Plantio Direto

 

SEMEADORAS: a mobilização de solo que passa despercebida

Osmar Conte e Anderson de Toledo, pesquisadores da Área de Engenharia Agrícola do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar)

Analisando o histórico de pesquisas em sistema plantio direto (SPD) envolvendo semeadoras, que começou na década de 1970 com máquinas importadas e que utilizavam somente discos para abertura dos sulcos de fertilizante e semente, nota-se o avanço tecnológico que estas máquinas atingiram até o momento. Além de crescerem no tamanho, o incremento tecnológico foi ainda maior, hoje em dia existem no mercado máquinas com mecanismos dosadores de alta precisão, monitores eletrônicos de fluxo de semente e fertilizante, e até aplicação em taxa variável de fertilizante e sementes para agricultura de precisão.

Contudo, um dos principais avanços para o SPD, principalmente no estado do Paraná, foi a utilização de hastes sulcadoras. Pois, em função do não revolvimento do solo, condição essencial para o SPD, os discos apresentavam restrições para atingir a profundidade do sulco desejada e não proporcionavam um adequado leito de semeadura, principalmente em solos de textura argilosa e com algum grau de desestruturação física.

Frente a este cenário, as hastes sulcadoras ganharam destaque, tornando-se quase um sinônimo de plantio direto. Porém, quando começaram a ser utilizadas, notava-se elevada mobilização de solo e demandavam tratores mais potentes com relação ao uso de discos. Estas constatações despertaram o interesse de alguns especialistas na época, dentre eles os pesquisadores Ruy Casão Junior e Rubens Siqueira, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), que realizaram estudos para minimizar estes efeitos.

Se não houver nenhum problema com relação às condições físicas e estruturais do solo, o emprego de sulcadores do tipo disco duplo pode ser uma boa opção, com ganhos em consumo e rendimento operacional

Um dos principais resultados destas pesquisas foi o desenvolvimento de um modelo de haste sulcadora com ângulo de ataque ao solo de 20° e espessura da ponteira de 2 centímetros, características que permitiram até 40% de redução de demanda de potência dos tratores e com menor mobilização do solo, em profundidades de 12 a 15 centímetros. Só para se ter ideia, quando se fala em mobilização de solo em plantio direto, um sistema teoricamente isento de preparo de solo, cada centímetro de aprofundamento da haste corresponde a um acréscimo de 25-30 metros cúbicos de solo mobilizado por hectare, o que equivale a três caminhões de solo, nos espaçamentos entrelinhas usados atualmente.

Além disso, os pesquisadores citados também realizaram avaliações com aproximadamente 100 modelos de semeadoras no Paraná, cujos resultados forneceram informações valiosas a diversas empresas fabricantes de máquinas agrícolas, auxiliando no desenvolvimento tecnológico destas semeadoras. Resultados que podem ser acessados publicamente em divulgações do Iapar, disponíveis até hoje em meio eletrônico para download.

Então, utilizar somente sulcadores do tipo haste em SPD é a solução ideal? Não. Existem condições de solo, como textura, umidade, densidade, uso e manejo, a cultura, etc., que devem ser consideradas, seja no momento de selecionar a semeadora a ser comprada ou na sua regulagem no momento da semeadura, as quais o produtor precisa estar atento ou amparado tecnicamente para realizá-las.

As hastes sulcadoras surgiram para resolver problemas na abertura de sulco, em condições físicas do solo inadequadas para o bom desenvolvimento de plantas, principalmente perante a compactação superficial, que impediam o desempenho satisfatório dos sulcadores de discos. Se não houver nenhum problema com relação às condições físicas e estruturais do solo, o emprego de sulcadores do tipo disco duplo pode ser uma boa opção, com redução na demanda de potência do trator e ganhos em consumo e rendimento operacional.

Mas, no contexto da agricultura atual, o uso intensivo de áreas agrícolas, normalmente por motivações econômicas – como, por exemplo, a realização da safrinha, sistemas de integração lavoura-pecuária –, do aumento do peso das máquinas e do número de operações na mesma área, tem gerado dificuldades em se manter estas condições físicas de solo adequadas. Diante destas condições, o desenvolvimento das culturas, especialmente na fase inicial ou diante pequenas restrições hídricas, passa a ser prejudicado pela deficiente exploração do sistema radicular que encontra impedimentos mecânicos quanto à resistência do solo ao seu crescimento.

Para promover melhorias no solo quanto ao desenvolvimento de raízes, usamse mecanismos sulcadores do tipo haste, capazes de gerar uma maior zona de solo mobilizada e, assim, permitir maior expansão das raízes, aumentando a área para busca de água e nutrientes.

Lembra-se dos caminhões de solo? Em sistemas de preparo convencional do solo, com aração e/ou gradagem, mobiliza-se aproximadamente 2 mil metros cúbicos por hectare, se realizado até a 20 centímetros da superfície. Ao contrário do que se pensa, de que no SPD não há mobilização, quando se utilizam semeadoras equipadas com hastes sulcadoras atuando a profundidade de 15 centímetros, pode-se atingir até 20% disso, ou seja, 400 metros cúbicos de solo mobilizado por hectare. E isso não é pouco! Já fez as contas? São 40 caminhões de solo por hectare que estão passíveis de serem levados por agentes erosivos, normalmente chuvas e enxurradas. Pois, assim como o solo preparado no sulco de semeadura favorece o desenvolvimento de raízes, também se encontra desagregado e oferecendo menor resistência ao cisalhamento advindo da ação de chuvas e enxurradas, facilitando processos erosivos no solo.

Perfilógrafo — Já que a mobilização de solo existe em SPD, algumas pesquisas foram desenvolvidas para determinar métodos de quantificá-la. No Iapar foi desenvolvido um equipamento específico para medir a área de solo mobilizada no sulco. O perfilógrafo usa um sensor laser de distância que mede a superfície escavada no sulco depois de removido o solo mobilizado pelos mecanismos da semeadora. A partir das leituras realizadas por meio do perfilógrafo determina-se a área transversal do sulco, que se multiplicada pelos metros lineares de linha de semeadura existentes em um hectare, o que é dependente do espaçamento entre linhas, chega-se ao volume de solo mobilizado.

Atenção para os cuidados com a conservação de solo mesmo em plantio direto, pois tem se observado muitos descuidos, como a retirada de terraços e a semeadura não realizada em nível, o que favorece a erosão

O perfilógrafo é usado em pesquisas focadas em parâmetros de mobilização de solo por mecanismos sulcadores de semeadoras- adubadoras e tem contribuído para avanços em estudos dessa natureza. O desenvolvimento do perfilógrafo pelo Iapar faz parte das atividades do pesquisador André Luiz Johann, que também usa seus resultados para subsidiar os estudos de sua tese de doutoramento e publicou sua criação no Congresso Brasileiro de Engenharia Agrícola de 2012.

Diante do que foi anteriormente exposto com relação à mobilização de solo em SPD, chama-se a atenção para os cuidados com a conservação de solo mesmo em plantio direto, pois tem se observado muitos descuidos como a retirada de terraços e a semeadura não realizada em nível, o que favorece o início e o agravamento de processos erosivos na lavoura. Os sulcos de semeadura direcionados morro abaixo e agravados pela ausência de terraços e pouca cobertura do solo por palha oferecem as condições ideais ao início de processos erosivos. Mas, mesmo que não ocorra perda de solo, ou que não se possa perceber visualmente esta perda, é muito comum sair da lavoura a água excedente, que carrega consigo nutrientes e pesticidas, gerando danos ambientais mesmo longe de onde foram aplicados.

Um dos principais avanços para o sistema plantio direto, principalmente no estado do Paraná, foi a utilização de hastes sulcadoras

Atenção à velocidade — Assim, algumas atitudes, que podem ser tomadas pelo produtor, podem evitar esta erosão, como semeadura em nível, alocação e manutenção de terraços, formação de palha em quantidade, regulagem correta das semeadoras, utilização de velocidades adequadas à operação, dentre outros. Um destaque deve ser feito ao fator velocidade de operação durante a semeadura utilizando hastes: quanto maior for a velocidade, maiores são as chances do solo ser “expulso” do sulco, dificultando o seu retorno pelos mecanismos aterradores da semeadora, consequentemente, não proporcionando as condições desejadas para a germinação das sementes, e, ainda, passível de ser erodido.

Portanto, o agricultor deve estar sempre atento às condições do solo e sua cobertura com palha, principalmente em sistema de plantio direto, para que possa selecionar corretamente as configurações e regulagens da semeadora-adubadora, seja com hastes sulcadoras ou com discos duplos, lembrando que cada um destes mecanismos pode apresentar benefícios (ou prejuízos) à conservação de solo e água, dependendo das condições de solo e palha.