Agronomia

  

O JECA
informatizado

A profissão de engenheiro agrônomo se sofistica junto com a agricultura, com novas demandas, exigências tributárias, trabalhistas, barreiras comerciais, econômicas e fitossanitárias

Ciro Antonio Rosolem, professor titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/Unesp Botucatu/SP) e integrante do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS)

Decidi pela agronomia talvez por ter nascido e sido criado na zona rural e, pouco depois, numa cidadezinha do interior do estado de São Paulo. Uma das grandes personalidades da região era o agrônomo da Casa da Lavoura. Era autoridade convidada para casamentos, aniversários, inaugurações. Era importante na década de 1960. Sonhava ser como ele. O engenheiro agrônomo era formado e atuava na transformação da agricultura brasileira, junto a uma população que se urbanizava, mas ainda era consciente das lides rurais e admirava as conquistas agrícolas. As poucas faculdades formavam, principalmente, profissionais para a extensão rural, a nobreza da profissão e sonho dos jovens agrônomos.

O Brasil crescia, se industrializava e, pouco a pouco, o rural foi perdendo o encanto, o charme e a importância no consciente coletivo urbano. A menina dos olhos passou a ser a indústria, uma vaga no Banco do Brasil ou o serviço público. Aos poucos, o agrônomo da Casa da Lavoura não era mais convidado para inaugurações. Afinal, neste país, “em se plantando tudo dá” e, assim, as lides do campo não tinham mais o charme. Pior, a poeira virou sujeira, tecnologia era coisa de cidade, de futuro. A profissão sentiu os efeitos da opção governamental pelo desenvolvimento industrial a qualquer custo.

Embora sem o charme anterior da profissão, as faculdades de Agronomia se multiplicavam. Formavam profissionais que, sem encontrar o mesmo campo fértil na extensão rural oficial, encontravam guarida e trabalho em cooperativas e indústrias, que passavam, de certo modo, a substituir a extensão chapa branca. Ao mesmo tempo, a princípio silenciosamente, era inaugurada a Embrapa, absorvendo e complementando a formação dos novos profissionais. As universidades desenvolveram também esforços para a melhor formação de seus professores. Isso resultou num contingente de profissionais que, em alguns anos, seriam os agentes da nova revolução agrícola brasileira.

Quando se falava em agrônomo e agronomia, a primeira imagem ainda era a botina do Jeca e um canivete na cintura. Mas os botinas tornaram o cerrado produtivo, adaptaram a soja às regiões próximas à linha do Equador e desenvolveram as técnicas de semeadura direta. Tornaram o Brasil autossuficiente na produção de alimentos e fibras. Desenvolveram de modo espetacular o uso do álcool como combustível, no auge da crise do petróleo. Tornaram a vinhaça, sério poluente, em fertilizante. Fizeram da agricultura uma das atividades mais competitivas do Brasil no exterior. Fizeram dos solos marginais dos trópicos o esteio da balança comercial deste país. Mas ainda eram botinas, difícil reconquistar o glamour industrial-urbano.

A tecnologia desenvolvida pela pesquisa encontrava dificuldades no caminho até o agricultor. Daí nasce outro tipo de agrônomo, o consultor, empresário autônomo, com desafios nem sequer sonhados pelos colegas de outrora. A profissão se sofistica junto com a agricultura, com novas demandas, exigências tributárias, trabalhistas, barreiras comerciais, econômicas e fitossanitárias. A agronomia não é mais plantar e colher. A botina, sozinha, não resolve mais. Nova revolução nos currículos das escolas de Agronomia. Mas, ainda, nas cidades, novas carreiras, ditas tecnológicas, povoam os sonhos da juventude.

Rosolem: quando se falava em agrônomo e agronomia, a primeira imagem era a botina do Jeca e um canivete na cintura. Mas os botinas tornaram o Brasil autossuficiente na produção de alimentos e fibras

O sonho da ótima situação econômica e o sonho da realização pessoal. Qual seria mais importante? O que sei é que o agrônomo, em geral, é um ser satisfeito, contente com sua profissão, de bem com suas conquistas, mas querendo mais, conscientes que são da importância da agricultura na vida moderna. Em levantamentos aos quais tive acesso, menos de 5% dos entrevistados mudariam sua formação. Até mesmo sem o reconhecimento e o charme de tempos passados. Misteriosa essa profissão. O que fazem? De tudo um pouco, pois a formação é muito ampla. Quando fazem? A qualquer dia e hora, plantas não usam relógio e as distâncias são grandes. Ainda usam botina? Bem poucos. São ricos? Nem tanto, mas são felizes. Afinal, o que importa na vida?

Global Positioning System (GPS), aplicativos, Ipad, Blackberry, agricultura de precisão, engenharia genética, hedge, mercado futuro, fundos de investimento, tratores sem tratorista... Meu Deus, que distância da botina e do canivete. Nesta época de comunicação instantânea, quando se pode, do campo, consultar bases de dados internacionais, o agrônomo ainda é indispensável, ao liderar ações de mudança, adaptação e avanços agrícolas. Armados não mais de botina e canivete, mas com um novo arsenal de técnicas e equipamentos. O perfil desse profissional exige que as universidades se adaptem, se modifiquem, se modernizem sem perder o fulcro original: formar um profissional que não só atenda às exigências do mercado, mas também atue como força motora do desenvolvimento.

“Marias creietes” — São bem conhecidos os termos “Maria chuteira” e “Maria breteira”. Recentemente ouvi de jovens colegas que nas regiões de grande desenvolvimento agrícola começam a aparecer as “Marias creietes”, aquelas que buscam o engenheiro agrônomo (pois o CREA é quem regula a profissão). Seria a volta do charme? A volta do reconhecimento a esse profissional que tanto tem feito pelo Brasil? Embora tenha sempre existido na agronomia a preocupação com a conservação dos recursos naturais, a pressão de ambientalistas que se reflete no consumo exige adaptações nas técnicas produtivas e aparecem ainda novos termos, como rastreabilidade, boas práticas, etc. E o profissional que já era eclético nos tempos da botina precisa ser ainda mais completo, conhecendo um pouco do solo à estratosfera, da semente à cotação do dólar, dos direitos trabalhistas aos fundamentos do mercado futuro. Muito para um só homem, mesmo um jeca informatizado.