facilmente, aumentando o potencial de deriva conforme as gotas tornam-se menores que 100 µm (para aplicações terrestres), e decresce na medida em que as gotas tornam-se maiores. Ainda, gotas menores que 50 µm permanecem suspensas no ar até completa evaporação.

A ponta de pulverização é responsável pela quebra da solução a ser pulverizada, em partículas ou gotas menores, e é ela aliada à pressão do sistema que irá definir o espectro de gotas a ser pulverizado. Cada tipo de ponta proporciona diferentes ângulos de aplicação, vazões e tamanhos de gotas. O tamanho das gotas e a vazão podem ser obtidos diretamente nos catálogos dos fabricantes, porém, cada tipo de produto aplicado (herbicida, fungicida e inseticida) necessita de determinado tamanho e quantidade de gotas para poderem atingir o alvo.

Pressão de trabalho — A pressão de trabalho, que pode ser regulada por meio de uma válvula no pulverizador, faz com que se tenha uma maior velocidade de saída do líquido na ponta de pulverização, e com isso aumenta-se a vazão e modifica-se o tamanho das gotas. Por exemplo, uma mesma ponta de pulverização 11002 operando a 1 bar de pressão proporciona uma vazão de 0,46 litro/minuto e gotas médias, já a uma pressão de 1,5 bar proporciona uma vazão de 0,56 l/min e gotas finas. Para que se possa regular a pressão de trabalho do pulverizador, é necessário que se faça presente o manômetro do pulverizador em boas condições e com o nível de glicerina (quando o mesmo utilizar) adequado.

Cuidados e estratégias — Uma correta tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários visa colocar a quantidade certa de ingrediente ativo no alvo, com a máxima eficiência e de maneira mais econômica possível, minimizando impactos ao ambiente (Matthews, 2002). As pontas de pulverização são consideradas os principais componentes da pulverização hidráulica, pois promovem características que garantem melhor segurança e efetividade no controle de pragas, doenças e plantas daninhas. O sucesso na aplicação ocorre quando se dispõe de pontas de pulverização que propiciem distribuição transversal uniforme, espectro de gotas semelhante e de tamanho adequado (Cunha, 2003).

As condições climáticas atuantes no momento da aplicação são fatores determinantes para a realização da mesma. Em alguns casos, pode até determinar na escolha de diferentes pressões de trabalho, e volumes de calda, adequadas para a aplicação. Segundo a Andef (2010), são condições climáticas ideais para aplicação: temperatura abaixo de 30ºC, umidade relativa do ar acima de 55% e velocidade do vento entre 3 e 10 km/h. Estas condições mais favoráveis geralmente ocorrem no início da manhã, início da noite e durante a noite (alguns produtos, devido ao seu princípio ativo e modo de ação, não devem ser aplicados à noite e nem sob condições de orvalho). Já durante a tarde, geralmente, ocorrem as condições menos favoráveis, como alta temperatura, baixa umidade relativa do ar e velocidade do vento acima de 10 km/h.

Em condições climáticas ótimas, gotas de pequeno diâmetro proporcionam maior densidade de gotas depositadas sobre o alvo. Contudo, aumentase o risco de contaminação ambiental por deriva em condições adversas, como temperatura elevada, baixa umidade relativa do ar e alta velocidade do vento (Cross et al., 2001). A utilização de gotas com maior diâmetro diminui o risco de deriva, porém, devido ao seu peso, elas podem não aderir às superfícies das folhas e serem depositadas no solo (Teixeira, 1997).

Uso de aditivos — Aditivo é uma substância ou produto que é adicionado aos produtos fitossanitários, componentes e afins, para melhorar sua ação, função, durabilidade, estabilidade e detecção ou para facilitar o processo de produção (Antuniassi e Boller, 2011). Segundo Araújo (2004), produtos químicos que aumentam a densidade da calda podem ser benéficos à redução da deriva, por aumentarem o peso das gotas, bem como aqueles que aumentam a tensão superficial do líquido, aumentando o diâmetro das gotas.

Já os produtos que diminuam a tensão superficial das gotas e/ou a viscosidade, ou ainda a densidade da calda, podem ser prejudiciais ao controle da deriva, por proporcionarem a formação de gotas pequenas ou leves. Produtos que reduzam a evaporação, mas que não aumentem o diâmetro das gotas (como óleo mineral ou vegetal) são bons para reduzir as perdas por evaporação, mas não para o controle da deriva. Tais produtos podem proteger as gotas muito pequenas da evaporação, mas permitem que as mesmas se desloquem a grandes distâncias.

Pulverização com assistência de ar — Para a aplicação dos produtos fitossanitários em culturas altas e com densidade foliar alta, as barras de pulverização dotadas de assistência de ar surgiram como uma ótima ferramenta para melhorar a qualidade da aplicação (gotas menores, em maior número), aumentar a produtividade (menores volumes de calda e reabastecimento, maior velocidade de deslocamento e extensão dos horários de pulverização), reduzir a deriva (velocidade do vento da máquina é maior que o vento ambiente) e exposição a esses produtos (Sartori, 1997). Esse sistema gera uma cortina protetora de ar com a função de conduzir as gotas para o interior do dossel vegetativo, ao mesmo tempo em que as protege da ação do vento. Assim, mesmo com velocidades de vento acima daquelas consideradas ideais para a pulverização, o trabalho pode ser executado normalmente, com boa uniformidade.

Outra tecnologia desenvolvida com o objetivo de reduzir a deriva durante a aplicação são as pontas com Indução de Ar Venturi. Estas são ideais para a redução da deriva (em aplicações onde são aplicadas gotas grossas), ao mesmo tempo em que mantêm boa cobertura. Isto ocorre porque estes bicos possuem um sistema de dois orifícios, um para a vazão do líquido e outro, maior, que forma o padrão de pulverização. Entre estes dois orifícios existe um sistema chamado Venturi, o qual aspira o ar para dentro do corpo do bico, onde se mistura com a calda, criando uma pulverização com água aerada em baixa pressão, formando-se, assim, gotas grandes com ar e poucas gotas pequenas suscetíveis à deriva. O conhecimento das condições adequadas de trabalho e, principalmente, do desempenho das pontas de pulverização existentes no mercado são os elementos básicos para uma aplicação correta e segura de agrotóxicos.