Pneus

 

PNEUS vida-longa

Reformar pneus agrícolas é uma maneira simples e eficiente de reduzir os gastos e as despesas operacionais – e ainda uma boa ação ambiental. Mas, antes, é preciso cuidar bem deles

Pércio Schneider, especialista em pneus, [email protected]

Pneus são utilizados em diversas aplicações na atividade agrícola, desde recebimento de produtos e insumos, preparação do solo, plantio, colheita e, por fim, escoamento da produção. Para cada etapa ou finalidade são empregados diferentes veículos, assim como os pneus que os equipam. E todos têm em comum uma característica: a reforma dos pneus. Deixando de lado os apelos ambientais e/ou ecológicos, reformar pneus é, num primeiro momento, uma maneira simples e eficiente de reduzir os gastos e as despesas operacionais e, em segundo lugar, um meio de garantir a continuidade da atividade.

Pneus agrícolas podem ser reformados e utilizados com ótimos resultados, mas para isso é fundamental que sejam adquiridos e utilizados da melhor e mais correta forma possível. Comprar pneus de baixa lonagem porque o preço é menor é uma péssima decisão, pois, ao término de sua primeira vida, a carcaça, ao ser enviada para reforma, pode até não ter serventia alguma, tal o grau de fadiga adquirido durante o uso. Economiza-se com pneus ao utilizar aquele que for o mais adequado à aplicação e que possa ser reformado mais vezes, durando mais tempo, e não comprando o mais barato.

Da mesma forma, o equipamento também tem grande influência nos resultados e custos. Já faz alguns anos que estive numa usina de açúcar no Centro-Oeste que havia adquirido novos tratores, os quais estavam apresentando diversos problemas de quebra, às vezes de câmbio, outros de diferencial e, até aquele momento, a situação estava sendo resolvida com reparos em garantia. Curioso com a situação, pedi mais detalhes e, dentre eles, disseram que havia sido baixada a pressão de calibragem dos pneus por orientação do fabricante dos tratores. E foi a partir daí que começamos a esclarecer a situação.

Os tratores comprados vieram equipados com motores de baixa potência e logo que entraram em operação o resultado era insatisfatório. Consultado, o fabricante recomendou baixar a pressão dos pneus para aumentar a aderência ao solo e melhorar a tratividade, e foi depois disso que surgiram as quebras. Baixar a pressão é um dos recursos à mão, mas não pode ser utilizado de forma exagerada. Existem limites para tudo. Ao baixar demais a pressão, os tratores ficavam como que ancorados ao piso, exigindo um esforço muito maior do motor. Como o trem de força (conjunto motor + câmbio + diferencial) estava sobrecarregado pelo excesso de aderência dos pneus ao piso, algum ponto teria que ceder e, no caso, foi por meio da quebra. A sugestão dada ao produtor foi convocar para uma reunião conjunta os fabricantes do trator e dos pneus, com o cuidado de que um não soubesse antecipadamente da presença do outro, para buscar em conjunto uma solução.

Pneus perdem ar sozinhos, em uso ou não, e, por isso, na entressafra é importante manter os pneus calibrados para não se deformarem e evitar o aparecimento de trincas e rachaduras nos flancos

Usos corretos — Equipamentos agrícolas são construídos para finalidades específicas, mas não raro são utilizados de forma incorreta. No Nordeste é comum tratores sendo usados como meio de locomoção fora do campo e até no transporte de pessoas, percorrendo estradas por distâncias e em velocidade acima dos limites suportados pelos pneus. De acordo com os fabricantes, não podem superar 8 quilômetros de distância nem velocidade acima de 32 km/hora. Só que um trator não possui velocímetro, só horímetro. Quando em uso no campo, na aragem, no plantio ou em outra atividade, essa velocidade não é atingida. Já nas estradas, mesmo que no interior das fazendas, é facilmente superada.

Também é muito importante medir o índice de patinagem dos pneus no solo e a atividade em que irá trabalhar. É a partir desse indicador que será determinada a utilização ou não de lastro de água e também a calibragem. Lembre-se que o lastro, para pneus diagonais, não pode superar 75% do volume e, para pneus radiais, 40%. E, ao utilizar lastro de água, a pressão deve ser aumentada em uma ou duas libras em relação à calibragem sem lastro.

Pneus perdem ar sozinho, em uso ou não. Assim, mesmo na entressafra, é importante manter os pneus calibrados para não se deformarem e evitar o aparecimento de trincas e rachaduras nos flancos. Uma alternativa é manter os equipamentos suspensos sobre apoios, aliviando o peso sobre os pneus. Há quem ache isso um exagero, porém, se considerarmos que são veículos que custam dezenas e até centenas de milhares de reais, o ideal seria que estivessem guardados ao abrigo do tempo e de intempéries. Dinheiro não é capim. Todos estes cuidados irão ajudar a preservar as carcaças e é delas que depende o sucesso da reforma. Bem cuidado, o pneu pode ser reformado e, quando em uso, o resultado será compensador. Mal cuidado, pode nem ser reformado.

Reformador não faz milagres. Por mais adubo, fertilizante, calcário, melhoradores ou corretores de solo que existam e possam ser utilizados, não dá para transformar a areia da praia em solo fértil para o plantio. Da mesma forma, o reformador precisa receber uma carcaça em boas condições para lhes devolver um pneu reformado e que dê bons resultados. Para pneus direcionais existem bandas pré-moldadas, podendo ser reformados a frio. O mesmo vale para pneus de tração de menor tamanho. Já a reforma a quente atende a todos os pneus, inclusive os grandes. Uma reforma custa cerca de metade do valor de um pneu novo e pode render as mesmas horas trabalhadas.

A recauchutagem feita a quente tem ainda outra vantagem sobre a reforma a frio. Os grandes fabricantes de material para reforma dispõem de diversos compostos diferentes, conforme a aplicação que será feita do pneu. Um mesmo equipamento, com pneus de mesma dimensão e usado no plantio de uma mesma cultura, mas em diferentes condições, pode necessitar de uma composição diferente da borracha. Plantar arroz de sequeiro é bem diferente da cultura de arroz irrigado. Apenas um exemplo dentre tantas variações de tipos de solo.

Quando a reforma é inviável — Outro cuidado importante é aplicar os consertos corretos e sempre que necessários. Reparo feito adequadamente é fundamental para o pneu voltar ao uso o mais rapidamente possível e em condições adequadas, bem como para preservar a carcaça e possibilitar a reforma futura. Mas, atenção: reformar pneus agrícolas não é para todos. Há quem não faça reformas, e está coberto de razão. Nas condições em que seus pneus estão ao final do uso, a reforma é inviável. Culpa dos pneus? Não. Apenas consequência das condições de uso, manutenção e falta de cuidados.

Só como exemplo, em 2003 fui convidado para participar do encontro da Stab – Sociedade dos Técnicos Açucareiros e Alcooleiros do Brasil, Regional Leste, em plena crise de falta de pneus agrícolas. À época, foi publicada uma reportagem em que tratores e colheitadeiras eram entregues com as rodas revestidas com madeira, por absoluta falta de pneus no mercado. Ao indicar a reforma de pneus como alternativa para a manutenção das atividades, houve quem levantasse objeção, alegando que os resultados ficavam aquém das expectativas, e estava correto em sua avaliação. Não era viável para aquela usina, nas suas condições específicas de trabalho. Já para a imensa maioria das demais usinas que existem na mesma região e que cuidam melhor dos pneus a reforma era viável e com bons resultados. Como disse acima, não existem milagres. Ou o produtor cuida de seus equipamentos e dos pneus, e colhe os bons frutos dessas atitudes, ou assume a consequência de seus atos.