Turismo

 

De olho na vida e no NEGÓCIO deles

O evento mais conhecido do mundo do agronegócio fora do Brasil é o Farm Progress Show, feira americana itinerante que se realiza anualmente alternando-se nos estados de Iowa e Illinoi

Visitar feiras internacionais e ver de perto o que está sendo feito na agricultura de outros países pode agregar muitos conhecimentos e melhorias ao negócio do agricultor brasileiro. Mas eles, os concorrentes, também têm vindo descobrir o que estamos fazendo de bom por aqui

Engenheiro agrônomo Arno Dallmeyer, mestre em Engenharia Agrícola, doutor em Agronomia,
diretor técnico da AgroMundi Viagens de Negócios Texto e fotos
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"Viajar é preciso”, diz o chavão. Cada vez mais real e necessário. Neste mundo globalizado, onde nosso concorrente não é mais o vizinho ao lado, é preciso conhecer os riscos e as ameaças que vêm de longe. Com a expansão vertiginosa do setor agrícola na última década, cada vez mais empresários rurais, pecuaristas, empresas locais ou transnacionais, associações e cooperativas buscam aperfeiçoar e ampliar o conhecimento sobre seus negócios com informações além-fronteiras. Marcel Proust disse: “A verdadeira viagem de descoberta não consiste em ver novas paisagens, mas sim ver com novos olhos. A verdadeira viagem se faz na memória”. Há cerca de três décadas, quando nosso mercado ainda era bem mais fechado, alguns empresários agrícolas e fabricantes de máquinas descobriram o valor de buscar no exterior informações privilegiadas para melhorar o desempenho dos equipamentos e, por consequência, das lavouras. Com a abertura econômica ocorrida há 20 anos, o trânsito de informações e tecnologias ficou bem mais fluido. No entanto, sempre há o que ver, o que aprender e entender no mercado internacional.

Conhecer a Bolsa de Chicago, nos EUA, local em que é ditado o preço da soja para o mundo todo, é sempre um grande atrativo para os visitantes brasileiros

Farm Progress Show — Por questões de câmbio e de informações (propaganda), o evento mais conhecido do mundo do agronegócio fora do Brasil é o Farm Progress Show, feira americana itinerante que se realiza anualmente alternando-se em dois estados, Iowa e Illinois. A feira é promovida por uma empresa privada e uma editora de revistas de agricultura e costuma receber várias centenas de milhares de visitantes em seus três dias. Por realizar-se no denominado “cinturão do milho americano”, a tendência dos expositores é mostrar tecnologias e equipamentos para o milho em muito maior quantidade que para a soja. Se este fato há alguns anos era um empecilho, atualmente não é mais, pois também no Brasil já há cerca de 50% das áreas cultivadas com milho.

Existem outros eventos ao longo do ano nos Estados Unidos e no Canadá focados em temas específicos (soja, algodão, horticultura, irrigação, mecanização, gado de corte e gado de leite), mas o Farm Progress Show continua atraindo milhares de visitantes do mundo todo. Ouve-se uma grande diversidade de idiomas, além do inglês. E, se prestarmos atenção, são o português e o espanhol os mais falados. Ou seja, são os brasileiros, mas também os latinoamericanos (de Argentina, Paraguai e México) os maiores interessados.

Com um enfoque diferenciado, pois ocorrem em pavilhões fechados, as feiras europeias costumam se realizar na Itália, na Alemanha e na França, país da Sommet L’Elevage, em Clermont-Ferrand

O fato de ter Chicago como maior cidade do cinturão de milho também traz uma atratividade em si. Em Chicago, a par do turismo convencional, os viajantes visitam e aprendem um pouco mais sobre o funcionamento da Bolsa de Mercadorias, há alguns anos conhecida como Bolsa de Chicago e hoje adquirida pelo Grupo CME, desde então denominada CME Group. Em cada roteirode viagem internacional, os viajantes/ clientes têm a oportunidade de visitar alguns produtores, o que propicia a necessária troca de experiências e aprendizado. Coroando este tipo de visita, eles conhecem também alguma revenda agropecuária e, até mesmo, uma fábrica de máquinas agrícolas ou cooperativa central. E de todas estas visitas o produtor e empresário pode tirar suas próprias conclusões, o seu aprendizado.

Mais do que aprender, as viagens propiciam ver de perto curiosidades, como a propriedade deste produtor finlandês que coleciona mais de 300 tratores antigos

Feiras europeias e asiáticas — Com um enfoque um pouco diferenciado, pois se realizam em pavilhões fechados (ao contrário das americanas, que são realizadas a campo e muitas vezes com demonstrações de tecnologia), as feiras europeias de expressão costumam acontecer na Itália (tecnologia agrícola, florestal, energia), na França (tecnologia agrícola, agricultura em geral e pecuária de ponta com raças europeias) e na Alemanha (tecnologia agrícola de excelência, pecuária, energia e criações em geral). São países que têm fortes ligações culturais ou de origem com nosso povo e, portanto, estão se tornando novos destinos, agregando um componente histórico-sentimental às viagens.

Com o despontar de alguns países asiáticos na produção industrial global e na compra de commodities agrícolas, vem deste continente a nova demanda de viagens técnicas. Para conhecer nossos compradores, mas também para conhecer nossos fornecedores. Em algumas culturas, como o algodão e o arroz, a China e a Índia são nossos balizadores em termos de negócios internacionais. A tecnologia brasileira muitas vezes é superior à deles, mas os volumes de negócios são estimulantes e, por isto, atraem nossos produtores. Na Austrália eventos de gado de corte (processos de criação, manejo e abate similares aos brasileiros) e cana-de-açúcar são os principais atrativos. Já na Nova Zêlandia produção de leite e a pecuária leiteira estão entre as melhores do mundo, por isso buscadas como aprendizado e modelo.

Recebendo os visitantes — E assim como inúmeros brasileiros procuram os destinos já mencionados, estrangeiros vêm conhecer a nossa agricultura e o nosso potencial. E são americanos, sul-africanos, alemães, austríacos, islandeses, russos, chineses, japoneses. E, quando conhecem a organização de nossa agricultura e pecuária, as nossas cooperativas (que atuam dentro dos ensinamentos originais do cooperativismo) e a nossa legislação ambiental, ficam realmente admirados com a capacidade de nossos produtores serem competitivos mesmo sem subsídios ou grandes estímulos à produção. E em muitos casos investem em terras no Brasil, visando prevenir-se de crises ou dificuldades em seus países de origem.

A agricultura brasileira também é um grande atrativo a visitantes de outros países, como esta delegação do Cazaquistão em visita ao trigo de Guarapuava/PR

Também existem empresas especializadas que atuam prioritariamente no segmento do agronegócio. As viagens que elas proporcionam podem ser enquadradas em três tipos diferentes: de incentivo, de relacionamento e de estudo. As viagens de incentivo são normalmente praticadas por grandes conglomerados visando recompensar, premiar e valorizar o desempenho de produtores ou de sua equipe de vendas e assistência técnica. Uma equipe ou um grupo de produtores motivados e agradecidos certamente trarão melhores resultados de negócios na próxima safra. As viagens de relacionamento visam garantir a fidelização de clientes e costumam ser realizadas por revendas de insumos, máquinas e equipamentos. É uma ferramenta recente no ramo, mas muito eficaz.

A americana Farm Progress Show continua atraindo milhares de visitantes do mundo todo e cada vez mais se ouve outros idiomas, além do inglês, sobretudo português e espanhol

As viagens de estudo são mais focadas a estudantes e pesquisadores, originalmente, mas têm sido muito utilizadas por grupos empresariais, profissionais de fazendas e grupos familiares que querem ver alguma situação específica e comparar com suas próprias práticas. Em todas estas situações os grupos são acompanhados de guias técnicos e de apoio e recebem, além das informações gerais sobre o que estão visitando, tradução das palestras dos produtores visitados. Quem for viajar no agronegócio deve ter em conta que a especialização da empresa que leva estes grupos conta muito, assim como o seu relacionamento e conhecimento nos países a serem visitados. Esta experiência e a competência podem ser a diferença entre uma vivência inesquecível e uma frustrante e “cara” saída ao exterior.

Lembrando a afirmativa de Amyr Klink: “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livro ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos e não simplesmente como ele é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver... Il faut aller voir – é preciso ir ver! É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo.”


O QUE APRENDI NAS VIAGENS

“A agricultura nos Estados Unidos é muito tecnificada, pois a mão de obra é cara e, como a topografia das áreas produtoras de grãos é plana e uniforme, os agricultores norte-americanos usam equipamentos muito grandes para realizar os tratos culturais. O patriotismo também chama muito a atenção. Cada lugar, cada fazenda tem uma bandeira dos Estados Unidos hasteada, pois o governo incentiva a agricultura americana. Quem tem a oportunidade de ir visitar o Corn Belt (cinturão do milho, região produtora nos EUA), deve ir, pois, a cada coisa que você vê, você aprende algo; além de ser maravilhoso conhecer a cultura local.” Guilherme B. Baisch, Giruá/RS

“Sem dúvida, as viagens técnicas sobre o agronegoócio nos agregam novos conhecimentos, tecnologias e, sobretudo, nos mostram modelos eficientes de política agrícola e desenvolvimento infraestrutural que falta no nosso país.” Vanderlei Secco, Goianésia/GO

“Essa viagem ao Corn Belt americano me trouxe a certeza que temos aqui no Brasil tecnologia para sermos competitivos com a agricultura americana. O que nos falta é incentivo e infraestrutura em transporte e logística.” Eng. Agr. Vinicius Lourenzon, Santo Augusto/RS