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Ano para novos AJUSTES

A alta dos preços do milho no mercado internacional deverá estimular os norte-americanos a cultivarem uma área recorde em 2013, em condições de produzir 400 milhões de toneladas. No Brasil, a logística será a vilã dos agricultores

Engenheiro agrônomo Leonardo Sologuren, mestre em Economia e sócio-diretor da Clarivi Consultoria

O mercado do milho teve um contorno ímpar em 2012. Quebras de produção de grãos em diversas partes do mundo ocasionaram uma restrição significativa da oferta, resultando em elevações expressivas de preços. A produção de milho na América do Sul foi castigada no ano safra 2011/12 em decorrência do fenômeno climático La Niña. A estiagem afetou a produção do cereal na Região Sul, assim como na Argentina e no Paraguai. Neste momento, meados de fevereiro, os preços futuros do milho negociados na Bolsa de Chicago (CBOT) não chegaram a sofrer valorização expressiva, já que a América do Sul representa pouco mais de 13% da oferta mundial do cereal.

No entanto, o que o mercado não contava era com a perda expressiva de produção verificada nos Estados Unidos na campanha agrícola 2012/13, quando o país registrou uma quebra de cerca de 100 milhões de toneladas do cereal. Não apenas os estoques de passagem dos Estados Unidos foram afetados como os estoques globais também. O estresse em relação à oferta foi imediato. Os preços do milho negociados na CBOT atingiram níveis recordes e compradores iniciaram uma busca por fornecedores alternativos aos Estados Unidos.

Para deixar a situação mais tensa, o clima também afetou a produção de trigo no Leste Europeu. Rússia e Ucrânia registraram perdas expressivas no trigo, que representa a base da alimentação animal no Velho Continente. Tal fato, também ajudou a valorizar os preços do milho, que, neste momento, serviriam como substituto ao trigo na produção de ração. A quebra de safra nos Estados Unidos mudou de forma expressiva as perspectivas de mercado para os produtores no Brasil. A restrição da oferta norte-americana de milho abriu espaço para as exportações brasileiras, que acabaram atingindo volume recorde no ano passado (19,8 milhões de toneladas). Se não fosse este acontecimento climático, possivelmente o Brasil teria grande dificuldade em escoar o seu excedente de produção oriundo da segunda safra.

Valorização interna - Neste cenário, os preços do milho no Brasil também sofreram forte valorização, comprometendo, inclusive, a competitividade no setor produtivo de carnes, que já sofria com a forte alta verificada nos preços do farelo de soja. Mesmo em um ambiente de preços altos, ainda assim a área plantada com milho verão na safra 2012/13 será a menor já cultivada na história. Os altos preços da soja acabaram motivando os produtores rurais a investirem mais na oleaginosa do que no cereal.

Em compensação, os produtores do Centro-Oeste mostram-se muito motivados a elevar a área plantada com milho de segunda safra em 2013. Estimase que a área a ser cultivada com milho inverno no Brasil deva ser próxima a 8 milhões de hectares, o que, em condições normais de clima, representaria novamente uma oferta recorde para este cultivo. No entanto, em termos de mercado, é preocupante o cenário que se desenha para o segundo semestre. A alta dos preços do milho no mercado internacional deverá estimular os produtores norte-americanos a cultivarem uma área recorde. Em condições normais de clima, pode-se dizer que os Estados Unidos teriam condições de colher uma safra de milho próxima a 400 milhões de toneladas.

Se de fato esta perspectiva for concretizada, o Brasil teria dificuldades em competir diretamente com o milho norte- americano no segundo semestre, no momento em que também estaremos colhendo uma safra de inverno recorde. É importante destacar que o Brasil é um exportador de milho produzido na segunda safra, cuja maior região produtora é a Centro-Oeste. Logisticamente, esta é a região menos competitiva em termos de exportação. Ao mesmo tempo, em função de uma safra recorde de soja que se desenha para o Centro- Oeste, preocupa também a competição que haverá entre milho e soja por estruturas de armazenagem, transporte e portuária. Todos estes fatores podem levar a uma depreciação sobre os preços do milho.

Em razão dos baixos estoques de passagem, qualquer frustração climática no Brasil ou, principalmente, na América do Norte causaria fortes solavancos no mercado

Na dependência do clima — Por outro lado, qualquer frustração climática, seja no Brasil ou, principalmente, na América do Norte, ocasionaria um forte estresse no mercado. Em função dos baixos estoques de passagem, tanto no mundo quanto nos Estados Unidos, não há espaço para perdas de produção. Tal fato resultaria em uma forte apreciação sobre os preços do milho. O fato é que o mundo busca uma recuperação na oferta. Tanto a América do Sul quanto a América do Norte caminham para safras recordes de grãos. O único empecilho para que tal objetivo não seja alcançado é justamente a ocorrência de problemas climáticos. Os estoques de passagem atuais são preocupantes e os níveis de preços praticados tornam a cadeia produtiva de carnes menos eficiente.

Isto também não quer dizer que os preços dos grãos sofrerão desvalorizações absurdas. No entanto, não se pode imaginar que os preços repetirão o comportamento observado ao longo de 2012. Apesar do cenário de crise econômica global, a demanda por grãos permanece aquecida, puxada principalmente pela fome de commodities por parte dos países emergentes (com destaque neste caso para a China). A recuperação, apenas parcial dos estoques, ainda deve garantir preços altos do ponto de vista internacional. No Brasil, a logística poderá ser o grande vilão para que os preços dos grãos percam valor em relação ao mercado externo. A permanência de uma infraestrutura logística ineficiente, aliada ao aumento dos preços dos combustíveis e à nova lei imposta aos caminhoneiros, deverá elevar sensivelmente os custos de transporte e armazenagem, os quais, por sua vez, serão repassados aos produtores. Enfim, tudo indica que será um ano de novos ajustes.