Ensino

 

Cursos agrícolas: reforma CURRICULAR urgente

Para o Brasil realmente assumir o papel de protagonista na produção de alimentos como o mundo deseja, precisa formar profissionais bem mais qualificados

Engenheiro agrônomo José Annes Marinho, gerente de
Educação da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef)

Espera-se que o Brasil seja responsável por 40% do aumento da produção global de alimentos, além de ampliar a geração de agroenergia, mas para isso precisa melhorar o seu ensino agrícola

O Brasil passa por um momento histórico. Em 2013 certamente baterá novo recorde na produção agrícola, chegando a aproximadamente 183 milhões de toneladas, talvez até mais. Os preços das commodities continuam firmes, a rentabilidade na agricultura vem melhorando cada vez mais, produtores capitalizados, adquirindo novos insumos, novas máquinas, até comprando e pagando antecipadamente. Tudo isso fruto de um processo que se iniciou há 40 anos, quando pioneiros decidiram implantar técnicas audaciosas no Cerrado e acreditaram que podia dar certo.

No Brasil existem cerca de 5 milhões de propriedades rurais e cerca de 25 milhões de produtores. O agro é responsável por mais de 25% do PIB do Brasil e de mais de 30% dos empregos e das exportações. É o setor responsável pela balança comercial positiva do país. É mais barato criar empregos na agricultura do que nos demais setores da economia. O Brasil apresenta vantagem competitiva em relação aos outros países no agro. Há terras agricultáveis de boa qualidade, clima favorável e a maior reserva de água doce do mundo. Existe tecnologia agrícola tropical de qualidade, produzida em universidades e institutos de pesquisa. Os produtores agrícolas são tecnificados e competentes para incorporar novas tecnologias.

O Brasil é visto pelos organismos internacionais (FAO e OCDE) como o celeiro do mundo, a “grande fazenda”. Estima-se que, até 2050, o mundo vai necessitar de 70% a mais de alimentos. E o Brasil deve ser o responsável por 40% deste aumento na produção mundial. A agroenergia (etanol, biodiesel e biomassa) vai ocupar, cada vez mais, maior espaço na matriz energética mundial. O país pode aumentar muito as florestas plantadas. Tudo isto sem necessitar desmatar novas áreas. É um grande desafio e uma grande oportunidade. Até mesmo a Embrapa, em uma visão de longo prazo, investiu no seu corpo técnico enviando mais de 2 mil profissionais para fora do Brasil para preparar-se para o futuro. Deu certo? Sem dúvida! A Embrapa é referência mundial em tecnologia e, para os brasileiros, motivo de orgulho. Pois bem, onde quero chegar com isso?

O engenheiro agrônomo demandado tem que apresentar sólida formação, incluindo aspectos ambientais e sociais, capacidade de gestão e de comunicação e domínio de idiomas e de informática

Recentemente analisei a demanda crescente por profissionais para atender a agricultura brasileira e fiquei preocupado! Para assumirmos este papel de protagonistas, precisamos formar profissionais cada vez mais qualificados. O engenheiro agrônomo demandado tem que apresentar sólida formação básica e profissional, incluindo aspectos ambientais e sociais. Deve apresentar características pessoais exigidas pela sociedade (ética, liderança e capacidade de trabalhar em equipe), domínio de idiomas e informática, capacidade de gestão e de comunicação. Há necessidade de que as escolas tenham qualidade e formem profissionais competentes. É necessário que atendam todas as áreas de conhecimentos e conteúdos necessários para a formação apropriada.

Atualmente, são cerca de 230 instituições de ensino de Engenharia Agronômica no Brasil. Em 2010 foram oferecidas mais de 17 mil vagas e havia mais de 50 mil estudantes matriculados. Ainda em 2010 ingressaram nas escolas de Agronomia mais de 14 mil novos estudantes e formaram- se quase 6.800 engenheiros agrônomos. E tudo isso demanda um currículo robusto e forte. As escolas de Agronomia precisam de uma mudança urgente, sob pena de não podermos atender adequadamente a necessidade eminente de técnicos preparados para os desafios que a nova revolução verde irá demandar. Para se ter uma ideia do que estou falando, hoje as necessidades estão divididas da seguinte forma: 10% do PIB do agro está antes da porteira, 25% dentro da porteira e 65% depois da porteira.

Isso quer dizer o quê? Nosso desafio será ainda maior com assuntos que, no passado, não tinham importância na grade curricular. Por exemplo: mercado, marketing, vendas, transferência de tecnologia, entre outros. O outro desafio se refere dentro da porteira (25% do PIB). Muitos de nossos colegas não têm o mínimo de preparo em tecnologia de aplicação, toxicologia, gestão e tomada de decisão. Como podemos formá-los desta forma? Como podemos prepará-los para os desafios crescentes da agricultura? Essas são perguntas que precisamos analisar e trabalhar juntos para resolver no curto prazo, ou seja, imediatamente.

Despreparo de recém-formados — Em um passado recente havia cargas horárias robustas, onde praticamente todas as “cadeiras” – como chamavam vulgarmente as disciplinas – eram obrigatórias. Hoje, em alguns cursos há mais disciplinas optativas do que disciplinas obrigatórias e, certamente, este processo contribui para formação de profissionais com baixa experiência e conhecimento. O motivo da preocupação é, sem dúvida, o despreparo que muitos dos jovens, recém-formados, que pouco viram de alguns assuntos, dos quais irão trabalhar em seu dia a dia. A recomendação de fertilizantes, controle químico, modos de ação de produtos, toxicologia, proteção, legislação ambiental e trabalhista, todos estes aspectos, em tese, estão sendo esquecidos pelo modelo recomendado pelas lideranças que formatam a grade curricular dos cursos de Ciências Agrárias. O fato é que a demanda por profissionais preparados é urgente, o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o Instituições de Ensino Superior (IES), as universidades, precisam unir esforços para direcionar e complementar disciplinas que serão usuais aos profissionais de ciências agrárias.

A resolução 1010/05 do Confea, que determina as diretrizes curriculares necessita ser melhorada. A inclusão ou exclusão de assuntos importantes ou sem importância precisa ser implantada urgente. Este organismo tem papel fundamental neste segmento, e isso não pode esperar mais. Vejam alguns exemplos de como deveria ser a grade curricular em fitopatologia. Seria fundamental falar sobre importância das doenças de plantas, principais agentes fitopatogênicos (fungos, bactérias, vírus, nematoides, fitoplasmas e protozoários), diagnose de doença de planta (infecciosas e não infecciosas), quantificação de doenças de planta, classificação de doenças de plantas – grupos de doenças e principais doenças das plantas cultivadas. No entanto, estes assuntos não são abordados em grande parte dos cursos.

Outro exemplo da falta de univocidade e inclusão de assuntos recorrentes é que os alunos aprendem fora das universidades sobre manejo integrado de pragas, conceitos e monitoramento de pragas. Já em fitossanidade, os assuntos que são vagamente abordados, mas não estão contemplados na grade curricular, são toxicologia dos defensivos agrícolas, desenvolvimento e registro de defensivos, formulações de defensivos e uso seguro de defensivos.

Annes: recomendações sobre fertilizantes, químicos, modos de ação de produtos, toxicologia, proteção, legislação ambiental e trabalhista estão sendo esquecidas por quem formata a grade curricular dos cursos de Ciências Agrárias

Com estes exemplos, podemos identificar alguns problemas oriundos e recentes que muitas vezes se refletem no campo, como o uso incorreto de defensivos, falta de implantação do manejo integrado, resistência de plantas e insetos, regulagem e calibragem de pulverizados, desperdício de produtos, baixa análise de solos, entre outros problemas. Já havia dito em outros artigos: a educação muda tudo. Uma mudança urgente precisa ser feita. A nova revolução verde está batendo em nossa porta. Jovens e profissionais preparados serão necessários para atender a demanda que, sem dúvida, será uma das mais concorridas e rentáveis do futuro. O desafio é enorme, não vivemos sem alimentos, em pouco tempo teremos de equilibrar o ambiente a vida social, pois seremos 9 bilhões em um planeta que teria capacidade para 3 bilhões. O desafio está lançado! Precisamos de energia e senso de urgência na resolução deste problema. Mãos à obra! A agricultura e o meio ambiente agradecem.