Algodão

 

Invasoras: o melhor manejo é o INTEGRADO

As daninhas podem causar prejuízos ao algodoeiro pela competição por nutrientes, água e luz, mas também por diminuírem a qualidade da fibra e hospedarem pragas e patógenos

Engenheiros agrônomos Julio Cesar Bogiani e Alexandre Cunha de Barcellos Ferreira, doutores em Fitotecnia, pesquisadores da Embrapa Algodão, Núcleo do Cerrado, [email protected] e [email protected]

A planta daninha ou invasora é toda e qualquer planta que germine espontaneamente em áreas de interesse humano e que, de alguma forma, interfira prejudicialmente nas atividades agropecuárias do homem (Blanco, 1972). Julio Cesar Bogiani Assim, tanto no algodoeiro como em qualquer lavoura comercial, a infestação por estas plantas ao ponto de causarem interferência negativa não é desejada. Estas interferências negativas podem ser diretas, por causarem prejuízo no crescimento e no desenvolvimento do algodoeiro devido à competição por água, luz, nutrientes, espaço e efeitos alelopáticos, afetando diretamente a produção final, bem como a qualidade do produto comercial, que são as fibras.

Além dos prejuízos causados pela depreciação na qualidade das fibras, a presença de certas plantas invasoras, como, por exemplo, a corda-de-viola (Ipomea spp.), pode diminuir a eficiência da colheita mecanizada e até de outras operações. Estes últimos efeitos, somados ao fato de as plantas invasoras serem hospedeiras de pragas ou doenças que podem se multiplicar e causar danos no algodoeiro, definem os efeitos indiretos trazidos por estas plantas invasoras. Por isso, a lavoura de algodoeiro deve permanecer livre de plantas invasoras durante todo o seu ciclo, tanto para evitar a mato-competição e a proliferação de pragas e doenças como para garantir a qualidade da fibra e o bom rendimento e eficiência da colheita mecanizada.

Como o algodoeiro é uma planta que apresenta crescimento inicial lento, principalmente nos primeiros 30 dias após a emergência (DAE), quando é cultivado nos espaçamentos entrelinhas convencional, que são os mais utilizados, o fechamento das entrelinhas pelo dossel da planta é mais demorado. Isto favorece o aparecimento das plantas invasoras e, consequentemente, um maior período de matocompetição, que corresponde ao intervalo que o manejo de plantas daninhas deve ser mais efetivo para que o rendimento de fibra seja assegurado. No algodoeiro este período é compreendido entre 8 e 66 DAE (Salgado et al., 2002).

Dentre as principais plantas invasoras que competem com o algodoeiro no Brasil pode-se citar trapoeraba (Commelina sp.), corda-de-viola, picão-preto (Bindens pilosa), capim-carrapicho (Cenchrus echinatus), grama-ceda (Cynodon dactilon), capim-colchão (Digitária spp.), etc. As espécies com mecanismos C4, por serem mais eficientes que o algodoeiro para fixação de carbono, normalmente competem fortemente com a cultura, trazendo grandes prejuízos na produção se não controladas no período correto.

Métodos — Para o manejo das plantas invasoras no algodoeiro, tem-se o preventivo, o cultural, o mecânico, o químico e o integrado. O método de controle integrado consiste na utilização de todos os métodos citados antes. O método de controle preventivo envolve todo o conjunto de medidas que evitam introdução, infestação e disseminação destas plantas na área. Este controle deve estar presente em todas as etapas do processo produtivo, ou seja, da compra da semente até a destruição dos restos culturais.

O método de controle cultural consiste em práticas culturais para melhorar o desenvolvimento da cultura e o fechamento rápido do dossel, como, por exemplo, uso de densidades de plantas maiores, adubação, uso de plantas de cobertura, etc. O método de controle mecânico consiste normalmente do uso de equipamentos que revolvem o solo, destruindo as plantas invasoras presentes na área, porém, é um método não utilizado no sistema plantio direto (SPD).

O método de controle químico é atualmente o mais utilizado no cultivo do algodoeiro, principalmente na região do Cerrado, onde se encontra a maior área de cultivo desta fibrosa. Este método consiste da utilização de herbicidas. Atualmente, existem cerca de 29 moléculas de herbicidas registrados para uso no algodoeiro, que podem ser utilizados desde a dessecação, em pré-semeadura, pré-emergência, pós-emergência e em pós-emergência com jato dirigido (Christoffoleti, et al., 2011).

A introdução dos algodoeiros resistentes a herbicidas disponibilizou mais uma estratégia para o manejo das plantas invasoras. Foram introduzidos genes no algodoeiro que conferem resistência a certos herbicidas que controlam uma grande gama de plantas invasoras. Atualmente, no Brasil foram aprovados os eventos que conferem resistência aos herbicidas glifosato e ao glufosinato de amônio, bem como os dois eventos na mesma planta (CTNBio, 2013), entretanto este último ainda encontra-se em fase de desenvolvimento pela empresa detentora desta patente.

Apesar de esta tecnologia proporcionar uma maior comodidade ao cotonicultor para manejar as plantas invasoras, ela precisa ser utilizada de forma racional, haja vista que a utilização constante de um mesmo herbicida pode selecionar plantas invasoras que também são resistentes a estes herbicidas e, com isso, permanecerem na área após sua aplicação, competindo com o algodoeiro. Em várias áreas de produção, já existem problemas com resistência de plantas invasoras resistente ao glifosato, como, por exemplo, buva (Conyza ssp.), picão-preto, leiteiro (Euphorbia heterophylla), capim-amargoso (Digitaria insularis), capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), capim-colchão, etc.

Hoje, estes são alguns exemplos, mas amanhã os problemas podem ser maiores se a tecnologia não for utilizada de forma racional. Por isso, o uso de boas práticas de manejo deve ser adotado para evitar este problema. Medidas como identificação das plantas daninhas presentes na área antes e depois dos cultivos, dessecação para iniciar o cultivo livre de plantas daninhas, uso de herbicidas residuais, rotação de diferentes mecanismos de ação, eliminação de plantas daninhas que não morreram após aplicação dos herbicidas, rotação de cultivos alternando o mecanismo de ação de tolerância, uso da dose recomendada pelo fabricante, controle de plantas daninhas de infestação tardia para evitar a produção de sementes, dentre outras, certamente diminuirão a porcentagem de se ter problemas para controlar as plantas daninhas nas lavouras.