Franke Dijkstra, muito além de uma técnica

“O plantio direto não é somente uma técnica DIFERENTE”

No início dos anos 1970, por causa da erosão, era mudar ou mudar. “Não se tinha outra escolha”

Produtor Franke Dijkstra, precursor do plantio direto no Brasil

A sensação de estar fazendo algo que tinha seus dias contados, vendo o solo ano a ano perdendo sua resistência pelo excesso de preparos, a erosão e a degradação se agravando, nos fez pensar qual o nosso futuro. Assim não podíamos continuar. A terra não tinha vocação? Ou poderíamos mudar? Ou nos dar como vencidos? Era mudar ou mudar; não tínhamos outra escolha. Primeiro pensei em reduzir a lavoura aproveitando somente as áreas mais planas. Foram muitas as outras tentativas na busca de diferentes soluções. Picadores de palha pós-colheita (na época as colheitadeiras não vinham com os picadores, eram opcionais) para não mais queimar a palha, a tubulação subterrânea para escoar a água pelas manilhas, o preparo mínimo... mas todos sem a eficiência desejada e que não controlou a erosão, muito menos a degradação. Nenhuma destas técnicas nos dava uma segurança duradoura.

Observando o que acontece na natureza, você observa como a terra quer e deve ser tratada. A terra é como um corpo, cada preparo é como um ato cirúrgico da qual ela se recupera, mas leva um tempo. Não se trata de uma composição química, mas um corpo com vida. E, quando bem tratada com plantio direto de qualidade, vai alimentar outras tantas vidas!...

A grande questão é como nos manter na atividade? E os nossos filhos, qual seria o futuro deles? A necessidade faz o homem mudar de rumo. Como na época a agricultura mais intensiva era com duas culturas ao ano – trigo e soja –, o plantio direto era uma nova proposta de produ- Fotos: A Granja ção, parecia muito promissora, mas sem algum trabalho de médio ou longo prazo. A fragilidade do solo com as condições do nosso clima logo nos induziu a mudanças. Observamos que estávamos ainda experimentando fazer agricultura nestas terras, com pouca vivência do como trabalhar o solo. E não comparar com as áreas da Europa ou de outras regiões de clima temperado, onde se faz somente uma cultura no ano e a degradação também acontece, mas de forma bem mais lenta.

Em 1975, por meio da comissão Central das Cooperativas ABC, convidamos, da Holanda, o engenheiro agrônomo Hans Peeten para desenvolver um sistema de produção viável nas terras dos Campos Gerais, onde logo o plantio direto se destacou como a melhor saída para a nossa agricultura. Assim nasceu a Fundação ABC, para uma pesquisa mais regional focada nos Campos Gerais. Não demorou e por meio de um convênio com a Embrapa e o Iapar obtivemos um embasamento técnico científico para o sistema. A motivação pelos efeitos benéficos foi tão grande que organizamos o primeiro, o segundo e o terceiro Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha.

Passamos por erros primários, mas, com o tempo e o trabalho em equipe, grandes avanços foram conquistados.

Franke Dijkstra (à dir.), com Herbert Bartz: “Observando o que acontece na natureza, você observa como a terra quer e deve ser tratada”

Começando pelo equipamento, o controle das ervas e a rotação mais adequada e econômica para a região. Chegamos logo a um sistema de produção, sempre mantendo o solo coberto com uma boa palhada. Com possibilidades em algumas áreas de até mais de duas culturas no ano. A matéria orgânica ano a ano estava aumentando, abrindo uma janela para outras oportunidades. Uma parte da cobertura podia ser utilizada na alimentação do gado leiteiro. Esta retirada da cobertura saiu prejudicando principalmente a produção da soja, apesar dos bons níveis de matéria orgânica, a falta de cobertura prejudicou em até 500 quilos/hectare de rendimento. Isso não foi visível no milho.

Atualmente, separamos uma área para a produção de forrageira, onde em duas áreas usamos um ano para forrageiras e outro ano para grãos. Quando, após três cortes de forrageiras, duas safras de milho e uma de cevada, chegamos a 120 toneladas de forragem/hectare/ ano, conseguindo transformá-la em 50 mil a 60 mil litros de leite por hectare/ ano. Dentro da necessidade da alimentação também encilamos soja no estágio 3 a 4 (no começo da formação de vagens), um dia após o corte o encilamos, o que oferece bons níveis de proteína em pequeno espaço de tempo. Em todos os dejetos produzidos pelo gado e pelos suínos, separamos os sólidos do líquido; o sólido vai para a compostagem para depois ser distribuído na lavoura mais distante, enquanto o líquido passa primeiro pelo biodigestor, e com o autopropelido devolvido à terra, ambos já sem odor.

Segundo Dijkstra, os precursores do plantio direto passaram por erros primários, mas, com o tempo e o trabalho em equipe, grandes avanços foram conquistados

No balanço de minerais (nutrientes), na área usada para a pecuária é muito pouco o que devemos complementar em nutrientes, pela rotação de culturas mais nitrogênio, que extraímos mais do que repomos na mesma área. Esta diversificação se tornou possível pelo crescimento da família, sendo um filho responsável pela agricultura e o segundo, pela pecuária de leite e suínos. Sempre o maior interessado e com vocação na frente de cada negócio consegue fazer a diferença. Os desacreditados, vendo estas possibilidades e os avanços, logo aderiram a estas técnicas, o ver para crer. A terra mostrou como quer ser tratada, pois a terra exclui os aqueles que não o tratam com responsabilidade!...

Tudo começou com a primeira visita a fazenda de Herbert Bartz em Rolândia/ PR. Como na época normalmente o produtor passava horas no balcão do Banco do Brasil conversando com o Manoel Pereira, o Nonô, pois ele também tinha começado com alguns testes de plantio direto, acompanhado pelo agrônomo Américo Meininke, esta troca de ideias com Nonô e Herbert Bartz e os agrônomos Hans e Américo foi fundamental para o desenvolvimento de um sistema de produção revolucionário de plantio direto na palha com rotação de culturas.

Logo o time cresceu e se avolumou. Formamos um grande time para o desenvolvimento e a divulgação do plantio direto na palha. E muitos seguiram este bom exemplo convencidos pelos bons resultados do campo. Hoje, é grande o número de pessoas que divulgam o plantio direto na palha mundo afora. Quero destacar a garra na divulgação de Nonô, e Herbert Bartz pelo pioneirismo. E também o agrônomo Hans Peeten na geração de novas ideias e técnicas e que nos convenceu do valor da palha e da rotação de culturas. E muitas outras técnicas para o melhoramento do sistema. Trabalhos que não podem mais parar!...