Show Rural Coopavel

 

RECORDE em números e novas tecnologias

A 25ª edição do Show Rural Coopavel, em Cascavel/PR, movimentou R$ 1,6 bilhão em negócios e atraiu 200 mil visitantes, números jamais vistos nesta feira e que servem como termômetro do que será o agronegócio paranaense e brasileiro em 2013

Leandro Mariani Mittmann
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Texto e fotos

A feira Show Rural Coopavel de 2013 foi a maior das 25 edições realizadas desde 1989, quando o evento começou como um dia de campo. A feira promovida pela Coopavel Cooperativa Agroindustrial, em Cascavel/PR, no mês passado, teve mais de 202 mil visitantes, 430 expositores e volume de negócios de R$ 1,6 bilhão, o dobro de 2012 – e com possibilidades de atingir R$ 1,8 bilhão, visto que muitas negociações prosseguem Sérgio Sanderson após o evento. “O Show Rural Coopavel 25 anos foi histórico e bateu todos os recordes. Mas o mais importante foram as tecnologias apresentadas, o conhecimento adquirido e agora os resultados virão nas próximas safras com o aumento da produtividade e da lucratividade para o produtor”, destacou o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli. Ele foi anfitrião de muitas visitas ilustres, como a da presidente da República, Dilma Rousseff. Foi a primeira vez que um chefe de Estado visitou o evento. A acompanharam autoridades como o ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro Filho.

Não há exagero em afirmar que um evento do porte do Show Rural expõe, apresenta ao agronegócio o que de mais recente a pesquisa privada e pública desenvolveu e disponibilizou para a prática da agricultura moderna. Desde o lançamento de novas máquinas, cada vez com mais tecnologia embarcada e design futurista, até tecnologias e técnicas simples, mas comprovadamente eficientes. Como a integração lavoura-pecuária-floresta, que foi tema nos estandes do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e da Embrapa. O médico veterinário Rogério Dereti, pesquisador da Embrapa Gado de Leite cedido à unidade Florestas, esclarece que o interessado em diversificar a propriedade com atividades tão distintas como grãos-árvoresanimais deve, antes de tudo, fazer o planejamento sobre as atividades conforme a área disponível. No caso da lavoura anual que vai receber plantas perenes, pensar em “como estas árvores vão se distribuir na lavoura”.

Grolli: “O mais importante foram as tecnologias apresentadas, o conhecimento adquirido. Agora os resultados virão nas próximas safras com o aumento da produtividade e da lucratividade”

O pesquisador explica que o produtor deve atentar que vai precisar da lavoura, assim como das árvores. “Não é só plantar”, lembra. “Para que se destinam as árvores e como está o mercado em volta”, esclarece outra questão a ser definida pelo empreendedor. O plantio de árvores pode ser, por exemplo, apenas para recuperar uma área degradada ou para gerar conforto animal. Mas caso tenha como finalidade a obtenção de renda, detalhes como o espaçamento entre plantas são importantes de ser considerados e práticas como desbaste ou mesmo supressão de uma linha devem ser previstas. Entre as vantagens da integração, lista Dereti, está a estabilidade do sistema produtivo, a maior diversidade e a menor vulnerabilidade às variáveis climáticas, além claro da diversificação de renda. “O produtor não fica dependente de uma coisa só”, argumenta. “Integração lavoura-pecuária é ciência mais sensibilidade para perceber o que está acontecendo”, adverte, ao lembrar que não existe uma receita definitiva.

Novas variedades — Entre outras abordagens, a Embrapa apresentou no Show Rural a sua nova variedade de soja, a BRS 360 RR. “Se adapta muito bem nas regiões onde o milho é cultivado no outono- inverno”, resume a pesquisadora Divania de Lima, da unidade Soja. “Faz com que o agricultor plante milho safrinha na época mais recomendada.” Ela explica que a BRS 360 RR é precoce (114 a 125 dias) e o plantio é feito a partir de 1º de outubro, com espaçamento de 45 centímetros e de dez a 12 plantas por metro linear – e a colheita ocorre entre 10 e 15 de fevereiro. “Vem para suprir as necessidades de produtores de regiões mais baixas (600 metros)”, acrescenta. “Planta no cedo, antecipado, cresce bem e dá porte.” A nova variedade é resistente à podridão radicular da fitóftora, podridão parda da haste e mosaico comum da soja. A cultivar é propícia para regiões do Paraná (noroeste e sudoeste), do Mato Grosso do Sul (sudeste) e de São Paulo (extremo-sul).

Cultivar da batata BRSIPR Bel possibilita que o produtor tenha uma opção nacional para matériaprima à indústria, explica Nazareno, do Iapar

Lançamento de novas variedades também foi uma das muitas atividades do Iapar. A instituição colocou no mercado a batata BRSIPR Bel, desenvolvida em conjunto com unidades da Embrapa e que é direcionada para a indústria, principalmente como chips e batata palha. Segundo o pesquisador do Iapar que participou do desenvolvimento da cultivar, Nilceu Nazareno, para se chegar à BRSIPR Bel foram testados de 10 mil a 15 mil minitubérculos por ano, desde 1999. A variedade, explica o pesquisador, tem alto teor de matéria seca e baixo de açúcar, características que propiciam qualidade de rendimento de fritura. A proposta era desenvolver uma variedade nacional adaptada ao Paraná que diminuísse a dependência da cadeia da batata para variedades importadas. “Tem alta produtividade em comparação à principal variedade importada, a Atlantic, o carro chefe da Elma Chips, padrão de referência para fritura”, explica Nazareno.

Pesquisadora Divania, da Embrapa: por ser precoce, a variedade de soja BR 360RR possibilita o plantio do milho safrinha na época mais recomendada

Outro lançamento da instituição paranaense de pesquisa foi a de feijão carioca IPR Andorinha. A cultivar é de ciclo precoce, de 73 dias da emergência à maturação, e é indicada para todo o Paraná, informa informa o pesquisador Valdir Lourenço Júnior. “Tem alto potencial de rendimento, produtividade de 2.400 quilos por hectare”, descreve. “Resistência moderada ao crestamento bacteriano e resistência à ferrugem, oídio e mosaico comum, e tolerância moderada a seca e altas temperaturas.” Segundo o pesquisador, a IPR Andorinha é ainda adaptada à colheita mecanizada. Outra grande vantagem, ainda que não beneficie diretamente o produtor, é o cozimento mais rápido: 18 minutos, ante 25 minutos de outras variedades. A nova variedade já começou a ser multiplicada e deverá estar disponível ao produtor em 2014.

Segundo Pavan, após visitar as tecnologias da Emater, os agricultores podem buscar informações mais detalhadas sobre os assuntos que interessaram

Três gerações da família Vendrusculo, avô, filho e neto, de Céu Azul/PR: visita à feira possibilita a comparação de preços

Familiares — O Show Rural é um grande espetáculo para pequenos produtores, que chegam em centenas de ônibus de excursão. E uma atração interessante sempre é a área da Emater. O engenheiro agrônomo Elcio Pavan, coordenador da instituição na feira, estima que entre 40% a 50% dos visitantes visitam o espaço de 35 mil quadrados da Emater, área que abrigou a exposição de dez temas – de artesanato a turismo rural. Conforme Pavan, os agricultores escolhem o que lhes interessa mais conhecer. “Eles retornam (para casa) e buscam informações mais detalhadas sobre os assuntos”, explica. Como enfoque de cada tema, a oportunidade de agregar renda e diversificar a propriedade. “O nosso objetivo é alertar que existe aquela tecnologia. Não vai sair professor, mas com interesse”, descreve a missão dos 60 técnicos da Emater que prestaram esclarecimentos no Show Rural

Às compras — Feiras como o Show Rural Coopavel, com centenas de expositores mostrando seus produtos em estandes lado a lado, são oportunidades para o produtor escolher, definir a sua máquina ideal, equipamento ou insumo que precisa para a sua propriedade. Claudir Rossi, produtor de leite, soja e milho na localidade de São Martinho, em Cascavel, adquiriu um trator de 95cv para agilizar o processamento de silagem, pois este se juntará ao que ele já tem há oito anos. “Vou ficar com os dois. Um só não estava dando conta”, justifica. Ele mantém 25 vacas de lactação e 19 novilhas, 20 hectares de soja e outros 108 de milho. A nova máquina custou R$ 100 mil, adquirida via Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com 3%/ano de juros e dez anos para pagar. O produtor, que trabalha na propriedade com a esposa, Inês, o filho Fabiano e a nora Franciele, revela que a rentabilidade do momento está boa, tanto para o leite como para os grãos. “Este ano não está ruim. Perto de antigamente que não dava para comprar nada”, comparou.

Família de Claudir Rossi (com o pedido de aquisição do trator na mão): um trator apenas não dava mais conta dos serviços

Marcos Paulo Salmazo, de Terra Rica/ PR, comprou um trator de 125cv para substituir outro de 110cv no cultivo de mandioca. “Tem que renovar a frota”, justifica ele, que cultiva 180 hectares de mandioca numa região em que a cultura é muito difundida, a noroeste do estado, onde estão localizadas indústrias de fecularia. Salmazo produz mandioca há dez anos e considera o momento da cultura de “boa rentabilidade”. Ele diz que, apesar das opções da feira, foi direto na marca que confia. “Não tem muito que escolher”, revela. Ele comprou a máquina via PSI visto às “condições de pagamento”.

Visita de perto e de longe - O Show Rural reúne de famílias que chegam de perto a gente de muito, muito longe. Antônio Vendrusculo, Valdecir e Luciano (12 anos) – avô, filho e neto – circulavam pelos estandes numa manhã chuvosa, abrigados pelas coberturas das ruas do parque. Eles cultivam soja, milho e trigo na linha Nova União, em Céu Azul. O avô frequenta a feira “desde as primeiras”. “É mais fácil a comparação dos preços”, explica o filho uma das razões de comparecer à feira. Valdecir se mostra satisfeito com o momento do agronegócio, apesar de algumas perdas para o clima. “Não dá para reclamar de preços, não. Isso é bom”, ressalta.

Delegação russa visitou o Show Rural Coopavel para ver de perto as técnicas de plantio direto e poder aplicá-las em Krasnodar

A família Vendrusculo só se deslocou 65 quilômetros para visitar a feira. Ao contrário de uma delegação de seis pessoas que atravessou o planeta, desde o estado de Krasnodar, a sudeste da Rússia, interessada na técnica do plantio direto. Eles estavam acompanhados do executivo Ismael Mari, da Vence Tudo, empresa que tem negócios com máquinas de PD naquela região. Entre os russos, o vice-ministro da Agricultura daquela região e Peter Sogreen, que morou em São Paulo nos anos 1990 e fala o português. Ele é da empresa de máquinas Bereguinha, parceira da Vence Tudo e que trabalha pela implantação do plantio direto naquela região, produtora de girassol, soja, milho e trigo. “Estamos tentando implantar o plantio direto na Rússia”, conta Sogreen. Estas são algumas das histórias de uma feira gigante e cheia de oportunidades e diversidades.