O Segredo de Quem Faz

 

O algodão se ajusta à REALIDADE

Leandro Mariani Mittmann
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Após atingir as maiores cotações de sua história, o algodão amargou recuo nos preços e a área brasileira destinada à pluma também encolheu. E os “concorrentes” soja e milho vivem dias de glória e são prioridade na hora de definir o que plantar. Só Mato Grosso viu sua área da herbácea ser reduzida em 35%. Nada mais natural, são tempos de ajustes, garante o cotonicultor Gilson Pinesso, 52 anos, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Nascido em Engenheiro Beltrão, norte do Paraná, mudou-se para Campo Verde/MT em 1982, de onde começou a desenvolver uma longa história ligada à pluma e ao agronegócio. Mais recentemente, em 2008, foi presidente da Associação Mato-Grossense de Produtores de Algodão e, desde 2012, lidera a entidade nacional. Entre as bandeiras atuais, o reajuste do preço mínimo da cultura, congelado há uma década.

A Granja — Qual é a realidade atual da cotonicultura brasileira e, sobretudo, do produtor de algodão na safra 2012/2013, que está sendo colhida? Com a área e a produção encolhendo, tanto no Brasil como no mundo, a tendência é que as cotações melhorem?

Gilson Pinesso — Vivemos, hoje, um momento de ajustes. O mercado mundial da pluma é volátil e muda a todo instante. A redução de área apresentada neste ano é reflexo do mercado internacional do algodão, principalmente do comportamento da China, principal comprador e produtor de algodão. Com altos estoques, os chineses comprarão, nesta safra, cerca de 50% do que compraram nas duas últimas, quando o mercado esteve em alta. Com a baixa demanda chinesa pela fibra, é normal a redução. Mas, além disso, o produtor brasileiro de algodão também é produtor de soja e milho. Essas duas culturas tiveram, nesse ano, uma rentabilidade melhor para o produtor. Assim, ele diminui a área do algodão para plantar mais milho e soja. É um processo normal e natural que acontece sempre. É possível que na próxima safra tenhamos uma melhora no preço do algodão e piora no preço de outra cultura, fazendo com que o algodão volte a ter mais espaço no campo. É um processo de normalidade. Quanto à melhora nas cotações, é sim possível que isso aconteça e já estamos observando este movimento. É a velha lei da oferta e da demanda. Com o produto mais escasso, mais difícil de conseguir, mais alto fica o preço. Apesar disso, o produtor brasileiro que vendeu seu algodão no mercado futuro não vai ter grandes lucros, uma vez que o contrato não foi feito nos preços atuais e o produtor vai cumprir o que foi acordado. Somos reconhecidos mundialmente por honrar os contratos.

A Granja — E já dá para fazer uma projeção segura para a safra 2013/ 2014?

Pinesso — Ainda é cedo. Principalmente num mercado tão volátil como o nosso. A tendência, hoje, ainda é de baixa, principalmente para o Brasil, uma vez que estamos enfrentando uma praga que está prejudicando muito a produção na Bahia, no Piauí e no Maranhão e temos uma defasagem de dez anos no preço mínimo de garantia do Governo, ainda muito abaixo do custo real que temos com a lavoura.

A Granja — Nesta linha, o que o segmento espera/reivindica do Plano Safra 2013/2014, a ser lançado pelo Governo em maio?

Pinesso — A expectativa é a melhor possível. Esperamos que o Plano traga boas novas não só para o algodão, mas para a agricultura como um todo. Para a Abrapa, a grande expectativa é que seja anunciado o reajuste do preço mínimo do algodão, dos atuais R$ 44,60/arroba para R$ 63/arroba.

A Granja — O preço mínimo é, realmente, uma das bandeiras do setor junto ao Governo? Qual é a posição da Abrapa e qual a do Governo, e o que falta para uma definição?

Pinesso — O preço mínimo do algodão não sofre reajuste há dez anos. Somos a única cultura que não teve nenhum aumento de preço nesse período. Por termos vivido um momento muito bom nos últimos anos, acabamos não mexendo nesta questão, passou em branco. Mas, agora, com o atual cenário, é importantíssimo que tenhamos uma adaptação do preço ao custo real da produção. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o custo médio de produção do algodão para a safra 2012/2013 é de R$ 61,29/arroba, enquanto o preço mínimo estipulado pelo governo está em 44,60/ arroba. É uma defasagem muito grande. Entre 2003 e 2013, produtos como arroz, milho, soja e feijão tiveram reajustes variados entre 29% e 79,3%. Quando estas culturas precisaram de reajuste, o Governo agiu. Agora, somos nós quem precisamos e esperamos que o Ministério da Agricultura se sensibilize com a causa, assim como o Ministério da Fazenda.

A Granja — Os problemas de infraestrutura e logística que tanto tiram rentabilidade do produtor de soja e milho, especialmente no Centro- Oeste, também afetam o cotonicultor? De que forma?

Pinesso — Sim, afetam. O transporte da pluma é feito pelas mesmas vias em que se faz o transporte de soja e milho. As condições de nossas estradas são cada vez piores e também não contamos com boa infraestrutura portuária, o que acaba prejudicando alguns embarques. Ainda assim, conseguimos ser o terceiro maior exportador mundial na safra 2011/12, quando batemos o recorde de mais de 1 milhão de toneladas exportadas. Por isso, lutamos tanto para que essas condições sejam melhoradas. Com um transporte mais eficiente e boa logística de distribuição poderíamos, sem dúvidas, chegar ao topo dos maiores produtores, não só de algodão, mas também milho e soja.

A Granja — O Brasil é o terceiro maior exportador de algodão, mas o que está sendo feito – ou deveria ser feito – para ampliar as vendas externas?

Pinesso — A Abrapa tem um programa de marketing do algodão brasileiro muito forte e eficiente. Nós fazemos missões comerciais até os grandes compradores do nosso algodão com a intenção de fortalecer os laços e, principalmente, ouvir do comprador quais as dificuldades deles para que possamos melhorar. Já estivemos na China, Coreia do Sul, Tailândia, Indonésia, Turquia, Vietnã, entre outros países que se destacam entre os maiores compradores do algodão brasileiro. Só como exemplo da eficiência deste trabalho: em 2004 a Coreia do Sul não comprava algodão brasileiro. Hoje, fornecemos 50% do que as fiações coreanas utilizam. Além disso, temos um reconhecimento internacional como produtores que cumprem os contratos, independentemente da situação do mercado. O que foi comprado com antecedência é sempre entregue da mesma forma. Não temos tido problemas com o não cumprimento dos contratos firmados. Isso gera confiança dos compradores. Ainda nessa questão, podemos dizer que melhoramos muito em relação a processos de sustentabilidade, rastreamento e qualidade da nossa produção.

É um processo normal e natural que acontece sempre. É possível que na próxima safra tenhamos uma melhora no preço do algodão e piora no de outra cultura, fazendo com que o algodão volte a ter mais espaço

A Granja — E quais são os atuais programas de sustentabilidade, rastreamento e qualidade empreendidos pela Abrapa e quais são os objetivos destes?

Pinesso — Temos feito muitos avanços nessas três áreas. Para a sustentabilidade temos, hoje, o programa Algodão Brasileiro Responsável, o ABR. Este programa unifica duas outras certificações que tínhamos no país, o Instituto Algodão Social, conhecido como IAS, que atua no Mato Grosso desde 2005, com um trabalho mais voltado para o lado social e trabalhista, e o Programa Socioambiental da Produção de Algodão, o Psoal, que atuava nos demais estados. Unificamos estas duas certificações em uma única, que é o ABR, e temos, a partir desta safra 2012/ 13, um dos programas de certificação mais completos do mundo, reunindo os três pilares: social, ambiental e econômico, para uma produção mais sustentável. Ainda contamos com a parceria da Better Cotton Initiative, uma instituição internacional que faz trabalhos em países como Índia e Paquistão, que está presente em fazendas de todo o país. A ideia agora é que ABR e BCI também sejam unificados. Ou seja, o produtor brasileiro certificado pelo ABR será automaticamente licenciado pela BCI. Na área de rastreamento temos o Sistema Abrapa de Identificação, o SAI. Este sistema já está implantado e funciona muito bem. Temos o controle de todos os fardos produzidos por meio da etiqueta SAI, que é fixada em cada fardinho. Por meio dele é possível identificar a unidade produtora e beneficiadora, saber de onde vem aquele algodão. A cada ano promovemos melhorias no sistema, como agora que lançamos uma versão mobile do programa. Basta baixar o aplicativo, que está disponível tanto para aparelhos com sistema iOS – utilizado pela Apple, em iPhones, iPads, etc. – quanto para os que utilizam o sistema Android – usado nos demais aparelhos com o sistema do Google. Na área da qualidade, desenvolvemos um programa chamado Standard Brasil HVI. Buscamos uma melhoria geral nos laboratórios brasileiros de análise da qualidade do algodão para que tenhamos resultados cada vez mais precisos. O programa ainda vai gerar, até o próximo ano, a criação do Laboratório Central de Referência, que será responsável por fazer o reteste das amostras. É um plus que daremos nos resultados. Isso gera conforto e segurança tanto para o comprador, quanto para o produtor.

A Granja — Os americanos seguem pagando o acordo de entendimento com o Brasil, visto os subsídios que eles canalizam aos seus produtores de algodão? Quais são os valores e qual o destino destes recursos?

Pinesso — O acordo continua valendo. Eles estão prestes a mudar a Farm Bill, que é a lei que define as regras de subsídios deles. A nós, resta aguardar para ver se isso mudará alguma coisa ou não. E a depender do resultado ver quais medidas tomar. Mas isso é uma questão de Governo. O Ministério das Relações Exteriores é quem cuida deste caso e está atento a todas as mudanças, sempre em defesa do produtor brasileiro. Temos certeza que isso será facilmente resolvido por eles e pelo Instituto Brasileiro do Algodão, o IBA, que é o responsável por gerenciar este dinheiro que vem sendo pago e investido em projetos como os que acabei de citar na área da sustentabilidade, qualidade, entre outros.

A Granja — Que novidades o produtor brasileiro deverá desfrutar nas próximas safras em relação a variedades modificadas? O que vem aí?

Pinesso — Desde a sua fundação, a Abrapa tem como princípio apoiar o investimento em biotecnologia para promover maior competitividade para o produtor brasileiro e fortalecer toda a cadeia do algodão no Brasil. Por aqui, o uso de tecnologias para a produção agrícola só foi possível a partir da aprovação da Lei de Biossegurança, em 2005. Apesar do pouco tempo, o país já vem ganhando destaque no setor em relação aos demais países. Em 2011, alcançamos 30,3 milhões de hectares cultivados com culturas geneticamente modificadas, um acréscimo de 4,9 milhões de hectares (19%) em comparação com 2010. Foi o maior aumento entre todos os países. As principais culturas cultivadas continuaram sendo a soja e o milho. O algodão vem em terceiro lugar. O Brasil acelerou as aprovações de eventos geneticamente modificados nos últimos anos. Foram oito em 2010 e seis no final de setembro setembro de 2011, um avanço se compararmos com as 32 aprovações alcançadas desde 2003. Destas, cinco são de soja, 17 de milho, nove de algodão e uma de feijão. Em relação ao algodão, foram registradas 50 novas cultivares, 12 são geneticamente modificadas. Vale ressaltar que, de 2005 a 2010, apenas sete eventos foram liberados para comercialização no Brasil. Assim sendo, fica evidente que nos últimos anos a velocidade na aprovação tem sido muito maior. Entre 2011 e 2012, a CTNBio aprovou cinco novas tecnologias de algodão geneticamente modificado que trazem benefícios como resistência a lagartas, insetos, herbicidas e outros produtos utilizados na lavoura. Entre essas tecnologias estão o algodão TwinLink, MON 88913, GlyTol x TwinLink, GlyTol x LibertyLink (GTxLL) e MON 15985 x MON 88913. Para a nova safra, a área com lavouras transgênicas deve totalizar 36,6 milhões de hectares, com crescimento de 4 milhões de hectares (+12,3%) em comparação ao ano anterior. Para o algodão, a adoção da biotecnologia em 2012/2013 deve representar 50,1% da área total prevista para a safra, o que totaliza 546 mil hectares, um aumento de 16% na comparação com a safra 2011/2012, em que o algodão GM ocupou 469 mil hectares – segundo a Céleres Consultoria. Quanto à liberação de novos produtos para a safra 2012/2013, as cultivares de algodão transgênico com tolerância ao herbicida glifosato sintetizadas pela Embrapa, em parceria com a Monsanto, encontram-se em fase de prélançamento e deverão ser disponibilizadas ao produtor em 2013.

Com um transporte mais eficiente e boa logística de distribuição poderíamos, sem dúvidas, chegar ao topo dos maiores produtores não só de algodão, mas também de milho e soja