Eduardo Almeida Reis

 

TIPOS INESQUECÍVEIS

Eduardo Almeida Reis

Houve tempo em que todo mundo lia Seleções, onde havia uma seção chamada Meu tipo inesquecível. Com o passar dos anos – e no meu caso foram muitos anos –, o sucesso daquela revista arrefeceu, pelo menos no meio em que transito. Ainda me lembro de um artigo que li em menino, perdi meu exemplar de Seleções e pelejei durante anos para conseguir cópia do texto. Até para Portugal escrevi uma carta (não existia internet), recomendado por amigo comum, pedindo sem sucesso à diretora da revista que me mandasse cópia do texto.

Era artigo que falava de um livro, hoje traduzido para o português, que recomendo vivamente. Tem resumo no Google em PDF procurando “Edward T. Hall – A Dimensão Oculta”, como também se encontra o livro publicado em português pela Martins Editora. Um espetáculo! Entre outras coisas, explica por que muita gente não gosta de elevador cheio, quando há estranhos invadindo nossa área íntima, reservada para as pessoas amadas – a área do abraço e do beijo. Também explica por que trocamos ideias com os choferes dos táxis, que ficam na área “obrigatória” do papo com os passageiros, de até 1,5 metro de distância. E o negócio vai por aí, mas não quero tirar do leitor de A Granja o prazer de ler o livro.

Nossa conversa de hoje tem a ver com os tipos inesquecíveis que encontramos nas fazendas brasileiras, que se vestem e se comportam de acordo com os animais que exploram. É o que os franceses chamam de avoir le physique de l’emploi (ter o físico adequado à situação). Conheci um médico enriquecido como dono de hospitais que resolveu criar bois, importou vacas holandesas do Canadá e trouxe com elas um chapéu Stetson, tipo caubói, de feltro cinzento, o tipo do chapéu impróprio para o calor brasileiro.

Por aqui, só pode ser usado na divisa do RS com SC, município de São José dos Ausentes, de clima parecido com o do Canadá. Amigo meu foi julgar exposição de bovinos na província canadense de Alberta e a temperatura ambiente andava pelos 44ºC negativos.

Nas exposições do Vale do Paraíba, o médico vivia tirando o Stetson da cabeça, como se cumprimentasse as pessoas, mas descobri que era para refrescar a moleira. Não lhe posso dizer o nome, porque tive com ele boas relações de amizade, mas que era divertido, era.

Quando seus negócios hospitalares foram de grota, vendeu a fazenda para um português enriquecido no ramo dos transportes, sujeito simpático que tinha um helicóptero, veículo raro naquele tempo. Sua primeira providência rural foi mandar o piloto pousar na pista em que se realizava uma exposição de cavalos mangas-largas marchadores, único “heliponto” existente numa região de muitos morros do estado do Rio.

Resultado: a tropa estourou e tem manga-larga sumido até hoje. O dono do helicóptero só não foi morto porque havia entre os criadores um fazendeiro que o conhecia e conseguiu segurar os companheiros. Hoje, presumo que helicópteros sejam veículos comuns nas fazendas, mas naquele tempo assustavam cavalos, vacas, empregados e visitantes.

Avoir le physique de l’emploi muito divertido foi também o que aconteceu com centenas de brasileiros quando começaram a criar por aqui a excelente raça quarto-de-milha, de cômodo meio descômodo, mas muito mansa. Em mil novecentos e antigamente estive numa exposição paulista da ABQM, já então raça muito difundida em São Paulo, e fiquei impressionado com o número de caubóis que havia entre os criadores.

A começar pelas botas bicudas, de saltos altos, o pior tipo de calçado que existe, mas “faz parte”. A partir da botabicuda, calça jeans apertada, fivela imensa e chapéu de caubói: havia dezenas assim pilchados. Pilcha, do platino pilcha, “mulher querida”, também poncho ou chiripá, deu-nos pilchado.

Na flor dos meus 11 aninhos, pela festa de fim de ano do curso de admissão ao ginásio, fui empilchado com as roupas cedidas pela viúva de um general gaúcho, senhora muito decidida, que transportava na bolsa uma pistola Mauser transformada em metralhadora, quando acoplada ao coldre de madeira.

Com a filha e o genro, a viúva sempre passava o réveillon lá em casa. No foguetório da meia-noite, montava a metralhadora e disparava rajadas para os céus do Rio. Os tempos eram outros. E muito menos violentos que os atuais.