O Segredo de Quem Faz

IDEIAS de alguém “lido, viajado e metido”

É fácil conversar, o papo flui espontânea e naturalmente sobre agronegócio e Brasil com Luiz Hafers, 77 anos. Afinal, ele é torcedor do Santos (“o maior time do mundo”), alguém “lido, viajado e metido”, ex-chofer de caminhão e exmascate de algodão, além de “homem feliz”. Na juventude, por ter sido um “péssimo aluno”, não conseguiu entrar na faculdade e, assim, foi ser marinheiro no Alasca. E, se depender dele, em sua lápide estará “vivi bem”. Este é o currículo que ele pediu para ser publicado. Na verdade, Hafers é uma das grandes e respeitadas lideranças das últimas décadas do agronegócio brasileiro. Foi presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e é hoje presidente do Museu do Café, em Santos/SP, além de “fazendeiro” na Bahia e no Paraná. Conhece o mundo todo, principalmente por ter sido exportador de algodão e fios, além de ter trabalhado em projetos de reflorestamento e papel no Brasil. Por um dos currículos acima – ou pelos dois –, dá para conferir a seguir que Hafers conhece muito de agronegócio e de Brasil.

Leandro Mariani Mittmann
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A Granja — O Brasil vai produzir em 2013 sua maior safra agrícola, cotações que seguem históricas. Pode-se dizer, como no futebol, que o agronegócio brasileiro “vive o seu melhor momento”?

Luiz Hafers — Eu diria que vive um bom momento. A produção dobrou por meio da produtividade. São novos produtos, novas técnicas. Eu acho que vive um bom momento e permite que a gente fique cuidadosamente otimista com o futuro. A necessidade de alimentos, a necessidade de produção agrícola é crescente e constante. Quando vemos a crise que se anuncia e se mostra aí, você pode pensar que tem roupas ou automóvel por muitos anos. Mas se olhar na despensa, não tem comida por uma semana. A necessidade de comer é contínua. E outra coisa que acho muito importante como balizador da agricultura é que nenhum tipo de regime pode politicamente suportar fome. Esta é uma preocupação constante de diversos países. No mundo, principalmente na Ásia. E nós não nos damos conta desta importância como ponto positivo da nossa agricultura.

A Granja — Por que o senhor usa o termo “cuidadosamente”?

Hafers — Porque todos os nossos artigos estão expirados, no limite de suas competências. As estradas não cabem mais, os caminhões não têm mais, as ferrovias estão num estado lastimável, e quanto aos portos, tem muito plano e pouca ação. Isso tudo são males do crescimento grande e forte (da agricultura) nos últimos anos. Foi mas fácil produzir do que organizar. Mas eu digo que a infraestrutura segue a produção. Foi o café que forçou fazer a estrada de ferro para Santos/ SP, e não a estrada que fez o café.

A Granja — O senhor tem esperança de ver a logística que atende ao agronegócio melhorar no curto ou médio prazo?

Hafers — Eu tenho uma certeza, temos que ser realistas: o Estado, por melhor que seja, é burocrático e ineficiente. Esta reforma vai custar tempo, dinheiro e competência. Por isso que eu sou moderada e cuidadosamente otimista, porque não confundo otimismo com facilidade. A agricultura está na frente, aumentando a produção, à frente da infraestrutura para manipular essa produção. Agora, você me pergunta se a agricultura está num melhor momento, porém, há alguns enganos. Nós somos produtores e não bons políticos. Ou não mostramos à população urbanoide que somos muito competentes. Achamos que resolvemos o problema do suprimento, que resolvemos o problema da produtividade, já que os aumentos foram enormes, mas achávamos que íamos ser ao menos respeitados e reconhecidos pela opinião pública. Não o fomos. Nós precisamos nos dedicar um pouco a mostrar o que fazemos e não esperar que as pessoas saibam o que fazemos. E o urbanoide precisa se dar conta e colaborar na solução dos problemas logísticos. Na verdade, a agricultura nos últimos dez, 12 anos, teve avanços incríveis. Somos criticados em pequenas circunstâncias e não somos reconhecidos nos grandes planos. Está aí o plantio direto que é um breakthrough (ir além) brutal na agricultura nacional e mundial; está o sucesso dos transgênicos, que foram tão criticados pelos radicais ambientalistas, mas que aumentaram a produção e diminuíram o risco e uso de defensivos; diminuiu o uso da terra com o aumento da produtividade. Estas coisas precisam ser explicadas e, principalmente, compreendidas pelo público não agrícola.

A Granja — E o que é preciso fazer para este público não agrícola entender melhor?

Hafers — Houve um esgotamento da comunicação. Nós achávamos que fazer era o suficiente. É a história da galinha, que precisa contar e explicar o que faz. Se você chegar numa reunião urbana numa cidade grande como São Paulo, o pessoal mais moço não tem noção da agricultura. E uma certa restrição está baseada ainda em ressentimentos do século XIX, que acha que nós somos mais exploradores do que produtores. Hoje, as fronteiras agrícolas do Mato Grosso e do Oeste Baiano são as mais modernas de todas, mas o pessoal está muito ocupado em fazer e não tem tempo de contar. Acho que uma revista como a de vocês tem ajudado muito, se bem que é muito localizada e prega para o convertido. Precisamos fazer um esforço para mostrar e discutir com a população urbana o que tem sido feito. As críticas constantes que vejo no jornal, há enorme radicalismo de alguns ambientalistas, que evidentemente atrapalham a mensagem. Além do que a agricultura brasileira sofre uma campanha dos países desenvolvidos que se apavoram com a importância e a concorrência da agricultura brasileira. Não temos ainda uma tropa de choque política e diplomática, principalmente de informação, para explicar a parte boa, reconhecer a parte ruim e corrigir esta.

A Granja — E estas campanhas, como a recente promovida pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a Time Agro Brasil, cujo garoto-propaganda é o Pelé, ajudam a convencer o público?

Hafers — Ajuda, mas não é uma campanha moderna. A agricultura é necessariamente conservadora. Eu vejo uma certa timidez. A primeira coisa, temos que recuperar a autoestima da agricultura. Estamos sempre explicando na defensiva. Temos que convencer na ofensiva. Acho, inclusive... vejo os anúncios aí... eu não sou um... entendo mesmo é de carpir café. Mas não vejo nas campanhas feitas pelo grupo da agricultura uma modernidade, uma clareza, uma confiança. É sempre um pouco defensivo. E acho que não temos do que nos defender. Temos que reconhecer o que não está feito e corrigir. Por exemplo: a bancada ruralista, que tem sido absolutamente indispensável na defesa da agricultura, é muito mais voltada a problemas passados do que a oportunidades futuras. A pressão é para se defender, quando eu acho que o importante era construir

A Granja — O senhor sempre foi uma liderança atuante no agronegócio brasileiro. Qual a sua opinião sobre as atuais lideranças?

Hafers — As nossas lideranças por mais vontade que tenham, representam ainda uma parte mais antiga da agricultura. Veja que as grandes queixas são as de primo pobre: “precisa me ajudar aqui”. Se você tiver um primo pobre que só vem reclamar do que está ruim, chega uma hora que o argumento dele é penoso. Se tiver um primo inteligente que vem para pedir para você ajudar ele a estudar fora para construir, para fazer, você tem muito mais entusiasmo. Toda hora estamos vendo no jornal uma discussão para não pagar a dívida. O custo deste tipo de coisa, ainda que justificável, o custo em termos de entendimento é muito ruim. É muito ruim. “Nova discussão de dívida, não quer pagar dívida, porque a dívida, porque estou quebrado, porque não estou quebrado...” Apesar de ser justificado em partes, é ruim para o objetivo final. Temos que ter uma atitude mais construtiva do que defensiva. E, apesar disso, o sucesso está aí. Quando fui presidente da Rural (Sociedade Rural Brasileira) dez, 11 atrás a produção era 80 milhões de toneladas e eu achava que tinha que ser 120 milhões. Está em 180 milhões! E este aumento foi feito por meio da produtividade e por uma nova técnica de duas safras no mesmo ano, feito por meio de tecnologia e não derrubar mato como nos acusam.

Nós do campo precisamos nos dedicar um pouco a mostrar o que fazemos e não esperar que as pessoas saibam o que fazemos

A Granja — E como o senhor vê os diversos programas de apoio de Brasília, como as linhas de crédito, melhoraram nos últimos anos, poderiam ser melhores...?

Hafers — Eu acho que “despiorou”. Se você for a Brasília, Brasília é completamente separada da realidade do interior do Brasil. E, além do que, você não pode comparar uma situação, uma necessidade e uma vantagem do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo com os campos do Mato Grosso. O interessante é que a grande maioria veio do Sul. No Oeste Baiano e no Mato Grosso são quase todos oriundos do Paraná e do Rio Grande do Sul. Então, são visões, são origens muito diferentes, e as lideranças são cautelosas. Você há de reconhecer que os deputados são muito mais preocupados com as eleições do que com as produções. Faz parte do custo da democracia. E deixar bem claro que a democracia é a instituição que tem que ser fortalecida sempre. Acho também que precisamos ter novas lideranças, com novas ideias e novas construções na relação da explicação da atividade. Na produção isso já está feito. Primavera do Leste/MT, Lucas do Rio Verde/ MT, Luis Eduardo Magalhães/BA, estes lugares todos vibram de progresso, dedicação e sucesso. Mas ainda é pedir muito que esta geração faça a política e a produção. Primeiro, faz a produção; depois, o que eu chamo de estrada de ferro metafísica. A maioria dos jornais está nas grandes capitais. Nós caipiras temos dificuldades de comunicação, principalmente temos um certo pejo de falar do que fazemos. E isso num mundo moderno é indispensável.

A Granja — E como o senhor acompanhou recentemente a discussão em torno do Código Florestal e outras polêmicas que envolvem o nosso agronegócio?

Hafers — Em primeiro lugar, a discussão foi necessária. Acho que sempre deve ser discutido. Em segundo, o resultado foi possível e não foi o ideal. Devemos tratar do possível e não do ideal, porque senão não conseguimos. Do ponto de vista da agricultura, ele foi razoável, factível. É evidente que há radicais dos dois lados que acham horrível. Mas o radical não tem interesse numa solução. Ele vive do problema e nós vivemos da solução. Agora, tem outras coisas que precisam ser discutidas. Em Santa Catarina ou no Paraná é completamente diferente de uma propriedade grande no Mato Grosso. As duas são muito boas, mas são soluções diferentes. Outro erro que se comete constantemente na discussão é o dos radicais em favor da agricultura familiar e contra a agricultura empresarial, e a empresarial contra a familiar. Nós precisamos e muito das duas. A agricultura familiar tem grandes possibilidades porque os níveis são baixos (é mais fácil aumentar com educação), produz suficiente para a região e é socialmente desejável. A grande empresa é economicamente desejável. Não podemos ficar esperando que chova ou não chova num sítio de feijão, quando chove... Então, as duas se complementam, mas no momento se agridem. Eu acho um erro fundamental. A questão, por exemplo, da reforma agrária. Ah, não conseguiram desapropriar terra. A ideia qual é: fazer o pobre feliz. A liderança de esquerda da reforma agrária quer fazer o grande proprietário infeliz tomando a terra dele. Com toda a terra que tomou, mas ainda não foi resolvido (o problema). Não é a terra que faz uma boa propriedade familiar. É a educação, o apoio, a extensão. E eles querem desapropriar. Para quê? O objetivo é a felicidade do pobre ou a infelicidade do rico? O ressentimento da esquerda é muito ruim para a construção da felicidade. E acho mais: o objetivo da vida da gente é ser feliz, e não ser rico ou proprietário. E perdem-se estes objetivos na discussão. Sou um otimista nato. Conheço o mundo inteiro e acho o Brasil um país extraordinário, o país do presente. Temos centenas de problemas pequenos e médios e não temos nenhum problema enorme e difícil. Ao viajar pelo interior, e eu conheço o Brasil de ponta a ponta, você volta contente, otimista, entusiasmado na solução dos problemas. Veja, por exemplo, a seca no Nordeste... é um escândalo! A transposição do rio São Francisco... a única coisa em que foi feita a transposição foi o dinheiro do Governo para alguns. Água não chega. A vida é possível com 500 milímetros, mas não com o nível de educação que está lá como resultado do coronelismo de 200 anos. Temos que ter uma agricultura forte, saudável, porém uma agricultura muito diversificada. A diferença entre o lavrador do Rio Grande do Sul e o do Rio Grande do Norte não é só o sotaque, são todas as condições diferentes. Porém, todas elas viáveis. E não existe nenhuma bala de prata e nem um cobertor único. Precisamos da pesquisa brasileira, que fez coisas fantásticas. A produtividade do café dobrou. Na soja diziam que, por causa da nossa colônia cultural – esse é o problema – , que não era possível produzir soja no Brasil, que o Brasil não era um país agrícola por não produzir trigo... Mas eu dizia: “O americano não produz banana!”. Temos o que se chama de complexo de vira-lata. Se o sujeito tem o olho azul e é loiro, fala inglês, nós achamos ele o “cara”. Nós devemos assumir a nossa cultura tropical, com muita influência africana. A nossa cultura, e isso acontece na agricultura, tem que ser mais orgulhosa. E agora começa a colheita da soja precoce, você não pode deixar de ficar superorgulhoso. Aí, sai na estrada e está tudo quebrado. Vou dar outro exemplo de frustração circunstancial. O Brasil queria produzir em diversos estados, Minas, São Paulo, Paraná... uma bela safra de lichia. Aí apareceu um ácaro e devastou as produções. Veio um defensivo para controlar este ácaro, mas este defensivo só estava liberado para a maçã, e não pode ser usado legalmente. Então, deu um processo burocrático no Ministério da Agricultura, rolando de lá para cá e neste meio tempo acabou a safra da lichia. Essas coisas evidentemente que são percalços do crescimento, mas que precisam de uma atuação esclarecedora mais rápida em função da solução. E não do problema. Aí vêm os ambientalistas, principalmente os radicais da turma do “nada pode”, que usam o “princípio da cautela”. Se eu for usar o princípio da cautela, não poderia sair de casa, pois posso ser atropelado.

Código: é evidente que há radicais dos dois lados que acham horrível. O radical não tem interesse numa solução. Ele vive do problema