Adubação

Cada milho com o manejo que MERECE

Visto as particularidades das muitas regiões produtoras de milho safrinha no país, principalmente em relação à disponibilidade de água no solo e dos métodos de aplicação dos fertilizantes, são distintas as estratégias de manejo da adubação

Aildson Pereira Duarte, Programa Milho e Sorgo IAC/APTA, Instituto Agronômico, Campinas/SP, [email protected]

O cultivo do milho na segunda safra sob sequeiro, em sucessão de culturas, denominado milho safrinha, expandiu rapidamente no Brasil nas duas últimas décadas. Neste período, a área evoluiu de inexpressiva para mais de 7 milhões Fotos: Leandro M. Mittmann de hectares e a produtividade média dobrou para aproximadamente cinco toneladas por hectare, devido, principalmente, à consolidação do sistema plantio direto, à antecipação da época de semeadura e ao lançamento de híbridos adaptados.

O emprego de insumos e práticas culturais típicos de sistemas de alta tecnologia é crescente no milho safrinha, embora ainda predomine médio investimento em tecnologia. A adubação tem acompanhado esta tendência, mas é necessário melhorá-la para suplantar os níveis atuais de produtividade na cultura. Neste artigo, serão apresentadas as principais peculiaridades e os pontos que requerem maior atenção no manejo da adubação do milho safrinha.

A diversidade de ambientes de produção do milho safrinha, principalmente quanto à disponibilidade de água no solo e dos métodos de aplicação dos fertilizantes, condicionam diferentes estratégias de manejo da adubação ao cereal. As regiões produtoras de milho safrinha podem ser divididas nas seguintes: cultivo tradicional, desde o início da década de 1990 em substituição ao trigo (Paraná, sudoeste de São Paulo e parte do Mato Grosso do Sul); chapadões do Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), ocupando áreas que ficavam ociosas após a colheita da soja; e a nova fronteira agrícola do Mapito (Maranhão, Piauí e Tocantins).

A região de cultivo tradicional é de baixa altitude, baixas temperaturas e risco de geadas, predominando pequenas propriedades, adubação no sulco de semeadura e diversos espaçamentos entre linhas (de 45 a 90 centímetros). Nos chapadões do Centro- Oeste e do Mapito as temperaturas são mais elevadas e ocorre deficiência hídrica no final do desenvolvimento da cultura (inverno seco), predominando grandes propriedades, espaçamento reduzido (45 e 50 centímetros) e aplicação de todo adubo a lanço para facilitar a parte operacional.

Importância do nitrogênio — O nitrogênio (N) é o nutriente requerido e exportado em maior quantidade pelo milho (figuras 1 e 2). Como aproximadamente 1,5% do grão é composto por nitrogênio, são exportados 15 quilos de N por tonelada de milho, que corresponde a 75 kg/hectare de N quando se produz 5 toneladas/ ha de grãos. A maior parte do nitrogênio (60% a 70%) é acumulada na planta antes do florescimento e o potencial produtivo máximo é definido nos estádios iniciais (figura 3). Como o sistema radicular é pouco desenvolvido em plantas jovens, explorando pouco volume de solo, é necessário o fornecimento de N na semeadura para suprir esta grande demanda inicial do nutriente.

milho safrinha se beneficia do nitrogênio presente nos restos culturais da soja, mas não se conhece bem quanto do nutriente fica disponível para este cereal, o que dificulta o cálculo do crédito de nitrogênio na adubação nitrogenada do milho. Existem variações na própria eficiência do processo simbiótico e na proporção de grãos na massa total da parte aérea da soja, bem como nas condições para a mineralização da matéria orgânica e liberação do N no solo. Estima- se que ficam para o milho em sucessão cerca de 20 kg de N para cada tonelada de soja, ou seja, 60 kg/ ha de N quando se produz três toneladas/ ha de soja, o que não é suficiente para suprir a exportação deste nutriente na maioria das lavouras de milho safrinha.

Quanto e quando aplicar nitrogênio — Em condições tropicais não é possível prever a resposta das culturas ao nitrogênio a partir da análise de solo. A recomendação de adubação é feita considerando-se o histórico de culturas na área - que no caso do milho safrinha é quase sempre a soja -, a demanda de nutrientes pelas plantas, a estimada a partir da produtividade e os resultados de experimentos de resposta da cultura aos fertilizantes.

Quando se emprega pouco nitrogênio e a produtividade do milho é elevada, pode haver resposta da soja cultivada em sucessão à adubação nitrogenada

Os primeiros experimentos em rede sobre adubação do milho safrinha foram conduzidos pelo Instituto Agronômico (IAC), na região paulista do Médio Paranapanema, no período 1993 a 1995. Verificou-se que o parcelamento do N com 10 kg/ha de N na semeadura e o restante em cobertura, antiga adubação padrão, poderia ser aumentada para 30 kg/ha na semeadura. A aplicação de apenas 30 kg/ha no sulco de semeadura era suficiente para produzir de maneira econômica até 4 t/ha de milho em grãos. O uso de 30 kg/ha na semeadura, juntamente com o fósforo e o potássio no sulco de semeadura (exemplos: fórmulas NPK 13-13-13, 16-16-16 e 16-18-14+S), passou a ser amplamente adotado nas regiões tradicionais de milho safrinha para evitar as incertezas de haver ou não umidade no solo no momento em que deveria ser feita a cobertura, o que poderia levar à deficiência nas plantas pelo fato de não fazê-la ou pela sua baixa eficiência.

Com o aumento da produtividade e a ampliação da área de cultivo do milho safrinha, implantou- se nova rede de experimentos em diferentes regiões produtoras, para atualizar as informações sobre o manejo da adubação. Verificou- se, ao aplicar aproximadamente 27 kg/ ha de N no sulco de semeadura, em sucessão a soja e solos argilosos, que a frequência de resposta ao N em cobertura é muito baixa até produtividades de 6 t/ha (Figura 4). No entanto, para suplantar este patamar produtivo é fundamental complementar a adubação de semeadura com N em cobertura em doses compatíveis com o regime hídrico regional e a produtividade esperada.

Modos de aplicação — Um dos pontos críticos da adubação de cobertura é o modo de aplicação e o tipo de fertilizante nitrogenado. Com a adoção do espaçamento reduzido, especialmente em Goiás e Mato Grosso, é frequente a aplicação do nitrogênio a lanço na superfície do solo sob sistema plantio direto. Nestas condições, a ureia pode ter grandes perdas de N por volatilização e requerer o aumento da dose ou o uso de mistura com inibidores químicos para minimizar as perdas. Embora a ureia seja preferida devido a maior disponibilidade, menor preço e facilidade de aplicação, o nitrato de amônio também tem sido utilizado por não apresentar perdas de N quando aplicado na superfície sem enterrar.

Ao mesmo tempo, cresceu a adubação exclusiva de nitrogênio, fósforo e potássio na superfície, pois a semeadura é realizada com máquinas sem mecanismo de adubação, visando alto rendimento operacional. É priorizada a adubação de cobertura e pouco ou nenhum fertilizante nitrogenado é aplicado imediatamente após a semeadura. Geralmente, a aplicação é feita em área total e, como as raízes ainda são pequenas e não ocupam a área da entrelinha, parte do N fica longe das raízes do milho e não é aproveitado imediatamente. Nestas condições, a eficiência do uso do fertilizante é reduzida e pode haver deficiência nos estádios iniciais.

Quando se emprega pouco N e a produtividade do milho é elevada, pode haver resposta da soja cultivada em sucessão à adubação nitrogenada, pois aumenta a exportação dos nutrientes e a imobilização de N e S no solo para a decomposição dos restos culturais do milho (palha com elevadas relações C/N e C/S). Equivocadamente, em vez de adubar adequadamente o milho, alguns agricultores estão utilizando fertilizantes com nitrogênio na cultura da soja.

Adubação de sistema: P, K, S e micronutrientes — A análise periódica do solo é fundamental para a recomendação de N, P, S e micronutrientes nos fertilizantes. No planejamento da adubação não se deve considerar apenas o milho, mas a sucessão de culturas de milho e soja (adubação de sistema). Os teores de fósforo na camada 0-20 centímetros do solo devem ser médios ou altos para o cultivo do milho safrinha. Em solos com baixo teor de fósforo, o cultivo é quase sempre antieconômico pela necessidade de altas doses de fertilizantes fosfatados. O fósforo deve ser aplicado preferencialmente no sulco de semeadura, podendo-se optar pela aplicação a lanço nos solos de alta fertilidade para reposição dos nutrientes exportados nas colheitas.

Deve-se evitar o parcelamento da adubação com potássio para a cultura do milho safrinha. Geralmente, as quantidades recomendadas nesta época são menores do que as do milho verão, reduzindo os riscos de injúrias do sistema radicular devido ao efeito salino do potássio e do nitrogênio aplicados no sulco de semeadura (a soma de N e K2O não deve ultrapassar 70-80 kg/ha). Como o potássio é o nutriente acumulado em maior quantidade nos estádios iniciais de desenvolvimento das plantas de milho (figura 1), a sua aplicação a lanço de maneira isolada ou em fórmulas NPK como 20-00-20 deve ser feita o mais cedo possível. Como frequentemente não há umidade adequada no solo para que imediatamente parte do potássio aplicado na superfície movimente e seja absorvido pelas raízes, o efeito desta adubação sobre a produtividade da cultura pode ser pouco expressivo ou nulo. Uma das opções é priorizar a aplicação do potássio na cultura da soja e reduzir as doses no milho safrinha.

No caso do enxofre (S), deve-se priorizar sua suplementação quando o teor de S-SO4 2- for inferior a 5 mg/ dm3. O enxofre pode ser suprido no milho tanto na adubação de semeadura como em cobertura do milho, em doses entre 20 a 40 kg/ha, ou apenas na soja. Sugere-se amostrar também a camada subsuperficial (20-40 cm e 40-60 cm), pois as análises realizadas com amostras de solo da camada de 0-20 cm tendem a subestimar a disponibilidade de S no solo. É sabido que o S geralmente não se acumula nas camadas superficiais de solos que recebem calcário e adubo fosfatado, por causa da predominância de cargas negativas devido aos maiores valores de pH e do deslocamento do sulfato dos sítios de adsorção, provocado pelo P (ao contrário do S, o P diminui em profundidade).

Teores baixos de micronutrientes no solo indicam a necessidade da sua inclusão na adubação no solo e/ou via foliar. Porém, em função de inúmeras interações na absorção dos nutrientes, o teor adequado no solo não assegura ausência de deficiência nas plantas. Por isso, é fundamental a amostragem periódica de folhas nas culturas em sucessão, mesmo na ausência de sintoma(s) visual(ais) de deficiência, visando conhecer o estado nutricional das plantas e planejar as próximas adubações.

Cresceu a adubação exclusiva de nitrogênio, fósforo e potássio na superfície, pois a semeadura é realizada com máquinas sem mecanismo de adubação, visando ao alto rendimento operacional