Sem alterar culturas, o SPD é uma farsa

DIVERSIDADE que só traz benefícios

A alternância de cultivos numa mesma área é um dos pilares do plantio direto porque potencializa seus resultados e promove a saúde do solo

Denise Saueressig
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Muitas vezes o mercado dita as escolhas do produtor. Preços de commodities em alta ou em baixa acabam definindo como a lavoura será formada de uma safra para a outra. Mas será que essa é maneira mais indicada de iniciar o planejamento de um novo ciclo? Claro que as oportunidades de comercialização precisam ser consideradas, mas o cuidado com a saúde do solo e com a sustentabilidade do sistema é ainda mais importante. No plantio direto, a rotação de culturas é um dos fundamentos básicos para o sucesso do esquema produtivo. É a alternância que vai possibilitar a cobertura permanente da terra. “Essa proteção, com plantas vivas na maior parte do tempo, é o aspecto mais importante para o sucesso da técnica”, define o engenheiro agrônomo Luís Carlos Hernani, pesquisador da Embrapa Solos.

São justamente os diferentes sistemas radiculares vivos, capazes de explorar diversas profundidades, com potencial de reciclagem diferenciado, que agregam qualidade, saúde e valor à terra. “A rotação e a consorciação permitem a ampliação da biodiversidade, que gera melhor aproveitamento da água e dos nutrientes e promove a quebra do ciclo de vida e o controle de organismos causadores de pragas e doenças”, destaca.

Além dos benefícios ligados diretamente à lavoura, a rotação permite um melhor aproveitamento da estrutura da propriedade, como máquinas e mão de obra. Investindo em mais culturas, o agricultor também contará com fontes alternativas de renda, diminuindo a dependência em momentos desfavoráveis do mercado.

A rotação pode ir além e envolver a integração de sistemas, como no caso da lavoura-pecuária-floresta. Um bom exemplo e que está em expansão com sucesso é a rotação de lavoura de soja com pastagem (braquiárias), afirma o pesquisador Júlio César Salton, da Embrapa Agropecuária Oeste. “Nesse sistema, o cultivo da soja é interrompido, geralmente por um período de duas safras de verão, sendo o talhão ocupado por pastagem. Após este tempo, a pastagem é dessecada e é efetuada a semeadura da soja em plantio direto. A soja se beneficia ao ser cultivada em um ambiente limpo de agentes nocivos, garantindo ótima produtividade”, justifica.

Informação para mudar - Por questões econômicas e até pela desinformação, é comum encontrar nas lavouras brasileiras a prática da sucessão de culturas, no lugar da recomendada rotação. O milho safrinha sucede a soja em grande parte do país e, na Região Sul, as culturas de inverno, como o trigo, são cultivados depois da oeaginosa. Com o preço da soja como está, fica difícil convercer o produtor a mudar esse esquema, reconhece a pesquisadora Lutécia Canalli. "Além do fator financeiro, é a facilidade de um sistema simplificado que atrai o agricultor. Toda mudança requer conhecimento prévio para ser iniciada, além de preparação da parte operacional da propriedade", conclui.

A sucessão pode ser positiva por algum tempo, mas, para a sustentabilidade do sistema, será prejudicial num longo prazo. “A praga ou a doença não surge de uma hora para a outra, mas quando aparecem provocam impactos importantes na rentabilidade do produtor, que precisará, no mínimo, gastar muito mais para controlar o problema”,

aponta o pesquisador Luís Carlos Hernani, citando o caso dos nematoides, que é frequente em monocultivos. “As doenças são controláveis, mas, se queremos um ambiente cada vez mais saudável do ponto de vista ambiental e econômico, temos que usar o mínimo de defensivos”, pontua.

A implantação de um sistema rotacionado exige monitoramento e controle absoluto sobre cada gleba, com análise do solo. A avaliação do mercado também é importante para estabelecer o arranjo das culturas ao longo de um mesmo ano e dos vindouros. “O produtor pode começar com um esquema mais simples, como, por exemplo: soja, seguida de nabo forrageiro no inverno, seguido de milho no verão. Um arranjo um pouco mais complexo inclui outras culturas e consorciações, como: soja precoce seguida por milho safrinha + braquiária, e algodão. Outro sistema mais diferenciado envolveria as seguintes opções: soja no verão e nabo forrageiro no inverno; milho no verão e nabo forrageiro seguido por milheto no inverno; e algodão no outro verão. Nesse caso, seriam três ciclos com culturas diferentes. É um esquema que traz retornos econômicos e ambientais interessantes. No entanto, cada situação de solo, clima, mercado e até cultural deve ser considerada para a definição dos arranjos produtivos”, esclarece Hernani.

Período de adaptação — Para aqueles que pensam em adotar um sistema rotacionado, a pesquisadora Lutécia Canalli sugere uma adaptação feita aos poucos. “Vamos pensar num produtor que cultiva soja no verão e trigo no inverno e, no verão seguinte, soja novamente e aveia no inverno. Ele pode começar a introduzir o milho junto com a soja, deixando, por exemplo, dois terços da área com soja e um terço com milho. Esse não é nosso ideal de rotação, mas é um começo para a mudança”, assinala.

Para ela, um bom exemplo de alternância seria um esquema como esse a seguir: trigo no inverno e soja no verão; canola no inverno seguinte e milho no verão; triticale no terceiro inverno e soja no verão. “A canola é uma cultura que vem mostrando crescimento no mercado, enquanto o triticale é mais rústico do que o trigo e, por isso, é uma lavoura com menos riscos. Mas se o produtor não quer optar por esse tipo de variação, ele pode fazer, no inverno, um consórcio com aveia preta, ervilhaca e nabo forrageiro. É importante nunca esquecer que deixar a terra em pousio é totalmente desaconselhável e prejudica a fertilidade do solo”, observa.

A pesquisadora ressalta que o ideal é que a rotação cumpra um ciclo de três anos, até para que os resultados sejam percebidos com mais clareza pelo produtor. “Quanto mais diversa for a rotação, melhor será para o sistema”, declara Lutécia. A melhoria geral das condições do solo ainda promove aumento nas produtividades. “Há estudos que mostram, por exemplo, que o uso de plantas de cobertura pode incrementar os rendimentos da soja e do milho em torno de 30%”, cita a pesquisadora.

A preocupação com o excesso de simplificação percebido em muitas propriedades levou o Iapar a criar um projeto de pesquisa que vai avaliar os sistemas de produção em plantio direto. O objetivo é alertar os agricultores para a importância da prática da rotação. A partir de março, serão implantados experimentos de longa duração (mais de 20 anos) em cinco regiões distintas do Paraná.

Alternância além das culturas — Desde o início dos anos 80 o plantio direto é a prática absoluta nas terras dos irmãos Willem e Jean Leonard Bouwwman. Os dois aprenderam as premissas do sistema com o pai, Gerbert Bouwman, um dos precursores do PD na região dos Campos Gerais do Paraná. Com propriedades em Castro e Tibagi, no Paraná, e em Itararé, sul de São Paulo, os irmãos nunca deixam as áreas de lavoura descobertas. Mas o sucesso do sistema vai além da alternância das culturas, ressalta Willem Bouwman. “Essa é apenas uma das pontas do processo. Procuramos fazer a rotação de espécies, de cultivares e até de sementes transgênicas e convencionais. Assim, também rotacionamos os produtos utilizados nas áreas e evitamos a seleção de pragas resistentes a determinado defensivo”, ensina o produtor.

O detalhamento do sistema pede um planejamento de longo prazo para as lavouras. Com a ajuda de um engenheiro agrônomo, os irmãos pensam cada talhão com antecedência de dois ou três anos. “Os pequenos ajustes ocorrem pela influência de fatores externos, como o comportamento do mercado ou as previsões climáticas”, explica. Normalmente, a rotação obedece ao seguinte esquema na safra de verão: cerca de 30% da área é plantada com o milho, entre 10% e 15% da lavoura recebe o feijão e entre 55% e 60% da área é ocupada com a soja. No período de inverno, o trigo ocupa 45% do espaço, a aveia branca é cultivada num intervalo entre 10% e 15% da área, a aveia preta para cobertura é plantada em uma parcela entre 35% e 45% da lavoura e, em 5% da área, é semeada a aveia preta para consumo próprio como semente.

Luís Carlos Hernani, pesquisador da Embrapa: diferentes sistemas radiculares vivos agregam valor, saúde e qualidade à terra

Como exemplo de cultivo rotacionado em uma mesma área, o agricultor cita o plantio de aveia preta no inverno, seguida por milho no verão. No próximo inverno é a vez do trigo, que é seguido pela soja ou pelo feijão na safra de verão. No outro inverno, a aveia branca ocupa a lavoura, com a soja ou o feijão entrando na sequência. O ciclo recomeça novamente com a aveia preta no inverno. Quando há o plantio do milho, em 30% da área ocupada pelo cereal é realizado o cultivo do feijão safrinha. O processo é possível com a antecipação do plantio e da colheita do milho. “O feijão é uma cultura de crescimento rápido e ainda nos dá mais uma possibilidade de renda. Depois da colheita do feijão, que ocorre no mês de maio, conseguimos fazer o plantio do trigo”, descreve Willem.

Lutécia Canalli, pesquisadora do Iapar: implantação de um sistema rotacionado exige conhecimento técnico e preparação operacional

Resultado na conta final — Os benefícios da rotação são inúmeros, exalta o produtor, lembrando que tudo começa com a maior proteção do solo. “Quando intercalamos uma leguminosa com uma gramínea, conseguimos reunir os aspectos positivos das duas culturas. A palha da leguminosa se decompõe mais rápido, mas a planta promove maior fixação de nitrogênio. Com a gramínea, é o contrário”, enumera. A diversidade também ajuda a controlar problemas fitossanitários. Uma das doenças enfrentadas por produtores dos Campos Gerais – o mofo branco que ataca o feijão e a soja – pode ser combatida com a introdução de gramíneas ou outras plantas de comportamento diferente na mesma área. “A economia é absorvida pelo sistema, já que conseguimos diminuir o aparecimento do agente causador do dano”, relata Willem.

As condições favoráveis criadas pela biodiversidade também aparecem em épocas de falta de chuva, pela retenção da umidade no solo. “Lembro que enfrentamos uma estiagem severa há uns cinco ou seis anos. Tivemos problemas, principalmente no milho, mas as perdas não foram tão significativas e conseguimos pagar nossos custos de produção”, recorda o produtor.

O manejo nas lavouras dos irmãos Bouwman ainda é traduzido em altas produtividades, com índices acima das médias da região. Nos últimos dez anos, as áreas de milho cultivadas pela família renderam, em média, 10,5 mil quilos por hectare, enquanto a média local é de 9,8 mil quilos. Na soja, o rendimento é calculado em 3,6 mil quilos por hectare.