Expodireto

 

A feira que causou ESPANTO

A 14ª edição da Expodireto Cotrijal surpreendeu ao movimentar R$ 2,5 bilhões em negócios, mais que o dobro do evento anterior, reflexo de um ano histórico para a agricultura gaúcha

Leandro Mariani Mittmann
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No ano que o Rio Grande do Sul colherá a sua safra mais valiosa – a segunda em volume de produção –, a 14ª edição da Expodireto Cotrijal, feira realizada em Não-Me-Toque, no início do mês passado, surpreendeu ao mais otimista: o volume de negócios atingiu R$ 2,521 bilhões, crescimento de 128% ante a edição anterior – de R$ 1,106 bilhão. Foram 223 mil visitantes, contra 185 mil em 2012. Durante o evento, a Emater gaúcha anunciou que o Valor Bruto de Produção do estado (renda bruta do produtor) deste ano está estimado em 20,7 bilhões, ante 16,7 bilhões em 2011, então ano da maior safra que os gaúchos já colheram: 26,5 milhões de toneladas. Em 2013, se as previsões se consolidarem, serão colhidas 25 milhões de toneladas.

Nei César Mânica, presidente da feira e da Cotrijal, cooperativa que promove o evento, revela que mesmo diante do bom momento da agricultura não esperava que os 481 expositores concretizassem resultado tão expressivo. “Trinta a quarenta por cento de aumento era minha estimativa”, ressalta. Por meio de instituições bancárias os expositores negociaram R$ 1,744 bilhão, enquanto os bancos de fábrica fecharam R$ 430 milhões – 205% a mais do que no ano passado. Já as aquisições por intermédio de recursos próprios foram R$ 108,738 milhões. Mais do que realização de negócios, a feira possui tradição pelos debates políticos. E esta edição teve, pela primeira vez, a presença de dois ministros de Estado: os gaúchos Mendes Ribeiro Filho, então à frente da pasta de Agricultura, e Pepe Vargas, do Desenvolvimento Agrário.

A feira que apresenta as tecnologias-tops em insumos e máquinas também aborda temas igualmente de extrema relevância para o setor. A sucessão na agricultura familiar foi o mote de toda a exposição da Emater gaúcha, abordagem dividida em 11 temas, como agroindústria, floresta comercial, turismo rural. O assunto merece atenção, visto que no Rio Grande do Sul uma em cada três propriedades agrícolas familiares não tem sucessor. Para evitar este prejuízo – ou ao menos abrandá-lo –, a Emater se preocupou em apresentar alternativas de agregação de renda, assim como maneiras de o trabalho na propriedade tornar-se menos sofrido, para que, assim, o jovem fique estimulado a continuar no campo. “A tecnologia tem que chegar à agricultura familiar para que o jovem, o filho, tenha o acesso a esta tecnologia e reduza a penosidade”, justificou o técnico agrícola e administrador rural Geraldo Kasper, da Emater. Entre os temas abordados, um teatro mostrou os contrastes de uma propriedade preparada em conjunto por pais e filhos para a sucessão e outra que não está.

Já na parcela da agroindústria foram expostas ao visitante as vantagens da agregação de renda, para que o agricultor seja “não só um produtor de alimentos, mas um transformador de alimentos”, segundo definição de Kasper. “O produtor planta, transfere e leva (o produto) diretamente ao consumidor”, descreve. Segundo ele, um levantamento apontou que, no Rio Grande do Sul, em 80% das propriedades que têm agroindústria, o jovem não abandona a casa. A agroindústria agrega renda, cria novas oportunidades e permite até que o filho faça um curso superior – por exemplo, em Administração de Empresas – e retorne para a propriedade para empreender o negócio. “O produtor não é só um mero produtor de matériaprima”, resume. “Passa a ter conhecimento da cadeia. Transformar o produtor é agregar valor, criar oportunidades.”

Empresas aproveitam vitrines como uma feira deste porte para anunciar seus lançamentos. Inclusive as instituições públicas de pesquisa, como a Embrapa. A unidade de pesquisa Trigo anunciou em Não-Me-Toque a nova variedade de trigo BRS Parrudo, resultado de 20 anos de melhoramento do cereal para chegar a uma planta capaz de associar porte baixo, com sanidade, produtividade e qualidade. Segundo o pesquisador Pedro Scheeren, a BRS Parrudo é uma cultivar de trigo melhorador com tipo agronômico diferenciado. “Uma nova proposta de tipo de planta, com resistência ao acamamento, excelente potencial produtivo, ciclo precoce, estatura baixa, vigoroso sistema radicular e sanidade de folha e espiga. A união de suas características permite a utilização de alta tecnologia no seu cultivo, associando qualidade a rendimento de grãos”, avalia Scheeren.

Trigo rastreado — Uma ferramenta apresentada pela instituição em Não-Me- Toque foi sistema de rastreabilidade digital para o trigo. Por meio deste, os lotes do cereal podem ser segregados de acordo com a cultivar, a classe comercial, umidade, glúten e presença de micotoxinas, entre outras características de qualidade e de aptidão tecnológica do grão. “Os principais ganhos para os agentes da cadeia produtiva são maior valor agregado, liquidez na comercialização, produção de alimentos seguros e com qualidade, organização, exatidão e velocidade de acesso de informações, segregação de produtos com características diferenciadas, promoção da confiança de consumidores, atendimento a requisitos de programas de controle de qualidade e de legislação e certificação de produtos”, explica a pesquisadora Casiane Tibola, que desenvolveu o sistema em parceria com a Universidade de Passo Fundo.

O sistema de rastreabilidade digital é adequado para disponibilizar soluções para empresas com diferentes níveis tecnológicos, baseando-se no conceito utilização de um servidor centralizado, o navegador, que executa a aplicação da mesma forma, independente do sistema operacional utilizado pelos usuários. Portanto, as informações podem ser facilmente consultadas sem qualquer instalação de software. “Se o trigo foi produzido em uma região onde as condições climáticas não favoreceram o desenvolvimento de giberela, o risco da ocorrência de micotoxinas é baixo, não demandando a análise para a comprovação em todas as cargas”, exemplifica a pesquisadora uma das possibilidades que a rastreabilidade propicia. A operacionalização do sistema é realizada pela internet, por meio do site www.e-rastrear.com.br, com cadastro de usuário e senha.

Mais informações sobre a Expodireto Cotrijal nas seções Gente em Ação e Novidades no Mercado.