Agricultura Familiar

A renda que cresce num CANTO da propriedade

Engenheiro Agrônomo e M.Sc. Ronaldo Trecenti, Campo Consultoria e Agronegócios, [email protected]

Dados do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) apontam que o Brasil possui a segunda maior extensão florestal do planeta, ficando atrás apenas da Rússia: são 516 milhões de hectares de florestas, o que equivale a 60,7% do território nacional. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVSA) levantou que a produção primária florestal, em 2011, somou R$ 18,1 bilhões. A silvicultura ou cultivo econômico de florestas plantadas contribuiu com 72,6% (R$ 13,1 bilhões) do total apurado. Felizmente, a participação da silvicultura na produção madeireira nacional é crescente. De um total de 139,9 milhões de metros cúbicos produzidos de madeira em tora, 89,9% são oriundos das florestas plantadas; de 5,5 milhões de toneladas de carvão vegetal, 75,3% foram produzidos pela silvicultura; e, na produção de lenha, de um total de 89,3 milhões de metros cúbicos, 57,9% procederam de reflorestamentos.

O eucalipto pode ser conciliado com bovinos na mesma área e potencializar os ganhos do agricultor

A participação de quatro produtos madeireiros – carvão vegetal, lenha, madeira em tora para papel e celulose e madeira em tora para outros fins, totalizando R$ 13 bilhões, equivale a quase totalidade do valor apresentado pela silvicultura. Os três produtos não madeireiros (folhas de eucalipto, resina e cascas de acácia negra) somam R$ 151,8 milhões. O valor da produção da madeira em tora da silvicultura chegou a mais de R$ 8,8 bilhões, divididos quase equitativamente entre a produção para papel e celulose e a destinada a outros fins.

Em 2010 o Ministério da Agricultura criou o Programa de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Programa ABC), cujo objetivo é buscar alternativas de baixa emissão de carbono, de forma a assegurar a adoção de tecnologias que proporcionem a recuperação da capacidade produtiva dos solos, o aumento da produtividade e a redução da emissão de gases de efeito estufa. Dentro do Programa ABC foram estabelecidas duas importantes metas de incentivo ao setor florestal: o incremento do plantio de florestas econômicas em 3 milhões de hectares; e a adoção do sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF) em 4 milhões de hectares, destinando recursos no valor de R$ 3,4 bilhões no Plano Agrícola e Pecuário 2012/13, com limite de financiamento por beneficiário de R$ 1 milhão, taxas de juros de 5% ao ano, com prazos de pagamento em até 15 anos e carência de até seis anos, para produtores rurais que adotarem o plantio de florestas.

Diversificação — Investir no plantio de floresta é uma alternativa muito interessante para a diversificação de atividades na propriedade rural, seja ela pequena, média ou grande, visando à melhoria de renda e à redução dos riscos climáticos e de mercado. O agricultor familiar pode reservar uma parte da sua propriedade para o cultivo de floresta, em especial, de áreas marginais, ou seja, aquelas com menor aptidão para o cultivo de grãos, desde que não haja impedimentos para o desenvolvimento das árvores. O primeiro passo é buscar informações sobre o tema por meio dos diversos meios de comunicação (internet, revistas, livros, jornais, TV, etc.), de visita a produtores que estão na atividade, se possível, na sua região, de orientação técnica junto à empresa de assistência técnica e extensão rural (como Emater) ou similar, das instituições de pesquisa, das universidades, das associações do setor florestal, das empresas do segmento, entre outros.

Antes de decidir pelo plantio da floresta, o produtor deverá buscar orientação profissional, que, junto com ele, irá considerar diversos fatores determinantes para o empreendimento, como os seguintes: estudo de mercado para identificação das demandas locais e regionais, potencialidade de produção da propriedade, distância do mercado consumidor, disponibilidade de máquinas, corretivos, fertilizantes, mudas, mão de obra capacitada, etc. Após a decisão de investir na silvicultura, vem a etapa do planejamento, onde deverá ser elaborado um projeto técnico no qual deverão constar os seguintes itens:
- Diagnóstico da área: profundidade do solo, declividade, disponibilidade hídrica, ocorrência de pragas (cupins e formigas), risco de fogo, etc.;
- Escolha da espécie florestal em função do mercado, da adaptação à região, da exigência hídrica, da disponibilidade de mudas, etc;
- Arranjo de plantio (espaçamento entre linhas e entre plantas): em função da espécie, da destinação da produção;
- Escolha das mudas (clones, mudas certificadas e rustificadas com tratamento contra cupins);
- Plantio (sulcos profundos, adubação de base, profundidade das mudas, irrigação de salvamento);
- Tratos culturais (adubações de manutenção e de cobertura, capinas, controle de formigas, construção de aceiros, desrama, etc.);
- Colheita (desbaste ou corte raso)
- Condução da rebrota (1 a 3 brotos, conforme destinação da produção);
- Comercialização.

No caso do plantio de eucalipto, a comercialização pode se dar pela venda da madeira como estaca para escoramento na construção civil – corte no 2º/3º ano; como estacas e moirões tratados para construção de cercas, pergolados, barracões, residências; como lenha para energia (cerâmicas, pizzarias, secagem de grãos, etc.) – corte no 4º/5º ano; como lenha para energia (carvão) – corte no 6º/7º ano; como postes tratados para iluminação – corte no 9º/10º ano; como madeira para serraria – corte no 12º/13º ano; como madeira tratada para dormentes de ferrovias – corte no 15º/16º ano.

Como se pode verificar, são muitas as opções de venda, que pode ser escalonada ao longo do tempo, ajudando no fluxo de caixa da propriedade. Se o produtor optar pelo cultivo integrado de floresta com lavoura e pecuária, poderá desenvolver as três atividades na mesma área, de modo que a produção da lavoura e da pecuária cobrirá os custos de implantação da floresta, desta forma a sua receita será líquida (em torno de R$ 1 mil por hectare/ano) e se traduzirá numa poupança verde, atestando que cultivar árvores pode dar muito dinheiro e que dinheiro pode dar em árvores.