Especial - Máquinas que construíram o SPD

 

As MÁQUINAS que viabilizaram o PD

Do início, com a Rotacaster e a Allis Chalmers, até os dias de hoje, com os múltiplos modelos disponíveis fabricados pelas empresas nacionais, como foi a evolução das plantadeiras

Ruy Casão Junior, Augusto Guilherme de Araújo e Rafael Fuentes Llanillo, pesquisadores do Iapar

Devido à necessidade de convivência com as ervas daninhas, somente após o lançamento do herbicida de contato Paraquat, da Imperial Chemical Industries – ICI, em 1961, que o sistema de plantio direto pôde ser estabelecido. Herbert Arnold Bartz foi o pioneiro nesse sistema em escala comercial. Seu interesse foi despertado em uma noite de 1971, durante uma chuva de 90 milímetros. Era arrendatário e havia nascido aí sua obsessão de encontrar uma alternativa ao sistema convencional que causava tanta erosão. Chegou à conclusão de que qualquer coisa que desestruturasse o solo comprometeria a sua conservação. Procurou o Instituto de Pesquisa de Experimentação Agropecuária Meridional (Ipeame), em Londrina/PR, e, por meio de Rolf Derpsch, foi informado sobre o que se traduziu por “plantio direto”, pois se resumia em abrir somente um sulco para deposição de sementes e fertilizantes.

Herbert Bartz e a histórica plantadeira Allis Chalmers de 8 linhas para a soja e 6 linhas para o milho que ele encomendou à fábrica americana

Bartz conta ainda que foi com o pessoal da ICI à Inglaterra visitar alguns produtores de cevada e trigo no sistema no-till (sem arar), os quais usavam uma máquina parecida com a Rotacaster, com resultados surpreendentes, principalmente quanto à conservação de água. Contudo, não ficou muito convencido e viajou para os Estados Unidos, na região de Lexington, Kentucky, sendo recebido pelo pesquisador e extensionista dr. Shirley Philips, que assessorava o produtor Harry Young a 300 quilômetros de distância, em Herndon, Virginia. Sozinho conduzia uma fazenda de 800 acres semeando milho no sistema no-till.

Havia milho já na altura do joelho, e ele semeava com uma Allis Chalmers de seis linhas com rendimento de 30 a 50 acres por dia. Bartz confessa que naquele momento convenceu-se de a mudança era possível. Encomendou à fabrica uma máquina de 8 linhas de soja e 6 para milho para trazer ao Brasil e iniciar a mudança. Entretanto, ao chegar, foi surpreendido por perder sua lavoura de trigo pela geada, passando sérios problemas financeiros, sendo obrigado a semear 200 hectares de soja em plantio direto já naquela oportunidade.

A Semeato e a Embrapa, em 1979/80, criaram o primeiro protótipo da TD que usava discos triplos, e a empresa lançou a TD 220 e, posteriormente, a TD 300

Poucos anos depois, um momento de forte adoção do SPD deu-se na colônia japonesa de Mauá da Serra/PR, a partir de 1974, e na região de Ponta Grossa, nos Campos Gerais paranaenses, a partir de 1976 com a liderança dos produtores Franke Dijkstra e Manoel “Nonô” Henrique Pereira. Essa última iniciativa resultou na criação do Clube da Minhoca, Fundação ABC, Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (Febrapdp) e Confederação das Associações Americanas para uma Agricultura Sustentável (Caapas), servindo de inspiração para criação de diversos Clubes de Amigos da Terra e outras instituições disseminadas pelo Brasil.

Nonô Pereira relata que o dr. Américo Meinicke, da Acarpa (atual Emater/ PR), aconselhou-o a utilizar o plantio direto. Traduziu da revista americana “Business Week”, que publicava sobre o assunto, e também tinha notícias das experiências de Bartz, em Rolândia/PR, de Bráulio Barbosa, de Ibiporã/PR, com a Rotacaster nos Campos Gerais, e de Décio Vergani e Lúcio Miranda, entre outros. Segundo ele, esses e outros pioneiros semeavam com a Rotacaster por cima da palha e, depois, o “capim marmelada” escondia toda a soja. Nessa fase, foi procurado pelo Dr. Rubens Dinergui, da ICI, que se prontificou em fazer testes usando Paraquat e Diquat. A dificuldade inicial era a indisponibilidade da máquina, o que o levou a comprar a Rotacaster, em setembro de 1976, e a colocar o pulverizador Hatsuta nas entrelinhas da semeadora.

Nessa época houve uma reunião dos pesquisadores Osmar Muzilli e Fernando de Almeida, do Iapar, com John Wiles da ICI, e ao perguntarem quais eram as ervas que mais prejudicavam a produção, a resposta foi o trigo, o que os deixou surpresos. Mas eram estas sementes que rebrotavam depois da passagem da Rotacaster, devido à mobilização do solo pelas enxadas rotativas, estimulando a germinação no meio da soja, onde o controle químico não era eficiente.

Na safra 1976/77 Nonô procurou Franke Dijkstra, que utilizara uma PS 6 da Semeato para semear, com sucesso, sobre a palha de trigo com discos duplos nos adubos e nas sementes como no sistema convencional. Pediu ao Paulo Rossato, proprietário da Semeato, uma barra porta-ferramenta para adaptar um disco de corte na PS 6, reforçando que o Dijkstra também estava fazendo um bom trabalho e a máquina plantava. Nesta ocasião, o Iapar e o Centro Nacional de Pesquisa de Trigo da Embrapa passaram a realizar pesquisa sistemática no SPD, surgindo em 1981 o primeiro livro do assunto publicado pelo Iapar com apoio da ICI. O Iapar concentrou grande esforço na pesquisa e difusão de práticas conservacionistas a partir de sua criação, em 1972, e iniciou pesquisas com SPD, em 1976, envolvendo uma grande equipe multidisciplinar.

José Antônio Portella, do Centro Nacional da Pesquisa do Trigo da Embrapa, conta que a ICI fez uma parceria com a Embrapa e a Semeato, trazendo Laurie Richardson, da Inglaterra, em 1979, para ajudar a trabalhar com a semeadora Bettinson, adequando-a para plantio direto. Assim, a Semeato e a Embrapa, em 1979/80, criaram o primeiro protótipo da TD que usava discos triplos, e a Semeato lançou a TD 220 e posteriormente popularizou-se na geração seguinte TD 300.

Adaptações — Outras empresas, como Imasa, Fankhauser e Lavrale, também foram bem atuantes. Produtores pioneiros e oficinas locais do Paraná e do Rio Grande do Sul destacavam-se por realizar adaptações, principalmente na tentativa de semear culturas de verão, predominantemente a soja. Isso em função de que a máquina disponível nos anos 70 era a Rotacaster, que além de mobilizar exageradamente o solo, tinha baixo rendimento. O mercado no início dos anos 80 já dispunha de semeadoras de fluxo contínuo para o SPD, principalmente da Semeato, Imasa, Fankhauser, Marchesan e Baldan.

A década de 80 foi um período de estudos e laboratório, em que não havia uma definição clara de como uma semeadora de SPD deveria trabalhar. Os produtores e oficinas locais adaptavam semeadoras de precisão convencionais e de fluxo contínuo, transformando-as para o SPD, introduzindo disco de corte e componentes para abertura de sulco e deposição de fertilizante e sementes. Nesse processo as indústrias foram aperfeiçoando seus produtos e criando também semeadoras de precisão para o SPD. Os principais entraves para a expansão do SPD na década de 80 eram a falta de herbicidas eficientes ou o desconhecimento dos mesmos, e as máquinas que ainda não estavam apropriadas, principalmente para trabalhar nas regiões de solos argilosos, os quais nos primeiros anos de adoção apresentavam adensamento superficial.

Dezenas de interessados participaram ao longo dos anos de avaliações e dinâmicas de máquinas, como esta, em Guaíra/PR, em 2003

Dinâmicas — Surgiram na década de 90 exposições de grande porte no país com a apresentação dinâmica de máquinas agrícolas. Esses eventos passaram a ser ponto de referência para os novos lançamentos de máquinas, às quais eram lideradas pelos equipamentos voltados à agricultura conservacionista, em especial as de plantio direto. As principais foram a Expointer, em Esteio/RS, o Agrishow, em Ribeirão Preto/SP, o Show Rural, em Cascavel/ PR, dentre outros disseminados pelo país.

A Embrapa Trigo e o Iapar realizaram, de 1993 a 2003, estudos com semeadoras- adubadoras de plantio direto, avaliando 150 máquinas e interagindo com os fabricantes, que aperfeiçoavam seus produtos. Foi um momento estratégico, pois depois disso os fabricantes multiplicaram os modelos de máquinas, para atender às necessidades regionalizadas e demandas internacionais. Acredita- se que hoje deve haver mais de 300 modelos diferentes de semeadoras para o SPD no Brasil. A partir daí, o crescimento foi espantoso, com a área sob plantio direto no Brasil passando de 1 milhão de hectares em 1992 para 25 milhões em 2007.

As indústrias que estavam mais presentes com semeadoras de plantio direto no início da década de 90 eram Semeato, Imasa, Fankhauser, Vence Tudo, Jumil, Marchesan e Baldan, além de algumas que desapareceram. Mais para o final da década surgiram John Deere, Sfil, Max, Metasa e Kulzer & Kliemann; no início dos anos 2000, Planticenter, Gihal, Case, Morgenstern e, mais recentemente, a Stara, a Kuhn que adquiriu a Metasa, a AGCO, que adquiriu a Sfil, a KF, além das indústrias de equipamentos a tração animal que passaram a entrar no mercado de semeadoras mecanizadas, como Fitarelli, Knapik, Nsmafrense e Werner. Atualmente estamos presenciando a fusão da Semeato, da Case e da New Holland. Hoje, o sistema plantio direto está amplamente consolidado e difundido no Brasil.

Agricultura familiar — O surgimento do plantio direto na pequena propriedade teve origem no programa de estado Prorural, iniciado em 1984, no Paraná, onde havia um grande incentivo à tração animal. Foram avaliadas, estudadas e desenvolvidas várias máquinas apropriadas para a pequena propriedade, assim como estudos de manejo de solos de baixa aptidão e realizado um programa de cruzamento de animais de tração no estado. Isso resultou na criação de uma semeadora de plantio direto à tração animal, denominada Gralha Azul, em 1985, pela equipe de Engenharia Agrícola do Iapar.

Na continuidade, pelos estudos de validação de tecnologia na região Centro- Sul do estado, difundiu-se entre os produtores de máquinas, proliferando o número de indústrias interessadas por esse mercado com expansão rápida nos estados do RS, SC e PR. Havia testes frequentes de máquinas dos novos fabricantes e o Iapar monitorava a qualidade dos mesmos, difundindo parâmetros de projeto. O resultado foi surpreendente, sendo que na maioria das regiões, o produtor conservou o solo, reduziu a jornada de trabalho, reduziu os custos, aumentou a produtividade e o tamanho da área cultivada. Passou a dedicar mais tempo em atividades com maior valor agregado, como a pecuária leiteira, suínos, frangos, fumo, fruticultura e olericultura. A adoção do SPD na maior parte dos casos resultou em significativa melhoria da qualidade de vida desses pequenos produtores. O Governo Federal, a partir da metade da década de 90 passou a criar programas de financiamento agrícola com juros baixos e fixos, os quais passaram a priorizar a pequena propriedade, como é o caso do Pronaf, facilitando a adoção do SPD nesse estrato.

Hoje, o plantio direto está amplamente consolidado e difundido no país, como nesta imagem, no Centro- Oeste, de semeadura após a colheita

Surgiram vários fabricantes de equipamentos de tração animal de plantio direto, principalmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, como Mafrense, Ryc, Bufalo, Triton, Werner, Fitarelli, Iadel, Knapik, Jahnel e Sgarbossa. Algumas especializadas somente em pulverizadores, como a Guarani e Scotton, e a Krupp, tradicional fabricante de semeadoras-adubadoras manuais (matracas). Alguns desses desapareceram ou foram incorporados, determinando o surgimento de novas empresas.

Hoje, muitos produtores estão em processo de transição da tração animal e manual para a mecanizada, seja com pequenas máquinas de plantio direto, seja alugando serviços para a semeadura e pulverizando, ou simplesmente alugando ou utilizando máquinas em comum para a condução das culturas e se dedicando a outras atividades mais lucrativas.