Especial - História do quarentão SPD

A SAGA do plantio direto no Brasil

Homens determinados e providenciais pesquisas de instituições públicas levaram a ideia vista com muita desconfiança pela maioria a ganhar, safra após safra, milhões de hectares

Ruy Casão Junior, Augusto Guilherme de Araujo e Rafael Fuentes Llanillo, pesquisadores do Iapar e autores do livro Plantio Direto no Sul do Brasil

O livro “Plantio Direto no Sul do Brasil – Fatores que facilitaram a evolução do sistema e o desenvolvimento da mecanização conservacionista” faz um relato histórico da evolução tecnológica do sistema plantio direto ocorrido no Sul do Brasil, com destaque para a mecanização conservacionista, e visa descrever a experiência brasileira de evolução do sistema. A preocupação conservacionista na Região Sul começou a surgir logo após o período de desmatamento, com o início da mecanização intensiva para preparo do solo, principalmente a partir da década de 1970. O alto potencial erosivo das chuvas na região (entre 1.400 e 2 mil milímetros anuais), principalmente na primavera e verão, tornava evidente o conflito entre as características do ambiente e seu manejo pelo homem.

Naquele período já havia tentativa de minimização do revolvimento do solo no Família Bartz Rio Grande do Sul e no Paraná. O produtor pioneiro no sistema plantio direto foi Herbert Bartz, de Rolândia/PR, e quem importou a semeadora norte-americana Allis Chalmers, em 1972. Outra iniciativa importante correu nos Campos Gerais, Paraná, a partir de 1976, com a liderança dos produtores Franke Dijkstra e Manoel Henrique Pereira, cujas experiências resultaram na criação do Clube da Minhoca, da Fundação ABC, da Federação Brasileira do Plantio Direto na Palha (Febrapdp) e da Confederação das Associações de Agricultores para uma Agricultura Sustentável (Caapas), servindo de inspiração para criação de diversos Clubes de Amigos da Terra e outras instituições disseminadas pelo Brasil.

Nesta ocasião o Iapar e a Embrapa Trigo passaram a realizar pesquisas sistemáticas sobre o SPD, resultando, em 1981, no primeiro livro técnico sobre o tema publicado pelo Iapar com apoio da ICI. O instituto concentrou grande esforço na pesquisa e na difusão de práticas conservacionistas a partir de sua criação, em 1972, e iniciou pesquisas com SPD em 1976, envolvendo uma equipe multidisciplinar. No Rio Grande do Sul foram grandes os esforços no desenvolvimento de componentes rompedores de solo pela Embrapa Trigo, os quais serviram de modelo para as indústrias iniciarem a fabricação das primeiras semeadoras diretas nacionais. As características da semeadora inglesa de fluxo contínuo, modelo Bettinson-3D, e os discos duplos desencontrados de origem canadense foram incorporados às primeiras semeadoras que, na época, eram dedicadas às culturas de grãos finos.

A década de 1980 foi um período de estudos no qual ainda não havia uma definição clara sobre quais requisitos uma semeadora de SPD deveria atender. Os produtores e as pequenas oficinas adaptavam semeadoras de precisão convencionais e de fluxo contínuo, transformando-as para o SPD com a introdução de disco de corte e componentes para abertura de sulco e deposição de fertilizante e sementes. Ao longo desse processo, as indústrias aperfeiçoaram seus produtos e passaram a projetar modelos de semeadoras de precisão especificamente para o SPD.

Programas de pesquisa — Nessa época, um dos principais entraves para a expansão do SPD era a falta de herbicidas eficientes e de máquinas, as quais ainda não estavam apropriadas para operar em solos argilosos com adensamento superficial, como é comum no SPD. Por outro lado, os conceitos de rotação de culturas e de uso de plantas de cobertura passaram a se vincular ao SPD em consequência do avanço nas pesquisas e na experiência de agricultores. A alta do preço do petróleo e a elevação dos custos de produção foi outro fator, à época, que levou o produtor a adotar o SPD, uma vez que era o sistema era menos exigente em horas- máquina. Colaborou também a redução no preço do glifosato, cuja fabricação iniciou em 1984 e, ainda nessa década, passou a ser fabricado por várias empresas nacionais.

Vários programas de desenvolvimento rural com ênfase em manejo e conservação dos recursos naturais foram implantados na região na década de 1980, e o SPD passou a contar com apoio financeiro para sua difusão e adoção. Destacam-se Pmisa, Paranarural e Paraná 12 Meses, no Paraná, Piucs, Projeto Saraquá e Projeto Metas, no Rio Grande do Sul, além de outros. Tais projetos contaram com apoio financeiro de instituições internacionais de fomento e foram executados por ações integradas por empresas privadas e públicas de extensão, pesquisa e universidades.

O desenvolvimento da semeadora de precisão modelo PAR, da Semeato, no início dos anos 1990 foi outro marco importante, pois o modelo TD e de outras semeadoras de fluxo contínuo não apresentavam desempenho adequado na semeadura de soja. Nesta ocasião ainda era forte o mito de que a semeadora de SPD deveria ser pesada, principalmente pelo fato de usarem discos duplos desencontrados como rompedores de solo e de que em solos argilosos com adensamento superficial era muito difícil realizar a semeadura. A partir de 1992 as indústrias nacionais passaram a lançar vários novos modelos de semeadoras de precisão, o que fortaleceu a adoção do SPD.

A adoção de hastes sulcadoras afastadas do disco de corte nas semeadoras de precisão e em solos argilosos passou a ser empregada por várias indústrias, oficinas e produtores em diferentes regiões. A diversidade de modelos e fabricantes motivou Embrapa e Iapar a realizarem avaliações de desempenho de semeadoras comerciais visando gerar informações sobre seu desempenho em diferentes condições. Tais estudos foram realizados pela Embrapa Trigo, em Passo Fundo/RS, entre 1993 a 1997, e pelo Iapar, entre 1996 e 2003, promovendo forte interação entre pesquisa e fabricantes. O trabalho do Iapar abrangeu 18 fabricantes e cerca de 150 modelos diferentes de semeadorasadubadoras de plantio direto, tanto de precisão como de fluxo contínuo. Foi uma ação estratégica que permitiu o avanço tecnológico das máquinas que passaram a se diversificar ainda mais visando atender necessidades regionalizadas e demandas internacionais.

Os primeiros trabalhos de pesquisa sobre SPD voltado à pequena propriedade ocorreram no âmbito do Programa Prorural, iniciado em 1984, no Paraná, o qual apresentava um componente importante de apoio ao desenvolvimento da mecanização à tração animal. Além de outras, suas ações incluíam avaliações de campo e projetos de máquinas apropriadas para a pequena propriedade, estudos de manejo de solos de baixa aptidão e um programa de melhoramento genético de animais de tração no Paraná com a instalação de postos de monta em várias regiões. Um dos principais resultados foi o desenvolvimento, em 1985, pelo Iapar, de uma semeadora de plantio direto à tração animal denominada “Gralha Azul”.