Na Hora H

 

VEJAM A SEGUNDA POSSE DE BARACK OBAMA

Alysson Paolinelli

Não foi tão apoteótica quanto a primeira posse há quatro anos, mas sem dúvida representou um momento de meditação e esperança para o povo norte-americano. Um espetáculo de civismo digno de se ver, ouvir e analisar. Mesmo com as dificuldades que sabe que deverá enfrentar, Obama fez um pronunciamento afirmativo e convocatório a todos os americanos, sem distinção de raça, cor, religião, posição política, riqueza ou pobreza, empregado ou desempregado. Todos foram convocados à luta que se prevê será árdua. Reafirmou a sua confiança nos direitos e deveres de seus concidadãos e não teve constrangimento em afirmar que hoje os Estados Unidos têm uma dívida pública maior que tudo que o seu país é capaz de produzir em um ano. É espantoso, mas é a pura verdade. Dura, mas real verdade. Dirse- ia mesmo quase impagável.

O que é mais interessante, esta dívida já vem de longo prazo, pois o que ele está fazendo agora com tanta ênfase, pedir a autorização ao Congresso para ampliar ainda mais o valor da atual dívida, já foi feito pelos seus antecessores por várias vezes. Será que lá, como aqui, está prosperando o princípio que dívida não se paga – se alonga ou se rola? Creio que este mal está se generalizando. Quando Itamar passou ao Fernando Henrique o poder, deixou para ele uma dívida pública interna de R$ 72 bilhões. Quando este último passou a Lula o poder, deixou com ele nada menos que R$ 1 trilhão ou muito próximo disto para que ele pagasse. Reparo que quando Lula entregou o poder a Dilma, presenteou a nova presidente com uma dívida pública interna de cerca de R$ 1,5 trilhão. É verdade que, especialmente o setor agrícola, além de ter praticamente pago quase toda a dívida externa brasileira em 2010, ainda deixou no Tesouro Nacional o saldo de cerca de US$ 240 bilhões que tiveram de ser monetizados, portanto ampliando a colocação dos Títulos da Dívida Pública em quase R$ 500 bilhões. Mas, com todo o conforto do saldo em moeda estrangeira, hoje já se fala numa dívida nossa próxima dos R$ 2 trilhões. Tomemos cuidado, e devemos olhar com preocupação o drama americano para não repetirmos aqui o desastre que lá cometeram. Só temos de desejar que tanto lá quanto aqui estas dívidas sejam pagas corretamente.

O que não podemos nem pensar é que prospere a ideia do “caloterismo”. Este sim será o grande desastre, especialmente para os povos que desejam ser sérios.

Convém também comentar: Barack Obama tem demonstrado certo carinho e uma especial atenção para com o nosso Brasil. Foi o único presidente dos Estados Unidos, dos que visitaram o Brasil, a fazer questão de dizer que estava vindo aqui sem nenhum presente de qualquer espécie. Estava vindo aqui para pedir ao Brasil que ajudasse o mundo. Reconhecia que o Brasil havia conseguido desenvolver uma tecnologia tropical capaz de aproveitar os nossos biomas e transformá-los em grandes áreas produtoras de alimentos, matériasprimas agrícolas e bioenergia que o mundo de hoje tanto carece. Pediu sem nenhum constrangimento para que o Brasil ajudasse aos seus vizinhos da América tropical, aos seus “irmãos” da África e aos outros povos tropicais do globo que ainda não têm o conhecimento e a capacidade que o povo brasileiro adquiriu. Foi uma convocação enfática, ainda no seu primeiro mandato e que, infelizmente, parece não ter sido ouvida e interpretada no que ela efetivamente pode parecer.

O homem que tem a chave do maior tesouro do mundo e, além deste, a de tantos bancos e organismos internacionais que deverão ter compreendido a convocação patética aqui realizada pelo presidente Obama, dirigente que alegou ser este o caminho para a tranquilidade do abastecimento alimentar e da bioenergia que o mundo tanto necessita. Sabe Obama, como sabemos nós, que os brasileiros ainda não conhecem de fato os seus principais biomas e, principalmente, como manejálos sem degradar ou destruir os seus recursos naturais, que são o solo, a água, as plantas e os animais. Sabe ele, como sabemos nós, que só através de muito estudo, muita pesquisa, poderemos conhecer melhor estes nossos biomas, que são os mesmos em todas as regiões tropicais da terra. Não seria uma grande ajuda do Brasil ao mundo ter tecnologia e conhecimento suficientes para poder passar aos outros povos o que eles aqui poderão vir e participar conosco na busca destes conhecimentos e assim se preparar para atuar nos deles? Creio que o desafio foi feito. Basta que o interpretemos.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura