Vida ao solo em todos os sentidos

 

Sistema que só faz bem à VIDA do solo

O plantio direto feito de forma plena, com rotação, cobertura e não revolvimento, proporciona o equilíbrio entre os atributos físicos, químicos e biológicos do solo

Dr. Ademir Calegari; Prof. Dr. João Tavares Filho; Dra. Marie Bartz; Profa. MSc. Adriana Pereira da Silva; Prof. Dr. Telmo J. C. Amado; Dra. Adriana Maria de Aquino; Prof. Dr. Ricardo Ralisch

O Sistema Plantio Direto (SPD) consolidado revolucionou a agropecuária brasileira e também a ciência agronômica, pois exigiu uma adequação de inúmeros conceitos, como o da fertilidade do solo. Tornouse mais importante entender a profunda interação existente entre os atributos físicos, químicos e biológicos do solo do que cada um isoladamente. Os grandes desafios das atividades agropecuárias são equacionar produtividades agropecuárias aceitáveis e regulares, maximizar a renda, minimizar os impactos ambientais negativos, maximizar os positivos e viabilizar as produções de larga, média e pequena escalas. Para tanto, é fundamental reconhecer e respeitar o meio ambiente explorado, para não degradá- lo, pois é isto que reduz as produtividades, aumenta a dependência de insumos externos, reduz a renda e aumenta a contaminação ambiental.

As plantas são dependentes da biodiversidade, do clima, da água e do solo. Agimos sobre o clima no longo prazo e socialmente, como é o caso do efeito estufa. Já a biodiversidade e as disponibilidades de água e nutrientes às plantas dependem do solo e de sua fertilidade, o mais frágil dos recursos naturais explorados pela agropecuária. No senso amplo, refere-se à capacidade de nutrir Fundação MT A GRANJA | 61 as plantas e, portanto, de gerar e sustentar a vida. Não se resume à disponibilidade e à dinâmica de nutrientes. Ela depende da capacidade de enraizamento das plantas, do comportamento hídrico e gasoso do solo, associados à fertilidade física do solo, à sua porosidade, consequentemente, à sua estrutura.

Finalmente, a fertilidade do solo depende intimamente do seu componente biológico, pois interage com a parte química em função da decomposição orgânica e reciclagem de nutrientes. Na parte física, age na agregação e na estruturação. Logo, a fertilidade do solo é um equilíbrio dinâmico entre os atributos físicos, químicos e biológicos e assim deve ser avaliado, interpretado e explorado para se obter a desejada sustentabilidade dos sistemas de produção.

Avanços com o SPD — O sistema plantio direto teve uma conotação ambiental desde sua origem em 1972, como alternativa no controle da erosão hídrica que assolava as áreas agrícolas na ocasião. Conforme o sistema foi evoluindo, as informações e os efeitos também foram sendo ampliados, levando a sua consolidação e aplicação nas mais variadas realidades e atividades agropecuárias. O SPD se baseia no tripé do mínimo revolvimento do solo, cobertura permanente de sua superfície e rotação de culturas, que passaram a ser adotados internacionalmente como fundamentos de agricultura conservacionista. A seguir, como cada um dos três fundamentos se relaciona com a fertilidade do solo.

Mínimo revolvimento do solo: o revolvimento do solo afeta diretamente a sua estrutura, a forma de organização das partículas dos solos e os poros, alterando o habitat dos microrganismos que regulam a taxa de decomposição da matéria orgânica e agem na ciclagem de nutrientes do solo. A diversidade microbiana do solo depende do regime hídrico, do manejo e da qualidade dos resíduos vegetais. Sua redução gera maior dependência de insumos químicos, seja para a adubação, como para o controle de pragas e doenças que se proliferam num ambiente desequilibrado. Outras consequências da desestruturação do solo são a compactação, a vulnerabilidade à erosão e a oxidação da matéria orgânica do solo que é emitida à atmosfera em forma de gás carbônico. Os custos ambientais e sociais destes efeitos são gigantescos e irrecuperáveis em alguns casos. A estrutura do solo se relaciona diretamente com as plantas, por meio do sistema radicular, pois à porosidade estão associadas os caminhos preferenciais das raízes e a de retensão de água que estará disponível às plantas, fatores que devem ser decisivos na decisão por algum tipo de mobilização do solo.

Cobertura permanente do solo: nos ambientes tropicais, de maior potencial agropecuário, o clima é muito agressivo à superfície do solo. A cobertura do solo age como uma proteção física a estas intempéries e, também neste aspecto, as atividades agropecuárias devem imitar a natureza, onde se observa que em vegetação nativa o solo está sempre coberto e com diferentes estratos ou alturas desta cobertura, como uma sucessão de guarda-chuvas ou para-sóis. Esta proteção auxilia na preservação das estruturas frágeis e a intensa atividade biológica da superfície, fundamentais ao equilíbrio da fertilidade e à reciclagem e disponibilidade de nutrientes.

Rotação de culturas: o mais importante dos três fundamentos do SPD, age diretamente nas propriedades da fertilidade do solo e é o menos evidente aos leigos. De menor adoção generalizada pelos produtores, foi o que mais agregou conceitos sistêmicos ao SPD. Neste campo há ainda informações importantes a serem obtidas principalmente quanto a dinâmica de nutrientes no perfil do solo, bioativação do solo e efeitos alelopáticos, entre outros.

Para promover uma diversidade biológica é fundamental que se tenha uma diversidade vegetal, pois é esta variedade de plantas que amplia o cardápio alimentar e propicia a biodiversidade. Esta riqueza de seres tende a diminuir a pressão de pragas e doenças, reequilibrando o meio ambiente da produção agropecuária, tornando-a mais harmoniosa com a natureza. Por isso que os produtores devem ser considerados ambientalistas por natureza e os bons produtores são mais naturalistas que muitos ambientalistas de plantão. O reconhecimento desta importância das rotações exige uma postura comportamental, que nem sempre é fácil de ser induzida nos produtores.

Imagem de um perfil de solo em avaliação da fertilidade e de enraizamento, que permite avaliar a qualidade do sistema de produção e não apenas um dos atributos do solo

A variedade vegetal também promove uma diversidade de raízes em termos de formatos, agressividade, etc., consequentemente exploram volumes de solos diferentes e deixam seus rastros e galerias em posições e profundidades diferentes do solo. É este mosaico de raízes promovido por uma rica rotação de culturas que alimenta a atividade biológica, preserva e recupera as estruturas do solo e sua porosidade, fixa a matéria orgânica no solo, definindo a maior parte do pretendido sequestro de carbono da atmosfera e intensifica a redistribuição e a reciclagem de nutrientes, tornando o solo menos dependente de fertilizantes e corretivos químicos. É neste horizonte que se encontram os limiares dos avanços agronômicos atuais, que devem definir e entender como cada planta age nesta reciclagem, para definir as estratégias mais adequadas.

Imagem ilustrando uma paisagem agrícola equilibrada com a natureza: lavouras, florestas, residências

Avaliações — Em termos de metodologias, as descritivas, como o perfil cultural do solo ou semelhantes, são muito úteis para avaliar o sistema de produção e permitem integrar as avaliações químicas, físicas e biológicas. Isoladamente, para a área da fertilidade química do solo as análises de rotina continuarão a ser a referência para este monitoramento. Para as avaliações da fertilidade física, a avaliação da estrutura representa boa parte da interação desta propriedade com as outras duas, mas não há uma metodologia definitiva para tal. As avaliações de comportamento de infiltração de água dão boas informações indiretas sobre isto. Para a área biológica, se buscam indicadores que possam representar a diversidade. Nas avaliações científicas, a biomassa microbiana tem dado muitas informações. Sabe-se que avaliar a macrofauna é mais ilustrativo e fácil de se obter a campo, sendo que já há grupos de pesquisadores definindo critérios concretos sobre as minhocas como este indicador.