Florestas

 

Possibilidades econômicas da floresta
AMAZÔNICA

Beto Veríssimo, cofundador e pesquisador sênior do Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia

A Amazônia é a maior floresta tropical do planeta, com mais de 6 milhões de quilômetros quadrados. Embora em grande parte brasileira, a Amazônia também se distribui entre outros oito países da América do Sul: Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. É uma floresta luxuriante, onde se pode encontrar mais de 450 árvores por hecta- Beto Veríssimo, cofundador e pesquisador sênior do Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia re. Estima-se que abrigue mais de 3 mil espécies de árvores de grande porte (as mais altas chegam a 50 metros de altura), das quais pelo menos 350 têm valor comercial – como o cedro, o freijó, o ipê maçaranduba e o jatobá.

A Amazônia tem aptidão para a atividade florestal sob manejo, pois possui grandes estoques de madeira e produtos não madeireiros de alto valor comercial

Essa floresta desempenha um papel vital na conservação da biodiversidade (a maior do mundo), na manutenção dos ciclos hídricos, no arma- A Amazônia tem aptidão para a atividade florestal sob manejo, pois possui grandes estoques de madeira e produtos não madeireiros de alto valor comercial zenamento de estoques de biomassa e carbono e na regulação do clima regional e global. Os cientistas temem que, se o desmatamento passar de 30% do território (atualmente está em torno de 18% no lado brasileiro), a floresta estará condenada a entrar em um ciclo de “savanização” sem volta. As consequências seriam catastróficas para o planeta e as perdas seriam incalculáveis para o Brasil.

Lar de 33 milhões de pessoas, 24 milhões delas só na porção brasileira, a Amazônia tem grande potencial econômico, com vastos recursos minerais e energéticos. Seus rios caudalosos, os maiores do mundo, possuem enorme potencial hidrelétrico. E as florestas em si contêm recursos naturais de valor (madeira, óleos, fibras, resinas, frutos, etc.). Apesar disso, a região ainda convive com índices de pobreza e desigualdade incompatíveis com sua importância regional e planetária.

A Floresta Amazônica está em um momento decisivo de sua história. O desmatamento avança rapidamente. Em pouco mais de três décadas de ocupação, a Amazônia brasileira perdeu quase 18% de sua floresta original. Além disso, uma porção expressiva da região está afetada por atividades que contribuem para a degradação dos recursos naturais, como a exploração madeireira, os incêndios florestais e a expansão das áreas urbanas.

Para enfrentar o desmatamento são necessárias três abordagens complementares. Primeiro, valorizar a floresta tanto pela sua função de mercado quanto por seu papel primordial no equilíbrio do clima e na manutenção da biodiversidade. Segundo, ordenar a ocupação do território por meio da criação de áreas protegidas, da regularização fundiária, do controle do desmatamento e da responsabilização (punição efetiva) dos desmatadores ilegais. Finalmente, valorizar economicamente a floresta com o uso sustentável dos recursos madeireiros e não madeireiros, bem como assegurar que produtos do seu subsolo (minérios) e dos rios circundantes (potencial hidrelétrico) possam gerar de fato oportunidades de desenvolvimento regional sustentável. Isso porque é possível abrigar toda a atividade agropecuária no imenso território já desmatado de mais de 78 milhões de hectares – uma área equivalente aos estados de Minas Gerais e São Paulo juntos.

Na questão do uso sustentável da floresta, é essencial considerar a adoção do manejo florestal para produção de madeira e produtos não madeireiros como uma das estratégias para manter a floresta em pé. A extração e o processamento de madeira é o segmento de maior importância na economia regional, embora o extrativismo não madeireiro esteja atravessando um boom para algumas espécies - como o fruto do açaí, que tem destaque para a região do estuário do rio Amazonas e para milhares de extrativistas que vendem esse fruto nos diversos mercados.

O setor florestal madeireiro — A Amazônia tem aptidão para a atividade florestal sob manejo, pois possui grandes estoques de madeira e produtos não madeireiros de alto valor comercial e uma localização estratégica para os mercados nacional e internacional. Esses fatores vêm contribuindo para uma rápida expansão da atividade madeireira na região. Em 2010, a produção de madeira em tora na Amazônia brasileira atingiu 14 milhões de metros cúbicos, o que torna a região um dos principais centros produtores de madeira tropical do mundo (ao lado da Malásia e da Indonésia).

Mas é essencial que a extração seja feita de forma manejada, com uso de técnicas modernas de corte e arraste de árvores. Em 2010, a área ocupada por manejo florestal já superava 7 milhões de hectares (em 2000, era de menos de 1 milhão), dos quais cerca de 2,4 milhões de hectares eram constituídos por florestas certificadas de acordo com os padrões do Conselho de Manejo Florestal (FSC), o mais importante sistema de certificação desse setor no mundo. Apesar dos avanços, mais da metade da produção de madeira ainda é feita de forma predatória.

Como revelado pela iniciativa “Florestabilidade” (www.florestabilidade.org.br), o manejo florestal reduz os impactos ecológicos da exploração, aumenta a capacidade de regeneração da floresta e possibilita ciclos de corte bem menores. Além disso, o manejo diminui a incidência de acidentes de trabalho e melhora a rentabilidade do setor florestal. De fato, os lucros da exploração madeireira sob o regime do manejo florestal são maiores se comparados às operações de extração predatória.

Na equação de uso sustentável e conservação dos recursos naturais na Amazônia, a adoção do manejo florestal pode contribuir para a estabilidade econômica da região ao gerar renda, empregos e tributos com base na floresta em pé. Se combinados os benefícios socioeconômicos do manejo florestal com o pagamento de serviços ambientais (como, por exemplo, no âmbito do mecanismo de REDD - Redução das Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal), seria possível reduzir drasticamente o desmatamento nos próximos anos e eliminá- lo da dinâmica de uso da terra na Amazônia até o final da próxima década.

O futuro do manejo florestal — Para estabilizar o setor madeireiro e promover a adoção do manejo florestal, é necessário realizar quatro intervenções. Primeiro, é essencial incentivar a adoção de boas práticas de manejo por meio de fomento e instrumentos econômicos. Segundo, é preciso capacitar e divulgar amplamente as técnicas do manejo florestal, a exemplo do que começa a fazer o projeto Florestabilidade, que atingirá milhares de estudantes e extrativistas na região.

Terceiro, é necessário coibir a extração ilegal de madeira por meio de um sistema de controle e monitoramento. Por fim, é necessário implementar com celeridade as concessões florestais – com base na lei de gestão de florestas públicas em vigor no Brasil desde 2007.

Embora a produção de madeira e, mais recentemente, de frutos como o açaí seja o carro-chefe da economia florestal, é muito provável que os serviços ambientais gerados pela manutenção da floresta em pé (regulação do clima, conservação das bacias hidrográficas, armazenamento de imensos estoques de carbono), combinados com o manejo de produtos não madeireiros, possam crescer de forma substantiva na próxima década. Se isso ocorrer, haverá fortes incentivos econômicos para a conservação e o uso sustentável da floresta.