Glauber em Campo

 

O QUE NOS IMPEDE DE PRODUZIR MAIS?

GLAUBER SILVEIRA

Começamos esta safra em julho de 2012 com a grande possibilidade de nos tornarmos os maiores produtores de soja do planeta. Afinal, a quebra da safra dos Estados Unidos antecipava chegar ao posto que, sem dúvida, deve ser nosso um dia. O Brasil tem tudo para ser o número 1. Temos clima propício, água e áreas para expansão, quesitos não tão fartos mundo afora. Mas parece que comemoramos de forma antecipada, já que nossa safra está complicada e a previsão vem sendo corrigida para baixo.

O mundo está com seus estoques muito baixos, seja de soja ou milho. A produção mundial beira 260 milhões de toneladas de soja e o consumo está bem perto disso. O risco de desabastecimento por uma quebra de safra é muito grande.

Temos, assim, uma grande oportunidade que já poderia ter sido aproveitada nesta safra. Dados de especialistas apontam mais de 30 milhões de hectares de pastagens com excelente aptidão para a produção de grãos. Mas o que nos impede de aproveitar esse potencial? Por que não produziremos, nesta safra, 90 milhões de toneladas?

Diversos são os fatores de nossa ineficiência. Dentro da porteira, há problemas que impedem a elevação da produtividade da nossa soja. Em 1992, tínhamos produtividade média de 2.150 quilos por hectare. Em dez anos, saltamos 23,5%, para 2.816 kg/ ha. Agora, outra década depois, crescemos apenas 5%, para 3 mil kg/ha.

Fatores como doenças e pragas têm causado enormes prejuízos ao país. Nematoides e a ferrugem da soja tiram a renda de muitos produtores. E temos investido pouco em pesquisa. A maior parte dos recursos da Embrapa é usada para bancar sua folha de pagamentos. A ferrugem da soja, doença que já levou bilhões dos produtores, está a cada ano mais agressiva. Os fungicidas registrados no Brasil já não têm eficiência nenhuma e novos produtos estão há anos esperando aprovação.

Estudo feito pela Aprosoja em 2006 constatou que gastávamos 42,38% mais com agroquímicos que os vizinhos argentinos – na época, um adicional de US$ 29 por hectare. Isto significava US$ 1 bilhão de custos desnecessários. Outro estudo recente, ainda preliminar, aponta que a diferença cresceu. A causa é a mesma: morosidade nos registros e seu alto custo. Na Argentina se gasta US$ 15 mil nesse processo. Aqui, US$ 1 milhão. Lá, um genérico é registrado em oito meses. No Brasil, leva cinco a sete anos. Os argentinos registram um novo produto em 12 a 18 meses. Nós esperamos três anos. É estranho porque aqui um genérico demora tanto a ser registrado.

Outro entrave secular é a logística. Temos o modal de transporte mais desfavorável do mundo. No Brasil, a soja anda em média 1.100 km para chegar ao porto, Na Argentina, são 300 km. Nos EUA, 1.000 km. A diferença está no custo: a média dos vizinhos é de US$ 20 por tonelada, os americanos gastam US$ 23 e nós, incríveis US$ 90. Ou seja, perdemos US$ 4 bilhões com o frete da soja todos os anos!

E tem mais. Enquanto nos EUA o modal de transporte é formado por 60% de hidrovias, 35% de ferrovias e apenas 5% de rodovias, aqui há uma total inversão: apenas 11% são hidrovias, 36% são ferrovias e 53%, rodovias. Para agravar o caso, nosso modelo de concessão ferroviária não gera competitividade, apenas igualando o custo ao frete rodoviário. Além de tudo isso, ainda somos classificados como detentores dos piores portos do mundo.

O Brasil precisa urgentemente aproveitar as oportunidades. Afinal, produção é sinal de riqueza e poder, com melhor qualidade de vida para a população. Os países mais ricos do mundo produzem três vezes mais grãos que nós. EUA e China produzem 500 milhões de toneladas. Aqui, vamos colher, no máximo, 183 milhões. Mas, diferentemente deles, temos como dobrar nossa área de produção apenas com áreas já desmatadas, deixando 60% do território nacional intocado. Mas por que não aproveitar a oportunidade? Ou vamos deixar a África ou a Rússia ocuparem nosso espaço?

Engenheiro agrônomo, produtor e presidente da Aprosoja Brasil