O Segredo de Quem Faz

 

As experiências de uma JOVEM liderança

Thais D’Avila

A trajetória de Alex Nobuyoshi Utida até concluir a faculdade foi semelhante a de muitos jovens: precisou deixar a casa dos pais para cursála numa cidade distante. De Campo Novo do Parecis/MT voltou ao local de origem da família para cursar a Universidade Estadual de Londrina/PR. Filho de dois advogados, Utida seguiu igual formação acadêmica e, depois, o mesmo destino: cuidar dos negócios rurais da família no município. Mas as semelhanças acabam por aí. Hoje, apenas aos 28 anos, Utida se destaca pela liderança exercida entre os produtores. É o mais jovem presidente de um sindicato rural do estado e integra a direção de uma importante entidade, a Associação dos Produtores de Milho e Soja do MT (Aprosoja/MT). “Na Aprosoja eu sempre fui muito bem aceito junto dos produtores que tinham, em média, o dobro da minha idade”, revela.

A Granja – Hoje, a sucessão familiar é um problema em grande parte das propriedades. Como foi a sua estrutura, o seu desenvolvimento desde a infância, para que houvesse essa tomada de decisão de permanecer nos negócios da família?

Alex Nobuyoshi Utida – Nós tínhamos propriedade no Paraná, meu avó era cafeicultor lá. Veio pra cá com meu pai, em 1979, e comprou as áreas aqui no Campo Novo do Parecis. Depois disso, meu pai casou e veio morar pra cá com minha mãe. Eu nasci em 1984, hoje tenho 28 anos, sou o mais velho entre eu e duas irmãs. Uma é médica, mora em São Paulo, e a outra está no quarto ano do curso de Direito, em Franca/SP. Atualmente, a nossa empresa é composta por três irmãos (meu pai e meus tios). É uma típica empresa familiar. Eu cresci vendo meu pai fazer negócios. Ele sempre me carregava quando ia no banco, nas empresas, para negociar produto. Desde muito jovem, eu sempre queria saber o que estava acontecendo. E meu pai sempre me levou pra acompanhar e aprender. Foi fundamental eu me interessar pelos negócios da família e acompanhar meu pai nos negócios que eram feitos.

A Granja – Você optou pela Faculdade de Direito e, mesmo assim, preferiu atuar nos negócios agrícolas?

Utida – Nós, como somos de família japonesa, sempre primamos pelo estudo. Meus pais são formados em Direito, um de meus tios é agrônomo e outro veterinário. A questão do estudo é muito valorizada. A gente sempre procurou mandar a geração subsequente pra estudar num lugar melhor. Isso aconteceu muito com as famílias daqui, mandar os filhos pra fora. Muitos estão voltando e outros acabaram indo para outros caminhos e não estão voltando mais. Me formei em Direito em 2006. Quando me formei, lá em Londrina, eu fazia parte de um escritório de advocacia, era sócio já. Era um escritório pequenino. E quando me formei tive duas opções. Ou voltava para o Mato Grosso, que é um estado que eu sempre via com muito futuro e condição favorável de crescer. Tem tudo por ser feito ainda. Falta estrutura, falta bom profissional, onde falta tudo tem oportunidade para quem quer trabalhar e crescer. A outra opção era São Paulo. Um lugar que tem muita gente, muito talento, tudo é superlativo. Só que, se eu estivesse em São Paulo logo após formado, eu teria perdido essa raiz rural.

A Granja – E como foi o retorno a Campo Novo do Parecis após o término da faculdade? O que fez você decidir pela gestão dos negócios em vez de exercer a advocacia?

Utida – Eu cheguei em Campo Novo e trabalhei com advocacia. E ajudava meu pai na fazenda. Não conseguia tocar as duas coisas junto. Ou eu fazia um bem feito ou fazia outro. Mas encontrei meu chão aqui na fazenda. Tive sorte de ter uma família que confia em mim, que me permitiu cometer alguns erros, no sentido de entregar algumas decisões para que eu fizesse. Essa é a dificuldade muito grande de alguns colegas, que também voltaram pra trabalhar na empresa, mas que muitas vezes não conseguem; os pais não dão espaço para fazer nada. Isso nunca aconteceu comigo, desde o início eu tive voz dentro do negócio, eu tive condição de me posicionar, deixar minha opinião, mesmo que não fosse algumas vezes acatada, e fazer as coisas e assumir as responsabilidades por aquilo. Nesse espaço, as pessoas me respeitam, isso é muito bom. Graças a nossa própria estrutura, de oportunidades. Eu considero isso como uma grande oportunidade que a minha família me deu. Na época, em 2007, pegamos um período de muita crise, tinha acabado de acontecer o caminhonaço, a gente tinha histórico de dívida muito alto, renegociações, eu peguei o negócio na fazenda em uma situação muito complicada em relação ao momento que a agricultura vivia. E nesta crise, que parecia externa, começamos a perceber que havia problema também dentro do nosso negócio, questões familiares que precisavam ser resolvidas. Começamos a buscar consultorias e exemplos em outros grandes grupos que superaram dificuldades. E, através destes bons exemplos, a gente foi atrás de consultorias que hoje nos ajudam e orientam como deve ser feito. De lá pra cá, viemos trabalhando bastante, hoje temos praticamente quatro grandes consultorias, agronômica, jurídica, financeira e de gestão (para governança e sucessão). Uma das coisas que a gente fez, há dois anos, foi separar tudo o que é pessoal do que é da empresa. Carros, gastos pessoais, era tudo misturado. A gente não tinha controle específico do que era pessoal e do que era para o negócio. Hoje, cada um tem um veículo particular e o veículo da empresa é para usar no negócio. Isso foi um divisor de águas. Fizemos um processo de sucessão, em termos de criação de uma pessoa jurídica, e criamos um modelo de governança. Hoje, nós temos um conselho de administração que se reúne uma vez por mês para discutir questões estratégicas, analisar contas, ver se tudo está indo bem e definir o futuro da empresa.

A Granja – E de que forma encontrar os negócios em crise contribuiu para você entrar nos movimentos classistas, que acabou no fato de você se tornar o mais jovem presidente de sindicato rural do Mato Grosso?

Utida – A minha família sempre foi participativa nas questões classistas, meu pai foi participativo nas associações de soja, algodão, sindicato… isso é um perfil da nossa família. Meu pai sempre me incentivou a participar. Em 2007 houve uma enxurrada de ações judiciais e o sindicato deu uma ajuda muito grande. Eu tinha o lado jurídico e tinha a questão de casa que vivia o mesmo processo. O contato com os produtores era bastante fácil. Isso tudo dentro do sindicato. Por causa desta relação de orientar os produtores, me convidaram. Em 2009 participei da chapa – pensei “vamos lá ajudar”. E entrei como vice-presidente. Em 2011, o presidente Odenir Ortolan faleceu e eu assumi a presidência, sendo eleito diretamente em 2012. E na Aprosoja (região Oeste), desde que começou aqui, eu sempre fui muito bem aceito junto dos produtores que tinham, em média, o dobro da minha idade. Eu tinha 23 anos, mas o pessoal sempre confiou bastante. Tanto dentro da família quanto fora. Logo no início eu fui delegado da Aprosoja, que é um representante da entidade na região. Dois mandatos, quatro anos. E em 2011 pra 2012 fui eleito vice-presidente da Aprosoja Oeste. A gente foi participando das reuniões, dava opiniões, viajava, as coisas foram acontecendo naturalmente, e foi um grande aprendizado. Porque a gente tem contato com produtores que são exemplos, modelos, a maior parte deles muito bem-sucedida. A gente acaba tendo um parâmetro muito bom. É um ganha- ganha muito grande.

A Granja – Como presidente do Sindicato Rural de Campo Novo do Parecis, qual você diria que é o principal desafio? Como uma liderança local pode colaborar num dos principais problemas da região, que é a questão logística?

Utida – Este início de ano estávamos reunidos com prefeitura, com produtores, porque tem produtor perdendo soja por haver caminhões atolados na saída da rodovia municipal. A gente estava negociando uma parceria entre a prefeitura e os produtores. O produtor daria o óleo diesel e o cascalho e a prefeitura faria o serviço e levaria as máquinas para deixar a estrada minimamente trafegável. O sindicato ganhou uma representatividade muito grande participando de muitos conselhos do município – segurança, saúde, educação… tem uma participação para efetivamente colocar a posição dos produtores dentro destes conselhos. Mandamos mensagens para o celular do produtor. Realizamos reuniões mensais. Tentamos criar uma estrutura de comunicação, email, mensagem, rádio, para realmente juntar os produtores. Eu acredito que essa união não é fácil. O produtor não está acostumado a isso, mas nos últimos anos temos conseguido melhorar isso. Eu tenho a perpercepção de que a própria imagem do produtor frente à população melhorou. E isso é fruto das associações, da mobilização e da força de todo o setor que está nesta base, nesta mobilização. Ainda sobre a questão logística, a gente tem demandas, entendemos que isso não é resolvido de uma hora pra outra. Estamos vivendo um apagão logístico. No Brasil, especificamente no Mato Grosso, o agro cresce entre 10% e 12% ao ano, mais do que a média brasileira. E a nossa infraestrutura não acompanhou isso. As estradas que temos são as mesmas e a produção aumentou muito. Apesar da evolução da riqueza no estado ter aumentado muito, toda a infraestrutura da estrada, porto, continua basicamente a mesma. Isso pra nós é o maior gargalo. É o nosso calcanhar de Aquiles. E muitos atrasos acontecem por causa da burocracia. Os prazos dos entes públicos têm que ser razoáveis. Tem dinheiro pra investir em tudo isso, pra fazer a logística que precisamos, entretanto, alguns motivos de falta de estrutura o estado não consegue dar vazão.

A Granja – E como é liderar os produtores rurais de Campo Novo dos Parecis?

Utida – Campo Novo tem a peculiaridade de ser o maior produtor de girassol do Brasil, maior produtor de milho pipoca do país, com 60% da produção nacional saindo daqui. Temos 360 mil hectares de soja, 150 mil hectares de milho e 35 mil hectares de girassol, o equivalente a 55% da produção brasileira. A segunda safra de Campo Novo é a segunda safra mais diversificada do Brasil. Temos dois grandes eventos, graças ao perfil do produtor daqui, que gosta de tecnologia e novidade. Um é a Parecis Superagro, feira organizada pelo sindicato rural há seis anos. Tem dado muito certo. É uma feira tecnológica que fomenta a difusão da tecnologia na agricultura e a diversificação da segunda safra em geral. A partir da feira houve um boom muito grande de diversas outras culturas. A gente, por ter um clima apropriado para girassol e milho pipoca acabou diversificando e tendo mais segurança para o produtor. O outro evento é a exposição Expocampo, que tem caráter mais festivo, com rodeios e shows. Junto do Parecis Superagro existe ainda um evento paralelo que é o Festival do Milho e Cinepipoca. Montamos um cinema no parque, distribuímos pipoca e derivados de milho. É uma festa!

Granja – De alguma forma você encontrou resistência em ser liderança por ser mais jovem?

Utida – Minha família, em especial o meu pai, sempre traçou uma linha de muita seriedade, de muita honestidade. Uma parte disso eu herdei e facilitou meu trânsito entre os produtores de mais idade. As pessoas viram em mim o perfil que queriam naquele momento. Mas muito disso era por ter o suporte da família. A minha geração é muito privilegiada. É uma geração que, quando começou a trabalhar, já começou num patamar mais elevado, por ter o suporte e o apoio da família, que é uma coisa que nem todo o mundo tem o privilégio de ter. Estudamos em bons colégios e tivemos uma oportunidade de entrar no negócio já preparados. A única coisa que eu mudaria – e é meu conselho para os mais jovens – seria ter ido para o mercado de trabalho antes de ir para o negócio da família. Eu considero importante uma experiência de mercado, para conhecer uma cultura diferente e poder trazer isso como uma experiência, uma coisa boa para o negócio familiar. Hoje, eu tenho experiências de entidades, de empresas de amigos que a gente tem, mas eu nunca trabalhei em outra empresa efetivamente. A minha visão é um pouco diferente. O ideal é ir pro mercado antes.