Herbert Bartz, SPD com paternidade assumida

Herbert Bartz, o PAI do plantio direto no Brasil

“Fechei meus olhos e me atirei ao abismo, aguardando aonde isso me levaria!”. Assim ele define o primeiro plantio feito pelo sistema, uma lavoura de soja, em outubro de 1972

Marie L. C. Bartz, filha e bióloga, e Johann Bartz, filho, agricultor e engenheiro agrônomo

No início dos anos 1970, uma das maiores dificuldades para os agricultores eram as perdas de produção na lavoura e de solo devido à erosão. Isto se dava em grande parte como reflexo do sistema de manejo do solo utilizado na época – o cultivo convencional, que tinha como referência o modelo europeu de preparo intensivo do solo com máquinas pesadas (grades e arados) que expunha o solo às intempéries aqui no clima tropical. O processo erosivo causado pelas chuvas se tornara tão intenso que o produtor Herbert Bartz chegou a ter que replantar até quatro vezes a mesma safra de verão.

Mas uma noite quente, em novembro de 1971, fez Bartz rever seus conceitos de produção quando um temporal se aproximava do Sítio Rhenânia, em Rolândia/PR. Herbert, sem conseguir dormir e preocupado por ter recém plantado sua lavoura de soja, resolveu ver sua lavoura. Nesta noite teve, indiscutivelmente, uma das mais espantosas experiências em sua vida: uma chuva de 90 milímetros em uma hora lavou o solo sob seus pés, carregando toda sua produção embora. Este foi o marco que fez com que Bartz saísse à procura de alguma alternativa que tornasse a produção viável e menos impactante e degradante.

Bartz conhecia Rolf Derpsch, pesquisador do convênio da missão alemã DED (atual GTZ) e do Governo brasileiro, e sabia de sua opinião e trabalhos com conservação de solo no Ipeame (atual Iapar). Foi através de Rolf que conheceu o plantio direto (PD). No final de 1971, Bartz adaptou uma enxada rotativa Howard sob uma semeadora alemã Amazone e realizou o plantio de trigo, em 1972, numa tentativa de um cultivo mínimo. O resultado não foi o esperado, uma vez que o solo era revolvido nos primeiros 5 a 8 centímetros para incorporação das sementes e se esta camada fosse atingida por uma chuva forte nos período de germinação das sementes, ela seria toda perdida pela erosão. Mas esta era a única opção que disponível naquele momento.

Os engenheiros agrônomos Brian O’Dwyer e Terry Willes, da ICI, também tiveram um papel importante neste período, pois defenderam o PD perante a empresa que começou a investir em pesquisas em PD e convenceram Bartz dos benefícios da técnica. Foi por meio de um dos únicos artigos científicos da época que falava da técnica chamada “no-till” nos EUA, dado por Rolf a Bartz, que ele resolveu, então, investir numa viagem para a Europa e aos Estados Unidos, pois precisava conhecer de perto esta técnica.

Bartz, ao lado da placa que comemora os dez anos do plantio direto em seu “berço”, se obrigou a procurar uma alternativa depois de uma enxurrada que acabou com sua plantação

Visita aos Estados Unidos — Em início de junho, já nos EUA, visitou a propriedade de Harry Young, que praticava o “no-till” há dez anos em suas áreas. Essa visita foi intermediada pelo extensionista Shirley Phillips, da Universidade de Kentucky, que possuía larga experiência e trabalhos com o “no-till”. A visita estava programada para demorar duas horas, uma vez que Harry Young estava em pleno plantio da safra de milho, porém, tamanho foi o entusiasmo de Bartz ao chegar e ver como Young conduzia sua lavoura que acabaram tirando o dia todo conversando e compartilhando experiências. Foi com a ajuda de Young e Phillips que Bartz conseguiu comprar uma máquina para PD da empresa Allis Chalmers, em Wisconsin. A empresa esteve disposta a despachála para o Brasil mesmo sem o pagamento da máquina. Bartz realizou o pagamento assim que retornou ao Brasil, antes que a máquina fosse embarcada.

Chegando ao Brasil, Bartz passou por diversos problemas, desde a perda de toda a lavoura de trigo por uma geada até a sobretaxação de impostos da máquina importada dos EUA sob a alegação de que havia máquinas similares nacionais. Para atender a estes compromissos, Bartz teve que fazer uma “ginástica” financeira. Para cobrir os custos dos impostos da máquina, contraiu um empréstimo como se fosse comprar um carro num banco de São Paulo. Para pagar as dívidas do custeio do trigo, vendeu todo seu equipamento de plantio convencional (grades e arados), três tratores e uma colhedeira.

Passando por todo esse processo, Bartz tinha em mente iniciar o plantio direto em 10% de sua área, mas naquela situação teve que ser em 100%, uma vez que ficou somente com o equipamento básico para o plantio. “Fechei meus olhos e me atirei ao abismo, aguardando aonde isso me levaria!” Bartz realizou o plantio de soja com a Allis Chalmers em final de outubro de 1972. O desempenho desta máquina não foi tão bom quanto se esperava, principalmente devido aos elevados teores de argila que nossos solos contêm. Mas com a adaptação feita da Rotavator (importada da Inglaterra), no início de 1973, numa Rotacaster, adequando esta aos nossos solos, os resultados começaram a atender às suas expectativas. E em 1974 um grupo de japoneses de Mauá da Serra/PR, com as mesmas preocupações que ele teve anos antes com a erosão, visitou a Fazenda Rhenânia e levou o PD para a região de Mauá da Serra.

Redução de custos — Já nestes primeiros anos, Bartz e outros agricultores começaram a perceber que a redução de custos no PD era de pelo menos 60% em comparação ao sistema convencional. Porém, os problemas com as ervas daninhas eram significativos e apareciam indícios de compactação, e isso dava ares de que o PD não vingaria. Em Rolândia e região alguns agricultores aderiram ao sistema, mas devido às dificuldades enfrentadas nos primeiros anos, alguns acabaram desistindo. Apenas Braulio Barbosa Ferraz, proprietário da Fazenda das Antas, em Andirá, e os japoneses de Mauá da Serra permaneceram lutando nesse novo sistema. E Bartz, conhecido por sua teimosia e por instintivamente sentir que este era o caminho, se manteve firme seguindo no PD. As dificuldades apenas o impulsionaram adiante à procura de alternativas e soluções.

Plantadeiras históricas de Bartz em atividade no início dos anos 1970: Allis Chalmers (esq.), Amazone (centro) e Rotacaster (dir.)

A fama do “alemão louco que plantava na marmelada” crescia, já que Bartz preferia perder produtividade para o mato a perder o solo para o rio. E cada vez mais apareciam interessados para conhecer o que se passava e como funcionava o tal do plantio direto na Fazenda Rhenânia. Conforme foram superando algumas das dificuldades que apareceram, o PD se mostrava cada vez mais benéfico e eficiente.

Em 1976, Manoel Henrique Pereira (o Nonô) e Franke Dijkstra chegaram, dos Campos Gerais até a Rhenânia, para conhecer o PD. Este pode ser considerado um ponto crucial para o início da difusão do plantio direto entre os agricultores. Acabaram por se tornar grandes amigos e tinham (têm até hoje) em comum atuar em prol do plantio direto. Em 1979 nasceu o “Clube da Minhoca”, em Ponta Grossa, precursor dos futuros “Clubes Amigos da Terra” e que em 1992 deu origem à Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (Febrapdp). O reconhecimento da importância do SPDP pelo Governo brasileiro ocorreu em 2009, quando foi concedida a Bartz a Medalha Apolônio Salles pelos serviços prestados à agricultura brasileira. Para Bartz não foi um reconhecimento somente à sua pessoa e ao seu trabalho, mas sim a todos que participaram da história do plantio direto, pelos esforços e pela realização dos objetivos ambientais que são propostos hoje já naquele tempo em que iniciaram o plantio direto.