Fitossanidade

 

O MONITORAMENTO tem as respostas

A presença de insetos no arrozal nem sempre compromete o retorno econômico da lavoura, sem contar que uma população pequena, em determinada fase de desenvolvimento da plantação, pode nem ao menos afetar a produtividade

Thais Fernanda Stella de Freitas, Felipe de Oliveira Matzenbacher e Augusto Kalsing, engenheiros agrônomos, M. Sc. Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), [email protected]

Insetos que se alimentam das plantas cultivadas (chamados de fitófagos) podem se tornar pragas em qualquer sistema agrícola. No Rio Grande do Sul, a cultura do arroz irrigado é hábitat de alguns insetos que, quando em altas populações, tornam-se pragas, causando perda de rendimento de grãos e prejuízo para os produtores. Deve-se ter em mente, entretanto, que não é a simples presença destes insetos que diminui o retorno econômico da lavoura. Além de uma população mínima, a fase de desenvolvimento em que o inseto ocorre na lavoura muitas vezes não coincide com a fase em que a cultura é suscetível ao dano.

O percevejo-do-grão é um sugador que causa prejuízo ao rendimento de grãos do início do enchimento até estarem na fase de massa mole

Por isso, é essencial que o produtor e/ou sua equipe realizem o monitoramento destes insetos, percorrendo a lavoura e realizando amostragens durante todo o ciclo de desenvolvimento da cultura. Essa é a chave para um bom manejo integrado de pragas: o acompanhamento da população, desde antes da instalação da lavoura até o momento da colheita, aliado ao conhecimento dos ciclos dos insetos e da planta de arroz. Além disso, a observação de alguns hábitos dos insetos pode facilitar a amostragem. A seguir, uma breve descrição dos insetos mais frequentes nas lavouras de arroz irrigado no Rio Grande do Sul:

Bicheira-da-raiz/gorgulho aquático (Oryzophagus oryzae): é a praga mais importante no estado, presente em todas as regiões. O inseto entra na lavoura na forma adulta, quando é um gorgulho, após a irrigação dos quadros. Alimenta-se das folhas, causando uma pequena raspagem no limbo foliar, longitudinalmente, entre as nervuras. Esta pequena raspagem é importante apenas para lavouras cultivadas no sistema prégerminado, quando as plantas atacadas são muito jovens. Em lavouras semeadas em solo seco, a entrada da água ocorre no início do perfilhamento, e a alimentação do adulto não é prejudicial às plantas. Depois da alimentação, os gorgulhos acasalam e fazem posturas na bainha das folhas, nas partes submersas das plantas.

Diferente das lagartas desfolhadoras, a lagarta-dapanícula é prejudicial à produção de arroz na fase final do ciclo, mais próxima à colheita

As larvas surgem cerca de uma semana após a oviposição, descem ao sistema radicular e dele se alimentam até completarem aproximadamente 30 dias. Este é o melhor momento para a realização de uma amostragem, pois é quando as larvas atingem o tamanho máximo. A técnica recomendada consta em retirar amostras de raízes de 10 centímetros de diâmetro e agitá-las em um balde com água. Se houver larvas, estas se desprendem das raízes e aparecem na superfície da água. Segundo as recomendações técnicas para a cultura do arroz irrigado (Sosbai, 2012), a presença de até cinco larvas por amostra não causa redução no rendimento de grãos.

A bicheira-da-raiz está presente na lavoura durante todo o período em que o solo fica inundado. Contudo, as plantas são suscetíveis ao seu dano apenas até o estádio de diferenciação da panícula, que é o início da formação da estrutura floral do arroz – conhecido pelos produtores por ser um estádio importante para realização de algumas práticas de manejo. Após o florescimento, mesmo encontrando adultos e larvas na lavoura, o produtor não precisa mais se preocupar com medidas de controle, pois o dano à cultura já foi realizado.

Percevejo-do-colmo (Tibraca limbativentris): é um inseto sugador que, quando introduz o estilete para se alimentar, injeta sua saliva tóxica, que causa o estrangulamento do colmo e interrompe o fluxo de seiva, levando à morte dos tecidos vegetais acima do ponto picado. É o inseto ao qual a planta é suscetível durante mais tempo, desde o perfilhamento até o final do enchimento de grãos. Quando o ataque ocorre no período vegetativo, o colmo atacado fica totalmente enrolado, esbranquiçado e seco, não tendo mais chances de produzir panícula. Este sintoma é chamado de “coração morto”. Quando ocorre no período reprodutivo, após o florescimento, a panícula acima do colmo atacado tem o enchimento de grãos interrompido, resultando no sintoma chamado “panícula branca”.

Segundo as recomendações técnicas para a cultura do arroz (Sosbai, 2012), um percevejo por metro quadrado causa a redução de 1,2% da produção de grãos. Entretanto, é sabido que o dano deste percevejo costuma ser menor quando o ataque ocorre na fase vegetativa do que na reprodutiva, pois, quanto mais cedo, maior é a capacidade da planta de recuperação do prejuízo sofrido.

Devido ao hábito de sugar o colmo das plantas, este percevejo fica “escondido” sob as folhas, o que dificulta sua visualização. Assim, o produtor deve conhecer algumas de suas particularidades ao realizar a amostragem. A primeira é que eles sobem para as pontas das folhas, sendo mais fácil a visualização na parte da manhã, permanecendo até o meio-dia. Além disso, a distribuição é desuniforme dentro das lavouras, concentrado-se em alguns pontos não atingidos pela lâmina de água, como o topo das taipas, e bordaduras. No período de entressafra, hibernam preferencialmente em algumas plantas que são conhecidas nas várzeas arrozeiras – o capim-rabo-de-burro (Andropogon bicornis L.) e o capim macegão (Paspalum urvillei Steudel) – e nas taipas contendo plantas de arroz e resteva.

Percevejo-do-grão (Oebalus poecilus): é um inseto sugador que pode causar prejuízo ao rendimento de grãos durante um período restrito da cultura – do início do enchimento de grãos até estes estarem na fase de massa mole. A partir desta fase, o inseto pode picar os grãos, mas já não consegue mais sugar seu conteúdo. O prejuízo passa a ser na qualidade, pois estes têm menor poder germinativo, quebram com mais facilidade durante o beneficiamento e apresentam manchas escuras. A picada do percevejo também pode ser uma porta de entrada para fungos, especialmente para os causadores de manchas dos grãos, como Alternaria sp. e Bipolaris sp.

Apesar de causar dano apenas na fase reprodutiva, o percevejo-do-grão pode estar presente na lavoura desde a fase vegetativa. Ele é atraído para dentro dos quadros quando existem plantas daninhas na fase de grão leitoso, como as espécies de capim-arroz (Echinocloa spp.) e arroz-vermelho (Oryza sativa). Desta forma, o monitoramento do percevejo-do-grão deve iniciar nas áreas de concentração de plantas daninhas. E, ao contrário do percevejo-docolmo, o percevejo-do-grão é de muito fácil visualização. De acordo com Sosbai (2012), a cada inseto por metro quadrado é esperada uma redução de 1% no rendimento de grãos.

Bicheira-da-raiz ou gorgulho aquático é a praga mais importante nos arrozais gaúchos e entra na lavoura após a irrigação dos quadros

Lagarta-da-panícula (Pseudaletia spp): diferente das lagartas desfolhadoras, conhecidas da maioria dos agricultores, esta lagarta é prejudicial à produção de arroz na fase final do ciclo, próxima à colheita. Seu hábito alimentar é o de consumir pedaços de ráquis das panículas, ou seja, cortar os pedacinhos das panículas que seguram os grãos. Assim, os grãos caem no chão e não podem ser colhidos.

Existe um fator que limita a expansão da lagarta-da-panícula nas lavouras de arroz irrigado e que é fundamental no monitoramento da praga: o solo inundado. Esta lagarta não consegue formar um “cartucho”, como outras tradicionais do ambiente irrigado, e, assim, quando estão na fase de pupa, caem no solo e não ficam protegidas nos abrigos formados pelas folhas. Quando o solo está inundado, então, esta pupa apodrece, e o ciclo de desenvolvimento é interrompido. Disto já se conclui que os locais onde as amostragens da lagarta devem iniciar são, novamente, as partes mais secas das lavouras, como as taipas, bordaduras e partes mais altas dos quadros. De todas as pragas do arroz inundado, esta é a que vem mostrando maior potencial de dano à cultura. Em estudos realizados pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), um inseto por metro quadrado foi capaz de reduzir a produtividade em 3% (Severo et al., 2009). E, mesmo que já esteja presente antes da fase de maturação dos grãos, não existem relatos de que esta lagarta cause prejuízo às lavouras na fase vegetativa.

O conhecimento das espécies fitófagas e um pouco de seus hábitos permite que o produtor tome decisões de controle baseadas na real necessidade e não siga os “calendários” de aplicações de outros produtos (como herbicidas ou fungicidas) realizando aplicações desnecessárias de inseticidas. A real necessidade, então, é quando estes insetos já atingiram a população suficiente para causar prejuízo e esta ocorrência é na fase em que o arroz é suscetível ao seu dano, ou seja, tornaram-se pragas. Quando estes dois fatores não acontecem juntos, a aplicação de inseticidas constitui-se em uma prática onerosa e de alto impacto ambiental. Cabe ressaltar que a lavoura de arroz é um ambiente riquíssimo em espécies de inimigos naturais, que podem manter a população de insetos fitófagos baixa e que também devem ser reconhecidas e conservadas pelos produtores, maiores interessados na manutenção de um ambiente equilibrado e produtivo.