Trigo

 

O cereal vai VALER á pena?

A definição da tendência mundial dos preços do trigo, com relação direta nas cotações domésticas, dependerá do rendimento das lavouras americanas, do plantio na Argentina e do uso do cereal na alimentação animal e na produção de biocombustível

Claudia De Mori, pesquisadora de socioeconomia da Embrapa Trigo

Na safra 2012/2013, a área colhida de trigo no mundo foi estimada em 215,8 milhões de hectares, 2,67% menor que na safra anterior. A redução de área em países como a Argentina (-28,4% em relação à safra 2011/2012), a Rússia (-14,2%), a Ucrânia (-15,43%) e o Brasil (-12,4%) e os baixos rendimentos decorrentes de problemas climáticos ocorridos em países como a Austrália (rendimentos médios de 1.654 kg/ha, redução de 26,5%), o Cazaquistão (794 kg/ha, -56,7% na produção) e a Rússia (1.770 kg/ha, -32,9% na produção) resultaram em decréscimo da produção esperada para a safra. Com rendimento médio de 3.028 kg/ha, a produção mundial alcançou 653,61 milhões de toneladas, quantidade 6,18% menor que a atingida na safra 2011/2012, a maior safra mundial (696,64 milhões de toneladas). A China (120,6 milhões), a Índia (93,9 milhões) e os Estados Unidos (61,8 milhões) foram os maiores produtores, com 42,3% da produção.

O consumo total estimado para a safra 2012/2013, de 681,01 milhões de toneladas, 80,46% referentes ao consumo humano e industrial e reserva de sementes, foi 1,19% menor que o consumo em 2011/2012, principalmente pela redução do consumo para alimentação animal (- 9,5%), já que houve aumento de 1,07% na quantidade destinada ao consumo humano, industrial e sementes. A Rússia registrou o menor consumo observado na série histórica e a União Europeia, o menor consumo desde 2007/2008. Chamam atenção os aumentos de consumo na Índia (4,9%), impulsionado pelo aumento do consumo humano que passou de 78,3 milhões para 81,8 milhões; e nos Estados Unidos (18,5%), pela ampliação do uso do cereal na alimentação animal – de 4,46 milhões de toneladas para 10,2 milhões de toneladas (128,6% de aumento).

O consumo mundial tem apresentado crescimento de 2,1% ao ano, enquanto a produção cresce 1,54%. A média anual de produção é de 674,5 milhões de toneladas, para um consumo de 662,4 milhões, no período de 2008 a 2012. As boas produções alcançadas nas safras anteriores e um crescimento menor do consumo pela crise econômica ampliaram a relação estoque/consumo no período recente, que chegou a 20,9% na safra 2007/2008, a menor de 1960 a 2012, exercendo pressão negativa sobre os preços em 2011 e início de 2012. No entanto, a retração na produção mundial afeta diretamente os estoques, que na safra 2012/2013 são estimados em 176,7 milhões, 10% menos que na safra anterior. Com consumo (681 milhões de toneladas) maior que a produção (653,6 milhões), a relação estoque/ consumo de 26% foi menor que a observada nos anos de 2009, 2010 e 2011 e similar a de 2008 e, juntamente ao aumento de preços de milho e soja e restrições de exportações em alguns países, impulsionou os preços no final de 2012.

O Rio Grande do Sul teve na safra 2012/13 o maior registro de área plantada, de 976,2 mil hectares, o único estado com aumento de área em relação ao ano anterior. No entanto, os temporais e geadas ocorridos durante o ciclo de cultivo prejudicaram os rendimentos esperados e o estado totalizou uma quantidade de 1,81 milhão de toneladas, 33,8% menor que a sua produção no ano anterior. O Paraná, embora com uma redução de 25,8% de área, obteve bons rendimentos (2.730 kg/ha) e atingiu a produção de 2,112,5 milhões de toneladas. Semelhante ao Rio Grande do Sul, Santa Catarina também apresentou quebra de, aproximadamente, 30% do rendimento esperado devido a problemas climáticos, com produção de 141,6 mil toneladas. Nos dois estados, a qualidade do produto obtido foi abaixo do esperado.

Todos os estados apresentaram reduções de produção em relação à safra de 2011/2012 e o país totalizou, na safra 2012/13, uma área colhida de 1,895 milhão de hectares (- 12,9%), com produção de 4,3 milhões de toneladas (-25,7%), aumentando a necessidade de importação para 7 milhões de toneladas (+16,5%) para suprir um consumo esperado de 10,462 milhões (+0,2%). O estoque de passagem voltou a cair, estimado em 1,058 milhão (-13,1%), resultando em uma relação de estoque consumo da ordem de 10,1%, próxima ao observado na safra 2007/2008.

Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (2013), de janeiro a dezembro de 2012, foram importados 6,58 milhões de toneladas de grão (aumento de 14,63% ante 2011) e 0,63 milhão de toneladas de farinha (redução de 9,25%) e o valor gasto foi de US$ 2 bilhões FOB, que corresponde a 0,89% do total de importações do país em 2012 e 12,22% do total de importações do agronegócio. A Argentina foi responsável por 76,9% do trigo grão e por 92,6% da farinha de trigo importados.

Preços — Os preços internos têm forte influência das cotações do mercado internacional, seguindo um padrão de evolução de comportamento semelhante, com algumas exceções pontuais, principalmente em decorrência de problemas de frustração de safra. Em 2012 a redução da produção mundial e a queda de rendimento e de qualidade do trigo no Rio Grande do Sul resultaram em pressão positiva sobre os preços no final do ano, alcançando patamares de mais de R$ 700/tonelada.

No entanto, o cenário favorável de recuperação da oferta global, com ampliação da área semeada em países da União Europeia (+2%) e na Rússia, na Ucrânia, no Cazaquistão e no Canadá (+11,6%) e melhora da relação estoque final/consumo, a queda das cotações internacionais e o agendamento de leilões para final de março resultaram em pressão negativa sobre os preços que apresentaram reduções de 6,4% (PR) e 10,8% (RS) em relação às maiores cotações observadas nesse início de ano. No entanto, as cotações de mercado futuro americanas apresentaram leve alta no começo de março, apoiadas pela demanda forrageira/ bioenergia para o cereal, a maior demanda de exportações americanas e a sinalização altista do mercado de milho que apresenta baixa relação estoque/consumo.

A primeira estimativa da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) para a produção mundial de trigo em 2013 é de 690 milhões de toneladas (28 milhões acima da safra 2012 e a segunda maior safra).

O aumento é esperado, principalmente, na Europa, impulsionado por uma expansão na área em resposta a preços elevados no primeiro semestre de 2012 e à recuperação de rendimentos em alguns países, como Rússia, Ucrânia e Cazaquistão, que tiveram seus rendimentos abaixo da média no ano passado. Já nos EUA, embora as condições climáticas tenham melhorado após um cenário desfavorável no começo do ano, espera- se redução de rendimento e estimativa de 58 milhões de toneladas (-6,1% menor que 2012). O Canadá terá um aumento de 2,9% na produção, estimada em 28 milhões de toneladas.

Incertezas — No Hemisfério Sul, onde os plantios iniciam a partir de março/abril, as perspectivas são incertas. Na Austrália, ondas de calor do verão em algumas áreas importantes de produção reduziram a umidade do solo, condição que pode afetar a área semeada. Na Argentina, algumas fontes apontam para um crescimento de 20% de área em relação ao ano anterior (aproximadamente 4,4 milhões de hectares, próximo à área de 2011), impulsionada pelas cotações FOB Arg para entrega em dezembro de 2013 de US$ 270/t FOB (92,8% superior à cotação de US$ 140t/FOB registrada em 22/03/2012 para entregas em dezembro de 2012).

No Hemisfério Sul, onde os plantios iniciam a partir de março/abril, as perspectivas são incertas

A definição da tendência mundial da curva dos preços dependerá do seguinte: rendimentos obtidos nos Estados Unidos; expectativas de plantio na Argentina; o aquecimento do uso de trigo na alimentação animal (impulsionado pelo balanço oferta e demanda do milho) e na produção de biocombustível. Neste último ponto, há tendência da Europa destinar trigo para produção de biocombustível em decorrência da perda de mercados de exportação para outros países, e vislumbra-se que tal demanda absorveria a expansão da oferta inicialmente projetada para este ano.

Internamente, destaca-se que a relação estoque/consumo é de 7,7%, similar a observada no início dos anos 2000 e abaixo ao registrado na safra 2007/08 (9,2%), ocasião da crise mundial de alimentos, o que poderia neutralizar efeitos de queda dos preços internacional. Na semana de 18 a 22 de março, segundo as cotações do Departamento de Economia Rural (Deral), do Governo do Paraná, o preço médio no estado foi de R$ 39,77/saca de 60 quilos (2% superior em relação de janeiro, de R$ 38,99, e 0,2% menor que os preços praticado em fevereiro, R$ 39,84) e, no Rio Grande do Sul, segundo dados da Emater/RS, foi de R$ R$ 31,04 (5,37% inferior em relação ao preço médio de janeiro, R$ 32,92, e 2,9% menor que a cotação média de fevereiro, R$ 31,97.

No Paraná, a primeira estimativa de área de semeadura emitida pelo Deral, em fevereiro, é de 825 mil hectares, crescimento de 6% em relação a 2012, com a retomada de plantios nas regiões oeste, centrooeste, sudeste e sul e manutenção de área na região norte e noroeste. É importante lembrar que, além dos fatores tradicionais, como produção, consumo, estoques e comércio internacional, que exercem influência na formação de preços, os aspectos relacionados à inocuidade e à qualidade tecnológica do cereal também condicionam a definição de preço do produto e devem ser considerados, assim como a implementação de formas de interação comercial com os elos industriais com especificação de produto-fim.

No mais, o trigo é uma cultura importante na composição de sistemas de produção agrícola sustentáveis, indispensável para sucessão e rotação em sistemas de produção de grãos, hortaliças e fibras, auxiliando na manutenção da capacidade produtiva do solo e contribuindo no manejo integrado de pragas, doenças e invasoras.