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Milho: o momento PROMISSOR

Os últimos anos apresentaram um novo cenário para a lavoura de milho no Brasil. Por vezes considerado um cultivo apenas “necessário” para o sistema, o cereal passou a receber mais atenção por parte dos produtores. A motivação veio principalmente da conjuntura internacional, que favoreceu a exportação do grão e provocou aumento nas cotações. Agora, na iminência de colher mais uma grande safra, o produtor brasileiro convive com a alta rentabilidade, mas também com as incertezas do mercado mundial

Denise Saueressig
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Produtor Altair Demarco: 1,5 mil hectares cultivados na segunda safra e expectativa de produtividade entre 135 e 150 sacas por hectare

A agricultura é uma atividade cercada de dúvidas. Todo produtor sabe que fatores como o clima e o mercado internacional têm impacto direto sobre o seu cultivo na lavoura. O que não é possível saber é como essas variáveis se comportarão depois que são tomadas as decisões sobre a nova safra. Por algum tempo, a conjuntura não favoreceu grandes apostas no milho. Há pouco tempo e, em muitos casos, o cereal era cultivado mais por necessidade do que por rentabilidade. A rotação de culturas e a diluição dos custos fixos da propriedade eram argumentos mais frequentes para plantar o grão. Nos últimos anos, no entanto, as habituais mudanças no mercado agrícola provocaram um reposicionamento do cereal no campo brasileiro. Na safra 2011/ 2012, o país registrou uma produção histórica de milho, que superou a de soja. Foram 72,9 milhões de toneladas do cereal e 66,3 milhões da oleaginosa, segundo os números da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para se ter uma ideia, no ciclo anterior, em 2010/2011, a colheita de milho foi de 57,4 milhões de toneladas, enquanto a de soja somou 75,3 milhões.

A produção do cereal também foi a mais valiosa da história em 2012: R$ 34 bilhões, pelos cálculos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O resultado poderia ter sido ainda maior, não fosse a estiagem no Sul e no Nordeste. Para 2013, a previsão é de um novo recorde, de quase R$ 40 bilhões. O cálculo do Valor Bruto da Produção inclui os preços recebidos pelos produtores, que, obviamente, foram determinantes para o incremento da cultura no país. A reação veio especialmente a partir do segundo semestre de 2010, orientada pelo mercado mundial, que também ajudou a manter as cotações positivas em 2011 e 2012. “O bom desempenho do ano passado é resultado da quebra histórica nos Estados Unidos, da desvalorização do real, da safra cheia com preços recordes e do grande volume de exportação”, resume o analista Paulo Molinari, da consultoria Safras & Mercado.

Preços baixos ficaram no passado — Em 2010, até o mês de julho, os agricultores do Paraná, estado líder na produção de milho, recebiam entre R$ 13 e R$ 14 pela saca de 60 quilos. No ano seguinte, nesse mesmo intervalo, os valores variavam entre R$ 20 e R$ 23. Já no segundo semestre de 2012, as cotações médias ficaram entre R$ 23 e R$ 27. A explosão dos preços chegou a prejudicar o setor das carnes, que depende do grão para a alimentação animal. No ciclo 2012/2013, apenas esse segmento deve absorver 43,5 milhões de toneladas do cereal.

Na safra 2011/2012 o Brasil registrou uma produção histórica de milho – 72,9 milhões de toneladas – que superou a colheita da soja

Com lavouras em Palotina, Assis Chateaubriand e Brasilândia do Sul, o produtor paranaense Altair Demarco planejava, em meados de fevereiro, o plantio de 1,5 mil hectares com o milho na segunda safra. Junto com dois irmãos, na Agropecuária 3D, ele cultiva o cereal há quase 40 anos e lembra bem dos tempos das vacas magras. “Eu vi a saca do milho ser cotada a R$ 6, R$ 7. Felizmente, esse tempo ficou para trás, e a realidade de hoje é que o valor do cereal mudou. Existe disputa pelo grão e o Brasil tem cartas na manga nesse mercado”, salienta.

Se o clima ajudar, Demarco estima uma produtividade média entre 135 e 150 sacas por hectare, superando o resultado do ano passado, quando foram colhidas 115 sacas por hectare em 1.350 hectares cultivados. Mesmo que tenha havido alta nos custos nessa safra, o aumento da produtividade e os bons preços devem resultar numa rentabilidade entre 45% e 50% nas áreas cultivadas com o grão. Donos de uma estrutura de armazenagem com capacidade para 150 mil sacas, os irmãos Demarco têm conseguido negociar a saca a preços entre R$ 26 e R$ 27,50.

Com lavoura na região de Londrina/ PR, o diretor da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Otávio Fernandes Canesin, ampliou a área cultivada na segunda safra em torno de 30%. Os 350 hectares com o cereal foram plantados com um aumento de custos entre 20% e 25%, resultado do incremento nos preços do adubo nitrogenado e das sementes. Com a alta nas cotações do milho nos últimos dois anos, ele calcula que os produtores paranaenses obtiveram um aumento de até 30% na rentabilidade da lavoura levando em conta os atuais patamares de preços. “A expectativa é positiva, mas não temos como afirmar que esse resultado vai se repetir este ano”, observa.

Retorno em longo prazo — No Paraná foram plantados 845 mil hectares com milho na primeira safra, um recuo de 13% em comparação com o ano passado, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura do estado. A diminuição vem sendo comum nos últimos anos, em função do bom momento da soja e da possibilidade da segunda safra. A produção, no entanto, deve crescer de 6,6 milhões de toneladas para 6,9 milhões de toneladas, sustentada pelo incremento de 20% na produtividade média, calculada em 8.195 quilos por hectare. “Normalmente os produtores que decidem plantar na primeira safra são aqueles preocupados em fazer a rotação de culturas e que investem bastante para buscar o máximo retorno da lavoura”, constata a engenheira agrônoma do Deral Juliana Yagushi.

A primeira estimativa sobre a segunda safra revela uma intenção de plantio de 2,08 milhões de hectares, ou 2% a mais sobre o ano passado. “No Paraná, desde 2007 a segunda safra é cultivada numa área maior em comparação com a primeira safra”, menciona Juliana. Nesse momento de cotações positivas, a produtividade vem sendo um parâmetro importante para as decisões sobre a lavoura de milho. “Estamos acostumados a ouvir que a soja tem uma rentabilidade superior. No entanto, com médias altas de rendimento, ou seja, entre 9 mil ou 10 mil quilos por hectare, é possível que o produtor tenha uma rentabilidade maior no milho. Os bons preços motivados pela exportação ajudaram a redefinir o papel do milho para o produtor”, raciocina a agrônoma. Além do retorno financeiro imediato, ela destaca a importância do investimento em longo prazo, na saúde do solo. “O preço é o combustível do produtor, mas o benefício agronômico e ambiental também precisa fazer parte da conta”, ressalta.

Inovação na lavoura — Além da motivação que partiu dos preços, o produtor de milho encontrou estímulo na tecnologia para formar uma lavoura cada vez mais competitiva. “Há 10 anos ficávamos felizes colhendo 42 sacas por hectare de soja e 85 sacas por hectare de milho. Hoje, falamos em 65 sacas na soja e em 180 sacas no milho”, relata o paranaense Altair Demarco. A agricultura de precisão, que possibilitou o uso mais racional e uniforme dos fertilizantes, a biotecnologia, que ajuda a combater as lagartas, e o tratamento de sementes, que facilita o controle inicial das pragas, são apontados pelo agricultor como determinantes para o sucesso da cultura. “Os últimos três anos trouxeram uma mudança violenta para os cultivos do milho e da soja. Não precisamos de novas áreas para produzir, porque podemos triplicar a colheita na mesma área”, declara.

Nos planos do produtor estão investimentos futuros em irrigação e a projeção de alcançar, num curto prazo de tempo, médias de produtividade de 100 sacas de soja por hectare e de 300 de milho. Os agricultores que se propõem a utilizar sistemas mais tecnificados têm encontrado um número crescente de opções para a montagem de um esquema produtivo que seja mais adequado às suas condições econômicas e ambientais, avalia o economista João Carlos Garcia, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo. “O grande passo agora é a gerência deste processo, principalmente em áreas de sucessão soja-milho, ou de integração lavoura-pecuária, onde o manejo do sistema como um todo passa a ser mais importante”, considera.

Os últimos anos foram marcados pelo avanço tecnológico nas áreas da biotecnologia, da agricultura de precisão e do combate a pragas e doenças

O excesso de lavouras com predomínio da sucessão de soja no verão e milho no inverno preocupa pesquisadores e técnicos que trabalham na área. Na Agropecuária 3D, os irmãos Demarco acabaram optando por esse esquema produtivo justamente pela situação econômica das duas culturas e pela retração no mercado do trigo, que é opção para os meses de frio. O milho no verão também foi deixado de lado há quatro anos. No entanto, eles reconhecem os riscos que essa repetição pode ocasionar e pretendem rever suas decisões a partir da próxima safra. “Sabemos da importância da rotação, principalmente porque estamos lidando com problemas como a buva e o capim amargoso, que são plantas daninhas resistentes ao glifosato, mas que podem ser combatidas com um manejo mais adequado das áreas”, afirma Altair Demarco.

A tecnologia dos transgênicos dominou o mercado de sementes de alta produtividade nos últimos três anos. Levantamento da consultoria Céleres indica que as sementes geneticamente modificadas devem estar presentes em 12,2 milhões de hectares de lavouras de milho no ciclo 2012/2013, o que representa 76,1% da área total das duas safras. “Há cinco anos, a adoção de milho transgênico era de apenas 1,2 milhão de hectares. Comparado com o ano anterior, a adoção da biotecnologia terá crescimento de 1,5 milhão de hectares”, diz o relatório da Céleres divulgado em dezembro.

Potencial para produzir ainda mais — A possibilidade de ampliar os investimentos na lavoura com o emprego das novas tecnologias resultou em aumento da produtividade média no Brasil. Na safra 2001/2002, o rendimento era de 2.868 quilos por hectare. Para 2012/2013, a Conab estima que os produtores possam colher, em média, 4.930 quilos por hectare. Mesmo assim, ainda existe uma grande diferença entre a produtividade em diferentes regiões do Brasil, ressalva o pesquisador João Carlos Garcia. “Nas regiões em que a produção de milho tem características comerciais, geralmente a produtividade tem evoluído de forma rápida. Em outras regiões ou sistemas mais voltados para o abastecimento local ou da propriedade, a produtividade evolui de forma mais lenta. Existem ainda regiões em que as condições climáticas são restritivas para as lavouras de milho, como o Nordeste”, informa.

Nestes locais, aponta o economista, o desenvolvimento vem acontecendo em estados com menores restrições, como Sergipe, por exemplo, onde um crescente uso de insumos e de cultivares de milho com maior potencial produtivo tem possibilitado ganhos expressivos. “O mesmo ocorre nas novas fronteiras agrícolas, no Maranhão, Piauí e Tocantins, onde as lavouras comerciais impulsionam o crescimento das médias de produtividades estaduais”, completa Garcia.

A certeza é de que existe um grande potencial de crescimento de produtividade a ser explorado, já que há produtores que conseguem colher mais de 14 mil quilos por hectare. “O avanço, de uma forma geral, pode ser conseguido com o uso de tecnologias que já foram testadas e que necessitam ser difundidas entre os agricultores. No caso de produtores que já conseguem altas produtividades, ainda é possível o incremento. Entretanto, o melhor gerenciamento das lavouras passa a ser importante, tanto no que diz respeito à realização correta das operações agrícolas como na melhor eficiência no uso dos insumos”, recomenda.

Recuperação gaúcha — Em Ijuí, na região noroeste do Rio Grande do Sul, o produtor Joceli Noronha define como “cruel” o que ocorreu com a sua lavoura de milho na safra passada, quando uma forte estiagem afetou a agricultura gaúcha. Em vez dos normais 9 mil quilos de rendimento médio, ele conseguiu colher apenas 3 mil quilos por hectare nos 50 hectares cultivados. Esse ano, a área com o grão foi incrementada em dez hectares e, em meados de fevereiro, o produtor contabilizava uma produtividade média de 7,2 mil quilos – 120 sacas por hectare. “Tivemos alguns problemas com granizo e geada em setembro, mas o resultado é bom”, descreve Noronha.

Trabalhando com plantio direto há 30 anos, o produtor obedece a um esquema de rotação de milho e soja no verão, e trigo, canola e aveia branca no inverno. Além de manter a sustentabilidade do sistema, o agricultor investe em novas tecnologias todos os anos e reconhece que as inovações trouxeram mais tranquilidade para quem produz. A meta, segundo ele, é chegar aos 12 mil quilos por hectare na lavoura de milho nos próximos anos. “Hoje, temos milho resistente à lagarta, híbridos de alta qualidade e melhor manejo da adubação. Os nossos problemas são o clima e as oscilações do mercado”, argumenta.

Mesmo que os preços tenham pulado de R$ 14 a saca há dois anos para R$ 27 a saca agora, Noronha acha que o mínimo a ser pago pelo milho deveria ser de R$ 30 pela saca. Ele conta que os custos da sua lavoura passaram de 50 sacas por hectare na safra passada para 70 sacas nesse ciclo. “O produtor precisa ter estímulo para investir cada vez mais, e isso inclui medidas de apoio por parte do Governo, como um seguro agrícola que funcione com menos burocracia quando as perdas acontecem”, analisa. A propriedade de Joceli Noronha sediou a abertura da colheita do milho no Rio Grande do Sul, no início de fevereiro. Mesmo com uma redução na área plantada de 7,2%, para 1,03 milhão de hectares na safra 2012/ 2013, a Conab estima que a colheita gaúcha poderá aumentar 40,6%, para 4,7 milhões de toneladas do grão. A razão é a expectativa de alta na produtividade média, que poderá passar de 3 mil quilos para 4.550 quilos por hectare.

Produtor Joceli Noronha: objetivo é atingir os 12 mil quilos por hectare nas próximas safras na lavoura cultivada em Ijuí/RS

À espera de uma grande safra — Da gigante produção de 185 milhões de toneladas projetadas para o ciclo 2012/ 2013 no Brasil, o milho deverá participar com 76 milhões de toneladas, um incremento de 4,2% sobre 2011/2012, segundo a Conab. A área plantada é estimada em 15,4 milhões de hectares, alta de 1,6% sobre a temporada anterior. Mais uma vez, o destaque fica por conta da maior área da segunda safra, que era chamada de “safrinha” anos atrás. A pesquisa da Conab aponta para 7,149 milhões de hectares na primeira safra e 8,267 milhões de hectares na segunda safra, uma elevação de 8,5% sobre a área do ano passado.

Entre as razões para o incremento no segundo cultivo estão o regime de chuvas de algumas regiões e as variedades de soja mais precoces, que favorecem o calendário do produtor que planta a oleaginosa no verão e o milho em seguida. Por outro lado, a competição com a soja provocou uma queda de 5,4% na área plantada com milho na primeira safra, com destaque para a Região Centro-Oeste, especialmente os estados de Goiás e Mato Grosso. Na fazenda Planalto, em Costa Rica/MS, a última safra de milho cultivada no verão foi em 2006/2007. A propriedade, que fica a cerca de 20 quilômetros da divisa com Mato Grosso, é uma das 14 unidades da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos do país.

Nesta temporada, o milho cultivado na segunda safra vai ocupar 3,4 mil hectares. A decisão sobre o tamanho da área ocorre a partir da análise dos mercados do milho e do algodão. Em 2012, o cereal foi plantado numa área bem inferior, 967 hectares. Agora, com preços entre R$ 18 e R$ 20 a saca no início de fevereiro, a lavoura de milho da segunda safra tem uma margem de rentabilidade estimada em 15%.

O engenheiro agrônomo Gustavo Gianluppi, gerente da fazenda Planalto, lembra que a região conhecida como Chapadão do Baús, no nordeste do Mato Grosso do Sul, chegou a cultivar perto de 35 mil hectares de milho na primeira safra em 2007/2008. Hoje, no entanto, a área é de cerca de 5 mil hectares. “O aumento da segunda safra veio acompanhado pela incorporação de tecnologia, com híbridos mais precoces, sementes transgênicas e um melhor controle de doenças. A produtividade, que ficava entre 60 e 70 sacas por hectare, agora tem média de 110 sacas por hectare. Nos últimos dois anos, o preço também melhorou muito, tanto que, para produtividades acima de 200 sacas por hectare, o milho vale mais do que a soja. Hoje, o milho representa lucro para o produtor, além de ser uma ótima opção para a rotação de culturas, ajudando na supressão do mofo branco, por exemplo”, sustenta.

Nas últimas safras, a média de rendimento na fazenda Planalto foi de 109 sacas por hectare. A meta é atingir entre 140 e 150 sacas por hectare num período de cinco ou sete anos. “Já chegamos a esse volume quando tivemos chuva atípica no início de maio. É o que os produtores chamam de ‘chuva do milhão’”, cita Gianluppi.

Logística é o maior desafio — A SLC vai cultivar milho em 49,7 mil hectares – 35,2 mil hectares na segunda safra – na temporada 2012/2013, com estimativa de colheita de 360,6 mil toneladas. No ciclo anterior, o cereal ocupou 35,1 mil hectares e produziu 275,4 mil toneladas nas terras da empresa. Entre 25% e 30% do milho colhido pela SLC é destinado ao mercado externo. Para 2014, a empresa ainda não tem uma projeção sobre a área que será cultivada com milho. A tendência é que ocorra um novo incremento, mas em índice inferior ao que foi registrado no atual ciclo.

A primeira safra é plantada na Bahia, em Goiás e no Maranhão, enquanto a segunda safra é cultivada no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul. “Essa é uma opção que passa também pelo fator logística, que, na minha opinião, é o principal entrave para a produção de milho no Brasil. O cereal tem rendimento bem superior ao da soja e acaba perdendo competitividade pelas deficiências na estrutura de escoamento do país”, examina o diretor de Produção da SLC Agrícola, Gerson Trenhago.

O pesquisador João Carlos Garcia, da Embrapa Milho e Sorgo, tem uma opinião semelhante. “Embora os resultados obtidos na última safra tenham demonstrado que os gargalos existentes não foram empecilho para o escoamento do milho, inclusive com o surgimento de opções interessantes de portos, o transporte do cereal dos principais locais de produção para os portos e para regiões consumidoras ainda é motivo de preocupação para o crescimento futuro da produção no Brasil. Estas dificuldades têm sua solução de forma gradativa, mas as ações devem ser contínuas”, pontua.

O economista lembra que o Brasil ocupava uma situação de exportador ou importador eventual nas décadas de 80 e 90. A partir da década passada, gradativamente se firmou e se tornou um exportador confiável de milho. “Conquistamos compradores dos Estados Unidos e da Argentina, países que, por diferentes fatores, demonstraram que estão gradualmente se retraindo do mercado exportador do cereal. A confiança conquistada não pode ser perdida e este é o desafio dos próximos anos”, frisa.

Pesquisador João Carlos Garcia, da Embrapa Milho e Sorgo: confiança conquistada no mercado internacional não pode ser perdida

Ponto de interrogação — Mato Grosso é o segundo no ranking dos estados produtores de milho. Em função das chuvas, o plantio atrasou e, até a segunda quinzena de fevereiro, 41% da área de 2,8 milhões de hectares estimada para a segunda safra havia sido plantada. Na mesma época do ano passado, os trabalhos haviam sido finalizados em 56,7% da lavoura. O ideal é que o cereal seja plantado até 25 de fevereiro no estado. A área estimada para a segunda safra representa um incremento de 11,2% sobre o cultivo de 2012, de acordo com o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). O milho ocupa 36% da área cultivada com a soja na safra de verão, e o restante recebe outras culturas, como algodão e girassol.

O analista do Imea Cleber Noronha lembra que o grande salto na produção do estado foi da safra 2010/2011 para 2011/2012, quando houve um aumento de 43% no cultivo. “A safra de 2012 começou a ser negociada em 2011, fato que nunca havia ocorrido no Mato Grosso. Em setembro daquele ano, quase 30% da colheita estava negociada com valores médios acima de R$ 20 a saca. Era um preço bem atrativo, que estimulou o cultivo”, assinala. Na segunda quinzena de fevereiro, os preços do cereal no mercado mato-grossense variavam entre R$ 18 e R$ 19 a saca. A comercialização este ano está mais lenta, em comparação com 2012. Enquanto no mês passado a venda chegava a 17,6% da safra futura, na mesma época de 2012 os negócios chegavam a 42,6%. “O milho do Mato Grosso chega ao mercado no segundo semestre, e os preços futuros não estão tão atrativos”, justifica Noronha.

As percepções sobre o que pode ocorrer na segunda metade do ano cercam de incertezas o milho brasileiro. Especialmente no ano passado, as cotações foram favorecidas devido às exportações, que atingiram um recorde de 19,77 milhões de toneladas. No período da safra 2011/2012 (fevereiro de 2012 a janeiro de 2013), foram exportadas 22,3 milhões de toneladas, um volume surpreendente em relação as 9,3 milhões de toneladas negociadas em 2010/2011. Com o desempenho, o Brasil superou a Argentina e se posicionou como segundo maior exportador, atrás apenas dos Estados Unidos. Para o período 2012/ 2013, a Conab estima vendas externas de 15 milhões de toneladas.

As vendas do ano passado supriram uma lacuna deixada no mercado mundial. Quebras na safra da América do Sul e a perda histórica de cerca de 100 milhões de toneladas na colheita dos Estados Unidos direcionaram a atenção dos compradores internacionais para o Brasil e sustentaram em alta os preços da commodity no mercado interno.

Para o economista João Carlos Garcia, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, um fator anterior à quebra na safra americana também mexeu com o mercado. “O crescente uso do milho para produção de etanol, nos Estados Unidos, provocou desequilíbrios que reduziram os estoques por lá e criaram uma situação de incerteza constante, com relação à capacidade deste país em continuar atendendo às necessidades de milho do mercado internacional. Esta situação cria espaço para a elevação dos preços do cereal, colocando- o em um novo patamar, subindo de cerca de US$ 100 por tonelada no início da década passada para cerca de US$ 280, atualmente”, enumera.

Definição passa pelos norte- americanos — O plantio nos Estados Unidos inicia no final de abril, e a tendência é que os produtores norte-americanos se sintam estimulados a incrementar a área plantada e a recuperar as perdas de 2012. Ao mesmo tempo, o Brasil deve ter um novo recorde produtivo, tanto de milho quanto de soja. A estrutura de armazenagem e transporte do país é deficitária e terá dificuldades para sustentar o escoamento da grande produção. As vendas externas do milho brasileiro são direcionadas para a segunda metade do ano, o que pode coincidir com a comercialização do grão norte-americano. Todas essas variáveis podem impactar para baixo as cotações do cereal.

Gerson Trenhago, diretor de Produção da SLC: milho acaba perdendo competitividade pelas deficiências na estrutura de escoamento

No entanto, com os estoques apertados, se ocorrer uma frustração de safra devido a problemas climáticos, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil, os preços novamente poderão subir. “Vale lembrar que a última safra colhida nos Estados Unidos foi a terceira seguida em que se verificou redução de produtividade em relação à anterior. A probabilidade de uma quarta ocorrência como esta é pouco provável e deve-se esperar uma recuperação da quantidade produzida. Entretanto, como os estoques estão muito baixos, a capacidade dos Estados Unidos voltarem ao mercado exportador, com os quantitativos anteriores, fica dificultada”, explica Garcia.

A conjuntura acende uma luz amarela para o milho brasileiro, define o produtor Otávio Canesin, diretor da Abramilho. “É no segundo semestre, quando se abre a janela para exportação e quando saberemos o tamanho da safra americana, que teremos uma melhor definição sobre o comportamento dos preços. O mercado interno tem uma certa tranquilidade de abastecimento e, por isso, o Brasil continua com a expectativa de poder exportar uma grande quantidade do cereal”, conclui. Na opinião do dirigente, seria ótimo se o país conseguisse manter as vendas externas nos mesmos volumes de 2012. “Mas acredito que teremos uma posição confortável de oferta e demanda se as exportações ficarem em torno das 15 milhões de toneladas neste ano”, acrescenta.

Basicamente, o Brasil somente é competitivo na exportação a preços recordes, concorda o analista Paulo Molinari, da Safras & Mercado. ”Por isso, o mercado internacional é a chave do mercado interno. Sem exportação, há sobras internas incompatíveis com a demanda. O consumo interno cresce naturalmente de acordo com a velocidade de expansão de cada segmento. A questão é que a produção de milho tem crescido a uma velocidade muito superior”, acentua. A consultoria projeta, de forma preliminar, uma safra de 70,7 milhões de toneladas para o milho este ano. A estimativa para os embarques ao exterior também são mais discretas em comparação com os números da Conab. Para a consultoria, as vendas devem ficar em torno de 12,5 milhões de toneladas. “Somente uma perda de safra nos Estados Unidos poderia manter as vendas do Brasil em crescimento”, menciona Molinari.