Especial - Enxurradas sumiram do mapa

Drible na EROSÃO

Pesquisas concluíram que a erosão do solo pode ser reduzida em até 95% dependendo do tipo de cobertura sobre a superfície, já que as plantas e a palhada inibem a ação do principal agente erosivo: a gota da chuva

Eng. Agr. Leandro do Prado Wildner, MSc Agronomia - Biodinâmica e Produtividade do Solo, e Eng. Agr. Evandro Spagnollo, Dr. em Ciência do Solo, pesquisadores da Epagri/Cepaf, SC

Se em meados dos anos 70 ou nos 80 alguém dissesse que o caminho para o futuro da agricultura passaria pelo passado recente ou teria um caminho via primórdios dela mesma, seria chamado de louco. Talvez por isso que o pioneiro do plantio direto no Brasil, Herbert Bartz, foi chamado de “alemão louco”. Tomando- se por base os três princípios básicos do plantio direto (cobertura permanente do solo, mínimo revolvimento do solo e rotação de culturas) é possível, cronologicamente, voltar ao passado para, finalmente, rumar ao futuro. Considerando 1972 como o marco das primeiras experiências com plantio direto no Brasil, podemos dizer que foram necessários 30 anos para que passássemos a levar em consideração o que os pesquisadores norte-americanos Borst e Woodburn descobriram: a cobertura do solo como prática essencial para mitigar a erosão hídrica.

A cobertura do solo, seja viva, por plantas, ou morta, pela palhada, pode ser chamada de “guarda-chuva ou guarda-sol”, uma proteção providencial ao solo

Mas foi necessário muito mais tempo para que levássemos a sério os re- Leandro Wildner sultados obtidos nos experimentos centenários realizados na Estação Experimental de Rothamsted, na Inglaterra, sobre a importância da rotação de culturas como prática agrícola. E, finalmente, pasmem... foram necessários quase 10 mil anos para o homem voltar o olhar sobre si mesmo e acreditar que não era necessário utilizar implementos agrícolas para “preparar o leito de semeadura” e conseguir boas produções. Negar tudo o que aconteceu e voltar ao passado para imaginar um futuro-presente diferente seria inimaginável. Como teria sido a história da agricultura se o homem, desde as primeiras experiências de cultivo de plantas, não tivesse preparado (revolvido) o solo? E, mais recentemente, como teria sido, por exemplo, a “Operação Tatu”, que espalhou o calcário pelo Sul do país, se não existisse o tripé trator+arado=grade?

Assunto de outro mundo — Tentamos fazer esta breve reflexão introdutória sobre o plantio direto porque temos tido oportunidades de falar sobre manejo e conservação do solo para estudantes de cursos das ciências agrárias (nível médio e graduação, em especial) e para jovens agricultores que nasceram nos últimos anos do século passado. No início das palestras sempre fazemos uma revisão teórica e histórica sobre constituintes e estruturação do solo, preparo e erosão do solo. E, quando falamos, em especial, sobre erosão do solo, perdas de solo e água, voçorocas, danos em estradas, ressemeadura, etc., etc., etc., parece- nos que o assunto não se refere a este mundo.

“Lavrar e gradear tantas vezes quantas necessárias para deixar um bom leito de semeadura” era a orientação geral sobre preparo do solo para as culturas anuais, lá nos idos de 60, 70 e algo dos 80. No termo “bom leito de semeadura” estava subentendido superfície do solo “reduzida a pó” (destorroada) e nivelada. E tudo isto para que o herbicida fizesse o seu efeito e a máquina de semeadura, o seu trabalho. Era o “homem domesticando a natureza”; era o que costumamos dizer “deixar o solo como o diabo gosta”. Depois de tudo preparado, semeadura realizada, era hora de rezar para que não viesse “um toró ou uma bomba d’água” e levasse tudo morro abaixo. Mas, por outro lado, e apelando um pouco, temos a certeza de que, para Aquele que fez tudo neste universo, não era uma situação agradável ou desejada. Aliás, como um criador sentir-se-ia vendo parte de sua criação ser degradada aos poucos, a cada ciclo, a cada safra, a cada século, a cada milênio?

A matéria orgânica, decomposta ou não (palha), mantida na superfície ou incorporada, exerce influências diretas e indiretas nas propriedades físicas do solo

A cobertura do solo, viva (plantas) ou morta (palha), podemos chamar de “guarda-chuva ou guarda-sol”. Resultados de pesquisa indicam que a erosão do solo pode ser reduzida em, até, 95% dependendo do tipo de cobertura existente sobre a superfície do solo. Por que tamanha eficiência? Simplesmente porque a cobertura inibe a ação do principal agente erosivo: a(s) gota(s) da chuva. Neste caso a cobertura morta é uma técnica ou uma prática de conservação do solo que irá compor o sistema plantio direto. A cobertura do solo amortece o impacto das gotas de chuva, impedindo-as de bater diretamente sobre os agregados (estrutura) do solo, desestruturandoos (destruindo-os, dividindo-os em seus constituintes primários, as partículas de solo) ou já carregando-os, inexoravelmente, lançante abaixo com o fluxo de água que escoa sobre a superfície do solo.

Com a estrutura (agregados) do solo preservada, a infiltração de água se dá dentro dos parâmetros normais (maior em solo seco e em fluxo saturado em função das condições de textura, estrutura e do perfil natural do solo). Desta forma, quantidade maior de água infiltra (quando comparada com a infiltração de água em solo descoberto) para abastecer o lençol freático e todo o fluxo posterior do ciclo hidrológico fica equilibrado. Mas é importante ressaltar que a quantidade, a constituição química (C, N, C/N), as características físicas (comprimento, espessura e largura) dos resíduos vegetais que proporcionam cobertura do solo influenciam diretamente na eficiência do controle da erosão.

Quando não há mais chuva e o sol volta a aparecer na abóbada celeste, a cobertura do solo passa de guardachuva para guarda-sol. De “amortecedor de pingos de chuva” passa a “isolante térmico”. Graças à sua, em geral, coloração clara, a palha, enquanto absorve boa parte da energia calorífica do sol, reflete a outra restante, devolvendo-a ao cosmo. Desta forma, o calor que em outras situações aqueceria o solo e promoveria a evaporação imediata da água, é retido na palha – com isso, uma quantidade maior de água permanece, por mais tempo, à disposição das plantas. Em consequência, também, regula a temperatura do solo de forma a atenuar os picos máximos e mínimos nas horas mais críticas do dia, beneficiando tanto os seres que vivem dentro do solo (fauna e flora) quanto aqueles que usam o solo como suporte para crescer (plantas em geral). A temperatura do solo influencia diretamente no fluxo de absorção dos nutrientes pelas raízes e, também, todos os fenômenos fisiológicos relacionados ao desenvolvimento das plantas. Por outro lado, os organismos que vivem no solo são direta e completamente afetados pela temperatura (e, logicamente pela disponibilidade de água) do solo, em especial, nas épocas de temperaturas extremas (no forte do verão ou do inverno).

Todo o esforço inicial para a implantação do SPD visava ao controle da erosão do solo, ou seja, mitigar ou, até, eliminar a erosão do solo nas lavouras. Missão cumprida! Perto da realidade anterior em que milhões de toneladas de solo eram perdidas anualmente, o plantio direto foi altamente eficiente. A partir da consolidação do sistema, outras tantas vantagens começaram a ser observadas e constatadas. A cobertura do solo (palha) como uma das fontes primárias de matéria orgânica e esta como fonte de substâncias orgânicas e inorgânicas provocaram alterações em muitas das propriedades físicas e químicas e, também, na diversidade biológica do solo. Com a redução da erosão, houve redução das perdas de matéria orgânica e, com o não revolvimento do solo, não mais a incorporação e a intensa decomposição da palha no seu interior.

Carbono Orgânico Total — Com tudo isto, passou-se a observar a estabilização das perdas e, ao longo do tempo, até a recuperação dos níveis de matéria orgânica do solo, atualmente conceituada como Carbono Dirceu Gassen A matéria orgânica, decomposta ou não (palha), mantida na superfície ou incorporada, exerce influências diretas e indiretas nas propriedades físicas do solo A GRANJA | 59 Orgânico Total (COT) e um dos principais indicadores da qualidade do solo. Este indicativo é resultado do efeito da matéria orgânica sobre a disponibilidade de nutrientes para as culturas, principalmente, nitrogênio, fósforo e enxofre, e sua capacidade de reduzir a quantidade de elementos tóxicos (alumínio e manganês, por exemplo) via complexação. Com o efeito sobre a disponibilidade de nutrientes oriundos da mineralização da matéria orgânica, e da redução de perdas de nutrientes e da própria matéria orgânica pela erosão, foi possível reduzir consideravelmente os gastos com fertilizantes.

A matéria orgânica, decomposta ou não (palha), mantida na superfície ou incorporada, exerce influências diretas e indiretas nas propriedades físicas do solo. Como proteção superficial, como já comentado anteriormente, não permite a desagregação das partículas de solo, previne a formação de crosta superficial e, consequentemente, a diminuição da infiltração de água, o aumento do volume e da velocidade do escoamento superficial, da concentração e do tamanho dos sedimentos transportados e, portanto, a redução das taxas de perdas de solo e água. As propriedades físicas afetadas pela matéria orgânica, dentro do solo, são a estrutura, a capacidade de retenção de água, a consistência e a densidade do solo. Outras propriedades, tais como a porosidade, a aeração, a condutividade hidráulica e a infiltração, estão ligadas às modificações provocadas na estrutura do solo. Mas é interessante ressaltar que tais efeitos dependem circunstancialmente da qualidade e da quantidade de palha, dos fatores climáticos e das características de cada solo trabalhado.

É necessário registrar, ainda, a importância das raízes das plantas em benefício do solo. Sendo verdadeiros “narizes e bocas” das plantas, as raízes possibilitam o crescimento vegetal por viabilizar o ancoramento das plantas ao solo, possibilitam trocas gasosas com o solo, absorção de água e nutrientes do solo e liberação de exudatos para o solo. No entanto, as raízes realizam outras duas ações importantes para o solo: as raízes fasciculadas, como as raízes das gramíneas, formam uma verdadeira rede de raízes que promovem a agregação das partículas de solo e tornam os agregados já formados mais resistentes à erosão; e as raízes pivotantes, como das leguminosas, após sua decomposição, deixam uma verdadeira rede de galerias (bioporos) por onde a fauna do solo se desloca mais facilmente, assim como a água de infiltração. E, finalmente, com proteção na superfície e comida farta, houve uma explosão de vida dentro do solo. Com a adição de diferentes tipos e quantidades de resíduos vegetais (palha) colocados sobre a superfície do solo em função da rotação de culturas preconizada, disponibiliza grande quantidade de carbono, energia e nutrientes, que estimulam a proliferação de diferentes espécies de organismos do solo.