Especial - Cobertura a qualquer custo

Sem COBERTURA não tem plantio direto

O solo permanentemente coberto, tanto por plantas vivas como mortas, se mantém protegido contra a erosão e tem a sua temperatura e umidade preservadas, o que faz muito bem às plantas

Thais D’Avila

A cobertura do solo, tanto verde quanto palhada, é um fator indispensável para garantir os benefícios máximos do plantio direto. Manter o solo protegido apresenta diversas vantagens, que vão desde a redução da Fotos: Dirceu Gassen erosão até a preservação da umidade e da temperatura do solo. As vantagens das práticas ligadas ao plantio direto estão entre as poucas unanimidades existentes na área técnica. Os pesquisadores até apontam alguns problemas, mas reconhecem que a adoção do sistema – mesmo que incompleto – é a melhor saída para tornar a produção mais sustentável.

O coordenador do curso de Engenharia Agronômica da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq/USP), José Otávio Menten, é categórico: “Independente dos pontos negativos, o plantio direto é um grande avanço. O principal desafio ambiental da agricultura, a erosão, foi resolvido em 90% com o uso do sistema. Eventuais problemas, como o aumento de doenças, são contornáveis, desde que haja assistência técnica”. O aumento da ocorrência de doenças, referido por Menten, tem a ver com a falha em um dos processos do sistema de plantio direto: a rotação de culturas. Acontece que alguns patógenos, agentes de doenças, podem permanecer na palhada de uma cultura para a outra. Por isso, observar as culturas certas para fazer a rotação ou a sucessão – utilizando espécies que não sejam suscetíveis às mesmas enfermidades, pode eliminar o risco de elevação das ocorrências.

A grande diferença entre as temperaturas de solo coberto e nu modifica completamente aspectos como a manutenção da umidade e também a atividade biológica nas camadas mais superficiais

Além do cultivo de espécies que podem reduzir a ocorrência de doenças, a manutenção da palhada após a colheita tem efeitos impressionantes. A temperatura em solo nu, por exemplo, pode chegar a 70°C facilmente. Enquanto no mesmo período do dia, com solo coberto, a temperatura fica em torno de 35°. Essa diferença modifica completamente aspectos como a manutenção da umidade no solo e também a atividade biológica nas camadas mais superficiais. O integrante do Conselho Científico da Agricultura Sustentável Dirceu Gassen alerta que “organismos como o rizóbio e as micorrizas, que são benéficos às culturas, dependem de temperaturas amenas, abaixo de 36°, além de umidade e oxigênio”. Os três fatores podem ser obtidos com a manutenção da palhada e a movimentação mínima do solo.

A importância do diagnóstico — O pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) Ademir Calegari se orgulha em dizer que acompanha a adoção do plantio direto no Brasil desde a década de 70, nas primeiras iniciativas e, por isso, garante que o sistema pode ser utilizado em qualquer tipo de solo e clima, desde que seja feito o diagnóstico certo, para encontrar as espécies e o manejo adequados. Calegari orienta que, antes de tomar uma decisão sobre a cultura que irá utilizar para fazer a cobertura ou a rotação, o produtor precisa ter em mente algumas perguntas, que podem ser respondidas com base em um diagnóstico bem realizado. Este raio X do talhão deve levar em conta os aspectos físicos (agregação, infiltração de água), químicos (acidez, alumínio) e biológicos (micro e mesofauna).

Respondendo às perguntas abaixo, conforme Calegari, o produtor consegue tomar a melhor decisão, levando também em conta o clima regional.

- O que eu quero?
- O que eu preciso?
- Qual a finalidade?
- Qual tipo de solo, qual a fertilidade que eu tenho?
- Quais plantas vão conseguir o que eu quero?

Diferenciais em produtividade — Mesmo com produtores obtendo altas produtividades em lavouras bem conduzidas, algumas propriedades, mesmo utilizando todo o pacote tecnológico disponível, estão com o rendimento estacionado. Esse produtor consegue renda e obtém os benefícios do plantio direto, como o sequestro de carbono, o aumento do húmus e a manutenção da umidade do solo. Mas não chega no topo do potencial de uma cultivar, por exemplo. Para o pesquisador Calegari, quando isso ocorre, o produtor tem que fazer um diagnóstico mais aprofundado. “Existem fatores desconhecidos, organismos invisíveis ‘comendo’ a plantação do produtor por baixo”, alerta.

Calegari se refere ao nematoide Pratylenchus brachiurus, que vem sendo registrado com muita severidade nas principais culturas anuais. O Iapar tem desenvolvido uma série de pesquisas sobre este nematoide e já descobriu que algumas plantas têm o poder de diminuir sua presença no solo. “Algumas crotalárias, guandu, milheto BR 300 e aveia preta são culturas que, na rotação, podem diminuir a presença de nematoides”, revela.

Para manter o solo protegido ao longo do ano, o produtor precisa contar com o cultivo de plantas. E isso requer organização e uma gestão apurada. Esta é a opinião do professor da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista (FCA/Unesp/Botucatu) Ciro Rosolem. Para ele, nos pequenos estabelecimentos é preciso considerar até mesmo a rotação entre propriedades, como em uma cooperativa. Desta Divulgação forma, diz Rosolem, o solo e o potencial das culturas são preservados, mantendo o agricultor no campo, produzindo.

Regionalização — Para alguns pesquisadores, existem regiões mais aptas para a realização do plantio direto com cobertura permanente do solo. Conforme o pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), sediado em Campinas/SP, Sandro Brancalião, a região de São Paulo tem mais dificuldade, por exemplo, em formação de palha. “A permanência da fitomassa está associada a diversos fatores, como a ocorrência de chuvas. Aqui em São Paulo temos condições inferiores às do Paraná e do Rio Grande do Sul, por exemplo. O mesmo ocorre em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.” A solução, segundo Brancalião, seria manejar adequadamente o nitrogênio nas plantas de cobertura, para, com isso, melhorar a persistência da palha no solo. “Adubando corretamente uma forrageira ou planta de cobertura, é possível elevar o aporte de fitomassa no sistema”, conclui.

Como existem muitas diferenças regionais, o agricultor vai adaptando, testando, e depois vem a pesquisa e valida as ações. “No plantio direto, muitas vezes o produtor sai na frente da pesquisa”, admite Brancalião. Conforme o pesquisador, o produtor já sabe que a permanência da palha diminui a amplitude térmica, mantém a umidade e aumenta o número de dias plantáveis. “Em algumas localidades ainda existe resistência por parte do produtor em aderir ao sistema, mas isso vem mudando graças às descobertas e ao exemplo de produtores que estão colhendo mais em áreas que têm boa cobertura do solo.”

Como garantir uma boa palhada — A gramínea deixa mais palha no solo, e a leguminosa, mais nitrogênio. Por isso, o pesquisador Brancalião ensina que a relação ideal para a permanência da palhada no solo por mais tempo é a que tem maior presença de carbono. No húmus, por exemplo, que já teve a palha degradada, a presença de carbono é de 12 partes para uma de nitrogênio; já no arroz, que mantém boa quantidade de palha no solo, a relação é de 40 x 1. Mesmo com uma relação carbono x nitrogênio mais favorável à persistência de palha, é preciso realizar o manejo e a rotação das culturas, para progredir na sanidade do solo e melhorar outros aspectos como a infiltração de água e a aeração do solo.

Segundo Calegari, para manter o solo protegido ao longo do ano é preciso cultivar plantas como a crotolária, que ainda combate nematoides